Ingrid Guimarães e Mônica Martelli relembram histórias de três décadas de amizade e protagonizam um papo cheio de humor, bastidores e revelações no Flow
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Ingrid Guimarães e Mônica Martelli relembram histórias de três décadas de amizade e protagonizam um papo cheio de humor, bastidores e revelações no Flow

Salve, família.

Se tu é brasileiro, tu já riu de uma dessas duas sem nem saber o nome delas. Talvez tenha sido numa sessão da tarde. Talvez tua mãe tenha arrastado a família inteira pro cinema num feriado. De Pernas pro Ar, Minha Vida em Marte, Fala Sério Mãe, Minha Irmã e Eu. Pois é. Foram elas.

A Ingrid Guimarães e a Mônica Martelli sentaram aqui na mesa do Flow. E mano, eu vou ser sincero contigo: eu falei na cara delas no final que elas falam pra caralho. Duas horas de papo e eu acho que emiti umas 40 frases inteiras.


Só que tem uma parada. No meio dessa bagunça toda saiu história de camarim das feias, de mãe com pinico na bancada da Câmara, de quatro mulheres reféns de um cara em alto-mar, e teve uma hora que eu cutuquei um assunto espinhoso e o papo esquentou de verdade. Meu público aqui é majoritariamente homem, tá ligado? Eu tava ali ouvindo duas mulheres falarem de coisa que eu, na moral, nunca precisei pensar. Sou pai de menina. Então eu tava mais pra aluno do que pra apresentador.

Bora.

Tudo começou numa salinha, com uma agendinha e um golpe de cachê

1996. O Chico Anysio tava montando o Chico Total. Fizeram teste 400 comediantes. Passaram 15.

A Mônica conta que chegou na salinha pra assinar contrato, sentou no sofazinho do lado de uma menina que ela nunca tinha visto na vida e a menina puxou uma agendinha e escreveu: "vão te oferecer 800, não aceita, pede 900".

A menina era a Ingrid.

E olha o detalhe que faz essa história ser perfeita: o cachê era 800 pra todo mundo. Igualzinho. Comediante nenhum ia arrancar um centavo a mais. O golpe não colou.

A amizade colou. Trinta anos depois elas tão estreando um filme juntas.

Uma era tartaruga. A outra era formiga. E nem a formiga rainha.

Antes disso, o quarto de emprego da geração delas era o programa da Angélica, aquele que toda semana tinha um bicho diferente e chamavam a galera pra fazer o bicho.

A Mônica foi escalada pra ser cobra. E ela é alta, então já se achou: "cobra lânguida, gata pra caralho, eu vou bombar de cobra". Chegou no camarim, deitou no sofá do lado do amigo dela que tava vestido de pinguim e falou que tinha se dado bem. Aí entrou a figurinista e perguntou quem era a cobra. Ela: "sou eu". A figurinista: "caiu, tu agora é a tartaruga".

O amigo conta que o camarim escureceu de repente. Era o casco chegando na porta.

A Ingrid foi formiga. E formiga nunca é uma. É dez. Ela era uma das dez, e olha, nem pra formiga chefe ela foi escolhida.

Depois vieram os papéis de novela. Uma fazendo secretária, a outra fazendo empregada perguntando se a senhora aceita açúcar ou adoçante.

A Mônica falou uma parada que me pegou: hoje isso virou meme motivacional. Tipo, tu tá no Twitter, tá achando que tua vida não vai dar certo e aparece "pense em Ingrid e Mônica". Só que na época era angústia pura. O mundo te cobra estar pronto aos 30. Casado, com filho, com carreira encaminhada. Tu olha pro lado, vê os amigos indo e acha que ficou pra trás.

Trajetória bonita é coisa que só existe olhando pra trás.

E existia mesmo um camarim das feias

Essa parte eu não sabia e me deixou meio sem reação.

Na época, comediante mulher não protagonizava nada. Programa de humor era do Jô, era do Chico, era do Didi. Mulher no palco era ou muda de biquíni ou a engraçada, e olha lá. E um diretor amigo da Ingrid contou pra ela, anos depois, que nos bastidores a galera falava assim mesmo, sem cerimônia: tu vai pro camarim das bonitas ou pro das feias?

A Ingrid contou que chegou pra falar com um diretor da Globo de barriga de fora, porque era o estilo dela na época, aquele lance hippie carioca. E ouviu que ela tinha um tipo muito exótico, que dificilmente ia rolar protagonista, mas que a barriga dela era linda.

E aí ela passou anos indo em teste de barriga de fora. Até quando tava frio. Porque ela achou que era aquilo ali que ia abrir a porta.

Porra. A ficha só caiu muitos anos depois.

O caixote

A mãe da Mônica é de Macaé, foi vereadora, se elegeu com 35 anos numa época que mulher na política era raridade. E fazia sessão na Câmara com pinico em cima da bancada pra exigir banheiro feminino no plenário. Animal.

A Mônica tava travada nessa fase. Fazendo videobook com câmera emprestada de amigo duro, entregando fitinha pra produtor de elenco e sempre ficando "editada". Sabe o quase? Cem fazem teste, cinco ficam editados, um passa. Ela era a editada.

Aí a mãe virou e falou: o que tu tá esperando, que alguém tenha olhos pra ti? Pega um caixote, vai pra praça, sobe em cima e fala teu texto pro mundo.

O caixote dela acabou sendo o Teatro Cândido Mendes, em Ipanema. E de lá saiu Os Homens São de Marte, que virou peça, virou filme, virou tudo.

A Ingrid teve o momento dela com o Guel Arraes. Ela foi pedir trabalho depois de ver TV Pirata e descobrir que existia mulher fazendo papel de homem, de tudo, sem ser só a feia ou a gostosa. O Guel falou que aquela galera dele era uma turma que já tinha crescido junta. E soltou: faça a sua turma. Escolha a sua turma.

Ela fez com a Heloísa Périssé. Depois com a Tatá. Agora com a Mônica.

E cara, isso me acertou em cheio, porque o meu caixote foi uma webcam em cima de caixa de uísque. Ninguém me chamou pra nada. A gente montou a turma e ligou a câmera. É isso, e não tem outro jeito.

Ninguém vem te escolher. Tu escolhe.

Aí eu cutuquei e o papo esquentou

Eu levantei o seguinte: antigamente o filtro era brutal na entrada. Tu precisava querer pra caralho pra passar. Hoje qualquer um posta qualquer coisa, mas o filtro só mudou de lugar, porque tem tanta gente que só a nata é vista.

Elas concordaram. Mas aí eu puxei pro lado espinhoso, e aí a coisa ficou boa.

Eu falei que, na minha leitura, várias militâncias esticaram a corda até enfraquecer o próprio movimento. Que tem pauta que só existe na internet enquanto na rua tem gente apanhando e morrendo. E que, pra mim, o problema é anterior a tudo isso: é educação. Eu já vivi de contar moeda, e quem tá contando moeda não tá pensando na vida. Tá pensando em pagar aluguel e não ser mandado embora.

A Mônica discordou de frente. Pra ela, todo movimento precisa ser radical num primeiro momento pra conseguir se instalar e ser ouvido, porque a desigualdade é grande demais pra pedir com jeitinho.

A Ingrid foi por outro caminho. Ela disse que o feminismo, antes de qualquer coisa, informa. Contou que só descobriu o que era abuso patrimonial fazendo uma campanha e que reconheceu ali coisa que ela mesma já tinha vivido.

E trouxe o exemplo de uma influencer conservadora americana defendendo que deveria existir um voto por família, o que na prática significa a mulher abrir mão do voto dela. O ponto da Ingrid: defende o que tu quiser, mas não diminui uma coisa que foi conquistada na porrada.

A gente não fechou acordo. E tá ótimo assim.

Teve um detalhe que eu achei o mais bonito do bloco, aliás. A Ingrid vem de família tradicional de Goiânia, mãe tucana apaixonada pelo Fernando Henrique. A Mônica vem de casa militante de esquerda. E as duas falaram, cada uma do seu canto, que na mesa da casa delas, discussão política era quase divertida.

Adversário com projeto é uma coisa. Inimigo é outra.

Reféns de um macho branco em alto-mar

Tá, mas agora vem a parte que me fez chorar de rir.

Elas foram pra Ibiza com as filhas. E existem duas Ibizas: a que dorme às 10 da manhã porque virou na festa e a de família. Elas foram pra de família, que fica a 40 minutos de tudo.

A Ingrid alugou um carro na categoria SUV, porque a Mônica viaja com duas malas só de remédio (de doença que ela teve, que ela tem e que ela pode vir a ter). Chegaram lá e o carro era um Citroën.

A Mônica militou na hora. Não aceitamos Citroën. Virou pro cara e disse que aquilo tava acontecendo porque eram quatro mulheres viajando sozinhas. Virou pras filhas e falou: tão vendo o que tá rolando aqui? Porque, segundo ela, educação é no ato, no momento.

Aí um cara na fila atrás disse que queria o Citroën. E ela desconfiou mais ainda: se o homem quer, tem coisa.

A Ingrid, no meio disso tudo, perguntou pra ela por que ela não queria o Citroën.

Resposta: porque quando ela tinha 20 anos um primo dela falou que não era bom.

Ficaram com o Citroën. Coube tudo. O carro era um espetáculo.

Só que teve a parte que não é engraçada. Elas alugaram um barquinho pra passear com as meninas, o contrato dava direito a quatro praias e, na segunda praia, em alto-mar, o marinheiro virou e disse que tinha acabado a gasolina.

Não ajudou com sapato, não fez nada do que devia. E a Mônica leu a situação na hora: quatro mulheres, duas mães, duas meninas, no meio do mar, com um cara que manda no barco. Não dá pra brigar.

Aí elas fizeram o que a Mônica chama de teoria (e que tá no filme): quando dá merda, tu finge pras meninas que tá tudo bem, senão tu estraga o dia delas.

Mergulharam, riram, voltaram. E quando desceram no cais, a Ingrid foi andando com o ódio subindo devagar. Uns 45 minutos depois, do nada, ela virou pra trás e gritou: moleque filho da puta.

As meninas já tinham virado a página fazia meia hora. Só olharam e falaram "mano, lá vem elas".

Uma milita na hora. A outra explode com atraso. É a dinâmica.

O filme nasceu porque as filhas ligaram a câmera

Aqui é onde tudo se junta.

A Clara e a Júlia, filhas delas, começaram a filmar as duas nas viagens só pra rir entre elas. Um dia foi parar na internet. Viralizou. E agora, quando elas voltam de viagem, tem gente esperando no aeroporto pra reclamar que acabou a série.

Disso saiu Minha Melhor Amiga, dirigido pela Susana Garcia, rodado no Rio, em Lisboa e em Sevilha. As protagonistas se chamam Júlia e Clara, homenagem às meninas.

O melhor detalhe do processo: elas chegaram uma semana antes em Lisboa e a Ingrid perguntou pra diretora se não ia ter ensaio. A Susana olhou pras duas e falou que elas estavam ensaiando havia 30 anos.

E a Susana deixava a câmera rodando. Tem ataque de riso de verdade no filme. Tem ataque de choro de verdade. Tem coisa que elas nem sabiam que tava gravando e foi pro corte final.

Outra parada que elas fizeram questão de marcar: o marido no filme não é vilão. A Ingrid falou que dramaturgicamente a gente precisa parar com isso, porque na vida real os dois tavam remando o barquinho juntos e chegaram na merda juntos. Não tem monstro. Tem duas pessoas cansadas.

Homem-Aranha, Vingadores e a maldita primeira semana

Esse bloco aqui é pra quem gosta de entender como o bagulho funciona por dentro.

De Pernas pro Ar 3 estreou na mesma semana que Vingadores. Oito salas de Vingadores, uma de De Pernas pro Ar. Tu pode juntar todos os comediantes do Brasil na mesma fita, não tem jeito. É igual lançar teu joguinho em novembro no mês do GTA 6. Tu vai se foder e ponto.

Por isso existe a lei de cota de telas, que garante um percentual das salas pra filme brasileiro. Elas defendem com unhas e dentes, e fizeram questão de dizer que a Rouanet, que a galera odeia, nem é a lei que banca cinema nacional.

Eu falei o que eu penso: parte da sociedade brasileira enxerga investimento em cultura como desperdício de dinheiro. Eu não enxergo. Eu acho que a gente podia ser um país mais rico exportando a nossa cultura, tipo a Coreia fez com dorama e a K-pop, tipo o Japão fez com anime. Só que eu continuo achando que cota vira hábito de verdade quando resolver o problema de base.

Elas rebateram que cultura é educação, que é ali que tá o costume, a comida, a música, o que aquele povo pensa.

E aí a Ingrid mandou a frase que resume o mercado inteiro: o Brasil não é o Leblon nem os Jardins. O Brasil é o subúrbio. Se teu filme não chega em Madureira, ele não fez sucesso.

O que tá salvando o cinema, segundo elas? Geração Z. A filha da Ingrid leva a mãe ao cinema, não o contrário.

O que eu anotei desse papo

Cara, eu saí com o caderno cheio.

Mas a parte que me deixou quieto não foi nenhuma dessas. Foi quando elas contaram da única vez que ficaram afastadas de verdade. A Ingrid falou que foi como se ela tivesse se separado de um marido. A família inteira sofreu junto. O marido dela chegou a ficar com ciúmes do tamanho do sofrimento e falou que queria ver se ela ia sofrer daquele jeito por ele.

Elas engravidaram na mesma época, as filhas nasceram na mesma semana, dividiam babá, dividiam festa infantil pra ratear custo (tinha negociação de tema, tipo "convence a Júlia a aceitar Harry Potter"). Uma ajudou a criar a filha da outra, literalmente.


Rede de apoio é uma expressão bonitinha. Na prática é isso aí.

Se tu tá travado achando que alguém vai te descobrir, pega teu caixote. Se tu tá sozinho na tua área, faz a tua turma. E se tu já tem uma pessoa dessas na tua vida há 30 anos, liga pra ela hoje, porra.

Minha Melhor Amiga estreia dia 3 de setembro nos cinemas. E as duas insistiram numa coisa que eu não sabia que pesava tanto: é a primeira semana que decide o destino de um filme nacional. Então se tu for, vai logo. Leva as amigas. E se tu é homem e tá começando a sair com alguém, elas mandaram o recado: leva, que faz moral.

O papo completo tá lá no canal, com as histórias que não coube aqui (tem uma sobre comprar o estoque inteiro de uma fábrica falida de fralda de pano que é surreal). Dá o like, comenta, compartilha, manda no grupo da igreja.

A gente se vê depois.


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