
Fala, galera.
Se tu tem mais de 30, tu já ficou acordado de madrugada esperando o Popó subir no ringue. Se tu tem menos de 30, tu conhece o cara que apagou o Bambam em 39 segundos e dominou a internet no dia seguinte. É o mesmo sujeito. E ele sentou aqui na mesa do Flow usando uma camisa com a minha cara estampada, o que já começa meio estranho, né. Chique, hein.
Só que o papo foi pra lugares que eu não tava esperando. Como é dormir no chão até os 23 anos. Por que ele comprou uma casa fiado um mês antes de disputar o título mundial. E teve uma hora que ele falou da mãe e eu simplesmente não soube o que responder.
Eu não manjo porra nenhuma de boxe tecnicamente falando, tá ligado? Eu sei é assistir. Então pra mim esse papo foi aula do começo ao fim. Bora.
O apelido vem do peito da mãe (não tô inventando)
Primeira coisa que eu perguntei, porque eu sou curioso pra caralho: de onde vem "Popó"?
Cara. O nome dele é Acelino. E ele mamou até os 5 anos de idade. Cinco. Aí quando ele queria o peito da mãe, ele pedia "popó, popó, popó". Ficou. O maior nocauteador da história do boxe brasileiro tem apelido de bebê pedindo teta.
Eu ri. Mas guarda essa história da mãe aí, porque ela volta lá na frente e volta pesado.
Ele dormiu no chão até os 23
Aqui o papo virou. O Popó cresceu numa casa de 10 metros quadrados sem janela, em Salvador. Sem banheiro. A necessidade era feita num pinico e jogada numa fossa do lado de fora. A luz era um gato puxado da vizinha, que ele pagava todo mês. O fogão era de querosene. O aluguel era 30 conto e a casa nem era deles. Hoje passa um viaduto por cima de onde era aquilo.
O pai bebia e machucava a mãe dentro de casa. A mãe era faxineira, saía o dia todo. Quem criava a molecada eram os irmãos mais velhos.
E aí vem a parte que me pegou. Tinha uma vizinha, dona Elizabeth, que mandava os filhos levarem sobra de comida e pão quando via a criançada sentada na porta sem ter o que comer. E tinha a dona Orita, que dava almoço e janta pro Popó e pro irmão todo santo dia. Em troca, os dois iam com ela pra feira das Sete Portas na terça carregar as coisas.
O cara falou uma frase que eu anotei: foi isso que não deixou eles fazerem merda. Porque quando tu abre a geladeira e não tem nada, e tu vê teu pai bêbado machucando tua mãe, tua cabeça desfoca. Tu vai pro outro rumo.
E enquanto isso, com 12, 13 anos, ele escrevia no caderno da escola: Popó campeão mundial. E treinava o autógrafo. Treinava o autógrafo, mano.
Aí olha o tamanho da loucura. Um mês antes de disputar o cinturão mundial, ele compra uma casa fiado. Fiado. Pra pagar depois da luta. Ele nem sabia se ia ganhar, mas comprou. E falou que foi ali que veio a vontade real de vencer, porque agora tinha uma conta pra pagar.
Ganhou por nocaute com 1 minuto e 45 do primeiro round. Numa luta marcada pra 12.
E adivinha quanto ele recebeu pelo título mundial? Vinte e cinco mil. Chegaram 20 na mão dele. Não dava pra pagar a casa. Quem completou os 5 mil foi o seu Armando, do Monumento Esporte, que virou compadre dele e hoje é padrinho do Iago, filho do Popó.
O cara foi campeão do mundo e precisou de vaquinha pra pagar a casa da mãe. É foda.
O ídolo dele morava dentro de casa
Eu perguntei quem era o ídolo. Achei que ia vir Rocky Marciano, Mike Tyson, sei lá.
Veio o irmão. Luiz Cláudio. Olímpico em Barcelona 92, medalhista pan-americano, cinco vezes campeão brasileiro. O moleque de 11 anos ia assistir o irmão lutar e falava "eu quero ser isso aí".
Pois é. Enquanto a gente discute referências, tinha um cara com fome em Salvador que achou a dele na sala de casa.
Antes do mundial ele já tinha sido campeão latino, sul-americano, interamericano... peraí, tinha mais. Norte-americano e hispano também. Seis cinturões antes de disputar o principal. E nenhum deles pagava as contas, porque os empresários levavam até 75% de tudo que ele ganhava. Dava pra fazer um mercado pra mãe e comprar uma geladeira.
Luva de 8 onças, 45 pontos na cara e a malandragem do corner
Agora a parte que eu fiquei viciado, porque eu adoro entender como o bagulho funciona por dentro.
Tu sabia que existe uma luva certa pra cada coisa? Eu não sabia. A luva de 8 onças é a mais fina, é com a que ele lutou 29 vezes e nocauteou 29 caras seguidos. E ele descreve a sensação de um jeito que dá até arrepio: tu sente o osso pegar. Aí tu vai pra matar.
Só que a luva de treino é outra história. Sparring é 16, 18 onças. E o Popó falou uma parada que serve pra qualquer um que treina numa academia de bairro: se tu faz luva com a mesma luva fina que tu usa pra bater no saco, tu tá matando alguém aos poucos. Ou sendo morto. Não é a força, é a quantidade de porrada repetida na cabeça.
O que tu tá falando então é que a lesão não vem da luta. Vem do treino, todo dia, ano após ano. Ele mesmo disse: se ele não tivesse tido luva adequada nesses 35 anos, ele tava conversando comigo arrastado.
E como é que faz quando abre o rosto no meio da luta? Vaselina com adrenalina. O cara do corner passa e o vaso não dilata, o sangue segura. Na luta contra o Casamayor ele levou 45 pontos no rosto. Quarenta e cinco. Numa luta só.
Ah, e tem uma linguagem secreta ali no canto do ringue. O treinador grita "peito na cara" e o lutador já sabe que é um golpe embaixo e outro em cima. Grita "jeb" e o cara solta automático, sem pensar, porque de onde o treinador tá ele enxerga uma luta completamente diferente da que o lutador tá enxergando.
Pensa nisso. Tu tá sozinho ali dentro, mas tem um cara vendo o jogo de cima que pode ganhar a luta pra ti. Se tu escutar. É igualzinho o Flow: eu tô aqui na frente da câmera, mas quem enxerga o programa de verdade é o Jean lá atrás.
Raiva no ringue é o jeito mais rápido de perder tudo
O Bambam entrou na cabeça dele. O próprio Popó admitiu.
O cara passou meses falando merda, inventando história do período em que o Popó foi deputado federal, dizendo que tinha print de mulher do Brasil inteiro pra soltar. Chegou a causar problema dentro da casa dele. Levou pro coração, nas palavras do próprio.
Mas aí vem a diferença entre entrar na mente e entrar no psicológico. Ele explicou assim: tu guarda aquela raiva num cantinho pra usar na hora do golpe certo. Se tu levar a raiva pra dentro do ringue, lascou tudo.
E ele sobe no ringue calmo. Do mesmo jeito que ele tava sentado ali conversando comigo. Ele que segura a onda no vestiário, com o treinador nervoso, o irmão nervoso, todo mundo tremendo. Quem vai apanhar é ele e é ele quem acalma a galera.
Resultado: 39 segundos. Ele confessou que a vontade era deixar durar mais um pouco só pra apagar de verdade, e chegou a dar dois socos na cabeça do Bambam quando o outro já tava de costas.
Sobre outros desafiantes, ele foi honesto na maldade: falou que ele, e provavelmente muita gente, gostaria de dar uma quebrada no Pablo Marçal. Foi na galhofa, tá? Mas ele disse.
E teve a humildade também. Se o J únior Cigano, o Vanderlei ou o José Aldo chamarem ele pro MMA, ele não vai. Não é a praia dele. Ele não aguenta tomar chute, não sabe sair de uma chave. O respeito dele é pela coragem dos caras que aceitam entrar num terreno que não é o deles.
"Não tenho mais a quem pedir a bênção"
Aí eu perguntei do feijão da mãe dele. Aquele com farofa, que é lendário.
Ele falou que perdeu a mãe em dezembro.
Mano. A cunhada dele pegou o tempero certinho e faz igual, mas não é isso. O que ele sente falta é de outra coisa: a academia onde ele treina é em cima da casa que era da mãe. Então todo dia, todo dia mesmo, ele subia pra treinar e antes passava lá e via ela sentadinha e pedia a bênção.
Hoje ele chega e não tem a quem pedir.
Eu fiquei quieto uns segundos ali. Porque o meu pai tá bem velhinho, tá ligado? E ele já não lembra direito das coisas. Dá uma sensação estranha até de mandar um salve pra ele daqui. Eu falei isso pro Popó e ele foi direto: quando perde é pior ainda, porque tu vê o sofrimento e a única coisa que tu consegue pedir é que Deus leve sem dor.
Eu não passei por isso ainda. Ele passou. E ele disse que quando eu passar, aí a gente conversa de novo.
Pois é.
O dia em que ele apanhou e nem ficou sabendo
Pra aliviar, porque eu não aguentava mais aquele nó na garganta, eu puxei a confusão com o Vanderlei Silva.
E cara, essa parte é surreal. O Popó não sabia de nada. Nada.
Não sabia que o Dida tinha metido oito, nove socos nele em cima do ringue. Não sabia que o filho dele tinha trocado porrada com o filho do Vanderlei. Não sabia que o irmão dele tinha apanhado. Ele tava com o rosto machucado, o olho inchado, e descobriu tudo depois, vendo vídeo na televisão.
Sabe por que ele ficou sentado no ringue enquanto o circo pegava fogo em volta? Porque ele tinha bônus de vitória e bônus de nocaute no contrato. Se ele saísse dali sem levantar a mão, podia contar como abandono. O cara tava em modo planilha no meio de um quebra-pau generalizado.
E hoje? Gravaram dois comerciais juntos. Oito horas de gravação, comendo sanduíche, dando risada entre um take e outro. Acabou, cada um foi pro seu lado. Ele mesmo disse que nunca foram amigos antes e não precisam ser agora.
Maduro pra caralho, na moral.
51 anos e o golpe que ele vê chegando e não consegue mais desviar
Essa foi a frase mais honesta do papo inteiro.
Antigamente ele via o soco antes de sair e já sabia pra onde ia escapar. Hoje o golpe tá aqui na cara dele, ele enxerga, e o corpo não vai. Nessa semana mesmo, fazendo luva leve com o filho, tomou umas que uns anos atrás nem encostavam.
Preparo físico que ele fazia em um mês, hoje leva um ano.
Ele faz mais duas lutas e para. Falei pra ele que eu já escutei essa história antes, ele riu, mas jurou. A próxima é dia 17 de outubro, em Miami, contra o Mike Oliveira, que ele já nocauteou no nono round lá em 2012 em Punta del Este.
E ele não vai parar de treinar nunca. Isso não é frescura de atleta, é sobrevivência: ele falou que ex-atleta que para de gastar energia acumula tudo, e aí vem pressão, colesterol, sequela psicológica. Ele treina terça, quinta e sábado com uns amigos treinadores só pela resenha.
O que me marcou foi o motivo dele ainda subir no ringue com 51 anos. Depois que ele lutou com o Anderson Nunes, mudou o jeito que as crianças olham pra ele no aeroporto. Antes era "filho, aquele é o campeão". Agora é "pai, aquele bateu no Anderson Nunes". E as academias de boxe encheram. O esporte dele cresceu.
O que eu anotei desse papo
O Popó falou de uma coisa que não sai da minha cabeça: os ídolos de bairro sumiram.
Antigamente todo bairro tinha o cara. O melhor de queimada, de pingue-pongue, sei lá. Hoje o moleque olha pro lado e o único cara com a motinha e o correntão é o traficante. Na Bahia tem três, quatro facções mandando mais que o governo do estado, segundo ele.
E aí ele contou que tentou levar a luta contra o Anderson Nunes pra Salvador e o governo pediu que ele pagasse as taxas do ginásio. Balneário Camboriú pagou pra receber o evento. Salvador quis cobrar. O ginásio Balbininho, onde ele lutou e onde o Holyfield já lutou, foi derrubado.
Tu imagina quantos campeões a gente já deixou passar batido nesse país?
Porque olha, o Popó só chegou onde chegou porque teve uma dona Orita botando comida no prato dele. Depois teve o seu Armando completando o dinheiro da casa. E teve o seu Pepe, um argentino de 80 anos lá de Santos que bancou salário mínimo pra cinco lutadores que ele nem conhecia, durante dois anos, só porque o Popó pediu.
Foi esse mesmo seu Pepe, aliás, que chamou ele pra jantar e quando ele chegou tinha um Pelé sentado na mesa esperando. O Pelé, num Fantástico, tinha dito que a pessoa que ele mais queria conhecer e ainda não conhecia era o Popó. Chegar nesse nível é foda demais, mano.
Mas o que eu levo pra mim é outra coisa. Ele disse que tu pode estar fodido de tudo, sem grana, sem casa, sem nada, mas tu não pode estar fodido pra receber a oportunidade. Porque tu não sabe o dia que ela chega. E quando chegar, tu tem que estar pronto pra executar.
Isso serve pra mim aqui no Flow. E se não servir pra tu no teu dia a dia, serve pra nortear tua carreira, teu treino, teu negócio, o caralho a quatro.
Se tu quer ver o papo completo, com o momento em que ele me deu um soquinho no braço e eu quase caí da cadeira, corre lá no YouTube.
Dá o like, comenta aí qual luta do Popó tu assistiu de madrugada e manda esse vídeo pro teu tio que jurava que o Rocky era documentário.
A gente se vê depois. Beijinho.
