Marcelo Baccarini relembra 34 anos acompanhando de perto os altos e baixos de empresas brasileiras e conta no Flow o que aprendeu sobre empreender em um país no qual nem sempre a oportunidade espera o boleto vencer
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Marcelo Baccarini relembra 34 anos acompanhando de perto os altos e baixos de empresas brasileiras e conta no Flow o que aprendeu sobre empreender em um país no qual nem sempre a oportunidade espera o boleto vencer

Fala, galera.

Deixa eu te perguntar uma coisa. Tu já parou num domingo de manhã, na frente da TV, vidrado numa matéria sobre um cara que fabrica chocolate usando aspirador de pó pra tirar a casca da amêndoa? Pois é. Se tu é brasileiro, chance grande de tu já ter parado. E chance ainda maior de ser o Pequenas Empresas & Grandes Negócios.

O cara que apresenta esse programa há 34 anos sentou aqui na mesa do Flow.

(E se tu não bate a cara dele com o PEGN, talvez bata com o Bombril. Ele mesmo brincou que um terço do Brasil acha que ele é o cara do Bombril, outro terço acha que ele é o ET do Rodolfo do SBT, e sobra um terço que sabe quem ele é de verdade. Publicidade feita, né.)

Marcelo Baccarini. Umas 5.000 empresas visitadas, na conta dele. E ele veio com a Maída, esposa, sócia e responsável por uma das paradas mais malucas que eu já ouvi nessa mesa. Mas essa parte eu guardo pro meio do texto.



Eu precisava desse papo, cara. Sério. Porque o Flow começou com webcam em cima de caixa de uísque, tá ligado? A gente aprendeu tomando porrada, na inovação porca mesmo. Então quando senta na minha frente um cara que viu 5.000 negócios darem certo e darem errado, eu viro aluno na hora. Anotei um monte.

A mãe mandou fazer jornalismo e a mulher mandou fazer YouTube

A virada de chave dele começa engraçada. O pai queria que ele fizesse engenharia, a mãe queria jornalismo. Quem mandava em casa era a mãe. Pronto, tá explicado.

Aí vieram 34 anos de estrada. Ele entrou na época em que empresário fazia controle de estoque no papelzinho e ligava pra fornecedor de orelhão. O cara tem curso de datilografia, mano. Curso. De. Datilografia.

Só que nos últimos anos o programa mudou de lugar dentro da Globo e ele saiu da rua. E ele falou uma coisa que me pegou: ficou uma "pontinha no coração", porque ele é de rua, ele gosta de fazer reportagem. Aí a mulher passou UM ANO insistindo pra ele abrir um canal no YouTube. Um ano.

Um cara de 34 anos de TV, sem Instagram, sem nada.

E aí, no momento em que ele achava que ia calçar o chinelo de pantufa e desacelerar, ele começou tudo de novo. Do zero. Hoje sai matéria nova toda sexta.

Pensa nisso. O cara tinha todo motivo do mundo pra dizer "já fiz a minha parte". Não disse.

O empreendedor brasileiro não é o do MBA. É o do boleto

Aí eu perguntei o que mais mudou nesses 34 anos, e ele foi direto: mudou o empresário e mudou o consumidor.

O bagulho é o seguinte. Nos anos 60, 70, nascia muita gente e existia pouca empresa. Os caras nadavam de braçada. Hoje nasce menos gente e tem empresa pra caralho, porque a barreira de entrada caiu no chão.

Antes tu precisava alugar uma loja, montar produção, essas coisas. Hoje tu abre no Instagram numa terça à noite.

Resultado: consumidor exigente à beça. E, como ele falou, o patrão do empresário é o cliente.

Mas a parte que eu mais gostei foi quando ele desmontou aquela imagem do empreendedor de palestra. Sabe aquele cara que estuda o mercado, identifica a oportunidade, faz o business plan bonitinho? O Baccarini falou que o empreendedor brasileiro não é esse.

O empreendedor brasileiro é o cara que perdeu o emprego. É o cara mais velho que não arruma vaga. É o cara que tem pensão pra pagar. E aí veio a frase que eu anotei aqui do lado: o boleto vence antes da oportunidade.

Porra.

Ele aprende rápido porque não tem escolha. E transforma escassez em solução. 

Por isso o brasileiro é criativo desse jeito absurdo: bota aspirador pra descascar amêndoa, usa fita crepe como equipamento, transforma a pontinha da cenoura em molho, monta uma loja inteira em cima de uma bicicleta.

E às vezes o cara aplica uma teoria de marketing sem saber o nome dela. O Baccarini foi fazer matéria num restaurante meio vazio e tinha uma fila do lado de fora. Ele estranhou. 

O dono explicou: segura o pessoal na porta um pouquinho, porque quem passa na rua vê fila, acha que é bom e quer entrar. Isso tem nome, é prova social, tem estudo, tem livro.

O cara nunca leu o livro. Ele leu a rua.

Aí vem a parte que mata geral: dinheiro

Perguntei qual o maior erro de quem empreende. A resposta veio na hora: finanças.

E as histórias são de doer. Tem o Toninho, um cara que conserta sofá e passou onze anos pagando dívida. Chegou a pegar dinheiro com agiota e ser ameaçado de morte. Onze anos, mano.

Tem o cara da praça de alimentação todo empolgado: "faturei 110 mil!". O Baccarini pergunta quanto ele lucrou. Silêncio. Pergunta em quanto tempo ele paga e em quanto tempo ele recebe. Silêncio de novo. O cara paga à vista e recebe a prazo, e vai virando bola de neve até estourar o fluxo de caixa.

E o clássico dos clássicos, que eu não conhecia e me deixou de queixo caído: o cara que quebrou faturando.

É o seguinte. O cara fazia calça e camiseta. A Anitta comprou uma calça dele, com o nome da marca escrito bem grande, e apareceu com ela num programa da Globo ao vivo. Explodiu. Choveu pedido. 

Aí ele montou fábrica, abriu loja, contratou gente. Faturou meio milhão no primeiro mês. E gastou seiscentos mil.

Faturando meio milhão por mês, o cara quebrou. Porque sucesso repentino em quem não tá preparado é igual entregar uma espada lendária pro personagem level 3: tu não tem stat pra equipar aquilo, cara. O troço te derruba.

Do outro lado tem o dono da loja que mais vende delivery no país, que falou pro Baccarini que monta loja já preparado pra não ganhar dinheiro por um ano. A meta do primeiro ano não é lucro. É cliente.

Faz todo sentido, saca? Só que pra isso tem que ter caixa. E o cara do boleto vencendo não tem.

"Tu tem um negócio ou tu É o negócio?"

Esse foi o ponto que mais me serviu, na moral.

O Baccarini falou de engrenagem. E ele definiu de um jeito que eu vou levar pra vida: tu sabe que tem um negócio quando tu não tá lá. Se tu tá atolado na operação, tu não é empresário. Tu é empregado de ti mesmo.

Ele deu o exemplo do motoboy. Um motoboy entrega uma coisa por vez, 14 horas por dia, comendo em cima da moto. Teto de 24 horas, ponto final. 

Só que ele entrevistou um cara que era motoboy e montou uma empresa de logística que fatura milhões. Perguntou pro cara, sentado de braço cruzado, quantas entregas estavam rolando naquele momento. O cara nem sabia direito. Cinquenta, cem.

A diferença não foi trabalhar mais. Foi construir o sistema. E depois ainda achar um nicho, que no caso dele virou entrega hospitalar, que exige licença e embalagem diferente e por isso paga duas, três vezes mais.

E ele resumiu assim: empreender não é aprender a fazer tudo. É aprender o que tu não deveria mais estar fazendo.



Isso me acertou em cheio. Porque eu ainda faço um monte de coisa aqui no Flow que eu não deveria estar fazendo.

Aí a Maída sentou na mesa e o papo virou outra coisa

Bom, agora a parte que eu prometi.

A Maída é filha de uma cantora de rádio que ganhou concurso na Rádio Nacional em 1954, largou a carreira e teve oito filhos. Casa cheia de música. Em 1990, ela ligou pro irmão de um orelhão no Morro de São Paulo e falou que ia fazer serenata em São Paulo. O irmão respondeu que ela era louca.

Passaram mais de 100 mil serenatas depois disso.

E cara, ela contou umas que eu não esqueço mais. A do velório: eles cantam pra quem morreu, pesquisam a vida da pessoa, montam repertório. Ela descreveu uma sala travada, gente dura, um "iceberg" na frente dela. Cantaram, cantaram, até chegar na música certa. O senhor homenageado chorou. E aí a sala inteira desabou junto.

Tem a reconciliação que virou barraco: o cara escondido atrás de um fusquinha, a mulher jogando as roupas dele pela janela do sobrado.

Quando ela jogou o terno de trabalho, o cara não aguentou e saiu gritando do esconderijo. Ela mandou ele descer. Ele desceu. Ela desceu esmurrando ele. E aí, do nada, se abraçaram. E os Trovadores emendaram "Volta, vem viver outra vez ao meu lado".

Tu imagina a cena?

E teve a vez que expulsaram eles da casa. Alguém contratou uma serenata de brincadeira pra um cara, e a música especial era o hino do Corinthians. O sujeito era palmeirense roxo. Nem deixou terminar a primeira frase. Botou todo mundo pra fora.

Palmeirense chorão, é isso mesmo. Nem uma serenata o cara aguenta.

Hoje tem o Instituto Trovadores Urbanos, com escola de música em comunidade e roda pra ajudar mulher a empreender. E tá saindo a Casa do Afeto, uma casinha amarela em Perdizes com muro do afeto e um orelhão onde a pessoa pega o telefone e escuta palavra carinhosa. Ela tá entrevistando motoboy pra entender de onde vem tanta raiva na rua.

Ela falou uma frase sobre o negócio dela: "eu não vendo serenata, eu fico amiga". E o Baccarini completou o raciocínio do lado de fora: o consumidor compra com o coração e justifica com a razão.

R$ 29 numa água (e por que a gente paga)

Já que a gente tava falando de valor, ele soltou um teste que eu quero fazer aqui.

Ele pegou o mesmo vinho e serviu em duas taças. Atrás de uma, uma garrafa com preço de 180. Atrás da outra, 39. Aí deu pras pessoas provarem. Adivinha qual todo mundo achou melhor.

Fez igual com água. Água de garrafinha de plástico numa embalagem bonita virou "água da montanha". A outra virou "água de torneira". Mesma água.

E ele contou que pagou 29 reais numa água num lugar, atravessou a rua e achou a mesma coisa por 1,39.

Tu aí achando que é o teu paladar que decide. Não é o teu paladar, mano. É a etiqueta.

O Brasil é foda de um jeito e foda de outro

Aí o papo azedou um pouco, e tinha que azedar mesmo.

Juro real mais alto do mundo. Ele fez a pergunta certa: a gente conta quantas pessoas empreenderam, mas ninguém conta quantas deixaram de empreender porque a régua tá lá em cima. Se o dinheiro parado rende alto de braço cruzado, pra que contratar, produzir, correr risco?

E imposto. Eu contei pra ele daquela vez que eu comprei coxinha num drive-thru e vi na nota que quase 40% daquilo era imposto. Ninguém fica puto. Ninguém.

Ele foi além: no Brasil, o imposto é mais caro do que parece, porque tu precisa montar uma estrutura só pra conseguir calcular o imposto. É papel pra dizer que tu tem papel.

E no fim das contas a gente cai sempre no mesmo lugar, né. Educação. Eu falei isso na mesa: qualquer coisa que não seja um projeto sério de educação, com resultado pra daqui a 50 anos, é band-aid.

A Maída, que tem escola de música em comunidade, complementou com uma dor real: o educador tá exausto. Não é falta de vontade dos caras. É que ninguém aguenta segurar sozinho uma sala daquele jeito.

Pesado? É. Mas é o Brasil que o cara vê há 34 anos.

O que eu levei desse papo

Cara, eu anotei minhas coisinhas aqui pra estudar depois, como sempre.

Levei a da engrenagem, que é a que mais dói em mim. Levei a do teste barato antes do investimento caro, que ele resumiu com uma imagem boa: tu não pula de cabeça numa piscina que tu não conhece, tu põe o pé primeiro. E levei uma que ele falou meio de passagem e que vale por si só: concorrência não dá lucro. Se tu tá fazendo igual a todo mundo, tu não estaciona. Tu regride.

E tem a parte humana, que é o que sobra depois que a gente desliga o microfone. O algoritmo do bairro é humano, foi assim que ele definiu o mercadinho pequeno que cresce enquanto a rede grande abre na esquina. O cara sabe o teu nome. Sabe que tu gosta com pouco sal.


Se não servir pra tu abrir um negócio amanhã, serve pra tu olhar diferente pra padaria da esquina. E vai por mim, essa mudança de olhar é a parte de graça.

O papo completo tá lá no canal, corre pra  assistir aqui.

Dá o like, comenta aí que empreendedor tu quer ver sentado nessa mesa, compartilha, manda no grupo da família e no grupo da igreja também. E se tu vacilou com alguém essa semana, olha, contrata uma serenata. Segundo a Maída, resolve por uns seis meses.

A gente se vê depois. Tchau.


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