
Salve, família.
Vou começar admitindo uma coisa feia: eu não manjo porra nenhuma do Líbano.
E olha que o Líbano tá em tudo aqui. Tu já comeu kibe. Já comeu esfiha. Já desceu na 25 de Março atrás de alguma bugiganga e provavelmente não faz ideia de que aquela rua só existe daquele jeito porque uns libaneses resolveram montar loja ali. Tem mais libanês no Brasil do que no Líbano, mano. Tem rua com sobrenome árabe em cidade do interior que tu nem sabe pronunciar direito.
Pois é. E mesmo assim, o que a gente sabe do Oriente Médio cabe numa manchete de telejornal.
Por isso eu chamei essa mesa. Sentaram aqui a Marwa e o Sultan, que fazem conteúdo sobre cultura árabe e passam o dia se estranhando de brincadeira porque um é xiita e a outra é sunita. E veio junto o comandante Robinson Farinazzo, que tinha acabado de voltar de 15 dias no Irã e que analisa guerra como quem lê planilha.
O papo pegou em coisa que eu nunca tinha ouvido em lugar nenhum: porque "xiita" virou sinônimo de radical no dicionário e por que os caras dizem que é exatamente o contrário. Como é um país onde o soldado do exército ganha uns 200 por mês e trabalha, literalmente, de semáforo. E por que um comandante da Marinha voltou do Irã falando de carrinho de bebê.
Bora.
Antes de qualquer pergunta, chegou uma bandeja de doce
A Marwa tinha acabado de voltar de 15 dias no Líbano e chegou aqui carregada. Trouxe mamul, que é um biscoitinho de massa de semolina recheado com tâmara. Trouxe tâmara recheada de noz e amêndoa. Trouxe até chiclete libanês, que não é chiclete normal, tem uma especiaria dentro, um aroma diferente pra caralho.
Por isso que eu gosto de podcast, tá ligado? Como de graça.
E aí ela soltou uma frase que explica muita coisa: o árabe é o mineiro do mundo. Tu chega na casa de um libanês e ele vai te empurrar café, chá, castanha, fruta e mais um doce. Vai ser chato. Vai insistir. Tu vai comer.
Eu contei pra eles do meu perrengue no Qatar. Minha mala se perdeu, eu fiquei sem roupa, aí fui no souk e comprei a roupa árabe inteira. Inteira mesmo, com o pano na cabeça e a cordinha em cima. Resultado: eu andava pelos lugares e os caras metiam "salam aleikum" pra mim. E eu metendo "aleikum salam" de volta, todo confiante.
No mesmo dia eu comi um shawarma tão temperado que eu passei o resto da noite com medo de ficar com caganeira. Valeu a pena.
O país onde o soldado do exército trabalha de semáforo
Aí o clima mudou.
O Sultan nasceu aqui no Brasil, mas a família dele inteira, por parte de pai e de mãe, é do sul do Líbano. E o sul é justamente a região que apanha toda vez que estoura alguma coisa. A casa do avô dele é cheia de furo de bala. Duas tias perderam a casa completamente. Um tio perdeu a cafeteria dele, e ele fez questão de dizer: não sobrou parede.
Uma dessas tias tinha um prédio de três andares, que é uma coisa comum lá, cada pedaço da família mora num andar. Virou pó.
A Marwa, que esteve em Beirute agora, descreveu a coisa toda como crise humanitária mesmo. Gente morando em barraca. Criança pedindo comida na rua às 3 da manhã. Ela chegou a entrar num estádio que hoje serve de moradia pra quem veio do sul, porque lá tudo acaba virando base militar ou abrigo. Segundo ela, mais de um milhão de pessoas foram deslocadas e não conseguem voltar, porque a cidade delas não existe mais.
Refugiado dentro do próprio país. Pensa nisso.
E o Líbano já vinha capenga antes: quebra de banco em 2019, a explosão no porto, a pandemia acabando com o turismo que sustenta o país. Aí começou a guerra com Israel.
Tem um detalhe que eu não sabia e que me deixou de queixo caído. O Líbano praticamente não tem exército. A polícia de São Paulo é mais forte, segundo eles. O soldado ganha uma miséria, não tem armamento, não tem estrutura, e boa parte do trabalho é ficar num cruzamento dizendo "agora é vocês". Os caras viraram semáforo.
E o Estado é dividido por religião na base da escalação fixa: o presidente tem que ser cristão maronita, o primeiro-ministro sunita, o presidente do parlamento xiita. Não é costume, é regra, vem do censo feito lá no mandato francês. Censo que, segundo eles, nunca mais foi repetido. Imagina o Brasil montando governo assim.
Faz sentido o país viver em crise, né?
O Hezbollah que a gente não vê no Jornal Nacional
Aqui eu preciso ser honesto com você, porque esse é o ponto mais espinhoso do papo.
Pra boa parte do mundo, e pra vários governos, o Hezbollah é organização terrorista, ponto. Eu perguntei isso na cara dura na mesa. E a resposta que veio foi a visão deles, que é bem diferente da leitura ocidental: que a maior parte da estrutura é política e social, e que o braço armado é o que vira manchete.
Os números que eles citaram: o Líbano tem 128 deputados, 15 são do Hezbollah, e cinco ministros também. É partido, tá dentro do jogo institucional.
E tem a parte assistencial. O Sultan contou que quem vai bancar a reconstrução da casa da tia dele é o Hezbollah, mesmo não tendo sido o Hezbollah que destruiu a casa. Que boa parte de hospital e infraestrutura no sul é financiada por ali. Ele falou que não é questão de curtir, é questão de que, na visão da população local, sem aquilo não existiria sul do Líbano.
Deixo registrado que essa é a leitura deles, e que existe um mundo de gente que discorda ferozmente e que tem argumento pra isso. Mas eu acho que tu tem que ouvir a versão de quem tem a família morando embaixo daquilo.
"Xiita" virou sinônimo de radical. E os caras dizem que é o contrário
Essa parte foi a que mais mexeu comigo.
O Sultan contou que a pergunta que ele mais ouve na vida, quando fala que é muçulmano, é: "tu é do normal ou do radical?" E que "normal", na cabeça do brasileiro, quer dizer sunita. A palavra xiita virou sinônimo de radical até no uso comum.
Aí ele virou a mesa. Lembrou que cerca de 90% dos muçulmanos do mundo são sunitas, e que os grupos que a gente conhece como terror islâmico saíram justamente da vertente ultraconservadora que nasce ali dentro, o wahabismo, o salafismo. Não é que sunita seja radical, ele fez questão de frisar. É que a linha radical brotou desse tronco, e o tronco é imenso.
E a fama de radical do xiita, segundo eles, veio depois da revolução iraniana, quando o Irã virou o principal adversário dos Estados Unidos na região e entrou a máquina de propaganda.
Ah, e teve um momento impagável: o pai da Marwa mandou mensagem no meio da gravação. Queria pautar o papo. O recado era pra gente parar de chamar o grupo de "Estado Islâmico" e chamar de Daesh, que é como o mundo árabe chama, justamente pra não dar a eles o nome de Estado nem de Islâmico.
Aí eu perguntei se dava pra trazer o pai dele no Flow. A resposta foi "não, senão tu perde o podcast".
Então por que que vocês brigaram, afinal?
Eu pedi pra voltarem lá no começo. E o Sultan contou a história inteira.
Resumo cru: o profeta morreu e abriu treta sobre quem sucede. Os xiitas entendem que era pra ser Ali, primo e genro dele. Teve uma reunião, Ali não estava porque estava no luto, e escolheram Abu Bakr. Ali aceitou pra não gerar guerra civil, mas ficou aquele sentimento de injustiça entalado.
Foi indo, foi indo. Até chegar em Karbala, onde Hussein foi cercado com a família e os seguidores, deixaram todo mundo sem água e dizimaram. É a partir daí que o xiismo nasce com essa coisa de ódio à opressão. Não é doutrina abstrata, é ferida.
O livro sagrado é o mesmo, não muda uma vírgula. O que muda é a cadeia de relatos que cada lado segue: um vem pelos companheiros do profeta, o outro pela família dele. É de um desses relatos que sai, por exemplo, a treta da tatuagem ser proibida ou não.
Ou seja: uma briga de sucessão política que, mil e quatrocentos anos depois, virou dois times.
E aí veio o momento mais bonito da mesa. A Marwa, que é sunita, ouviu o Sultan contar Karbala inteiro e falou que a versão dele está correta, que aquilo aconteceu mesmo, que foram grandes injustiças e que é uma mancha na história da religião dela. Falou "sinto muito pelo que aconteceu", de verdade.
Cara. Os dois passam o episódio inteiro se zoando, um chamando o outro de opressor, e aí para tudo pra fazer isso.
O comandante voltou do Irã falando de carrinho de bebê
O Farinazzo passou 15 dias por lá, num ritmo doido, expediente das 6 da manhã às 2 da manhã.
O que ele conta que mais marcou não foi míssil. Foi que ele não ouviu discurso de ódio. Foi ver, na hora do almoço, um monte de gente sentada no chão cortando salsicha e temperando arroz de graça pra peregrino, porque a orientação religiosa é que quem alcançou uma graça retribui ajudando quem precisa. Gente distribuindo água na rua num calor absurdo.
Ele visitou um monumento aos mortos da guerra Irã-Iraque e ficou olhando as fotos de caras que teriam a idade dele hoje. E soube que eles não chamam aquilo de guerra Irã-Iraque. Chamam de "a guerra imposta". Ele achou que o nome disso é perdão.
Ele também esteve numa sinagoga em Isfahan e falou que a comunidade judaica de lá, uma das maiores do Oriente Médio, estava com tudo organizado.
E teve a noite na ponte dos 33 arcos, que ele descreveu como uma das coisas mais lindas que já viu. O que ele mais reparou passeando ali: homem empurrando carrinho de bebê. Um atrás do outro. Ele saiu de lá dizendo que é uma sociedade muito mais família do que a gente imagina, e que quem foi lá não volta a mesma pessoa.
Vou te falar: isso é a leitura de quem passou 15 dias como convidado, e ele mesmo faz questão de separar o povo do regime. Mas o ponto que ele levanta é dos bons. A gente forma opinião sobre 90 milhões de pessoas com base em duas imagens que a gente viu na TV.
E aí o papo foi pro dinheiro
O Farinazzo é da Marinha, então nessa parte ele desce o nível de detalhe.
A tese dele: a indústria de defesa americana se sustenta na própria disfunção. Ele conta que, lá atrás, tiraram o subsídio da indústria naval, e os estaleiros americanos ficaram sem cliente civil. Sobrou um cliente só: o governo. E quando tu tem um cliente só e precisa rodar o ano inteiro, o preço vai lá em cima e fica. Na China, segundo ele, o mesmo estaleiro que faz fragata faz petroleiro, então a coisa se banca sozinha e sai por uma fração do preço.
Aí vem aditamento de contrato de 25%, e passa. Passa porque uma fatia considerável do Congresso americano vem das forças armadas.
Ele resume assim: gasta-se um trilhão por ano e o marinheiro no porta-aviões fica sem comida. Onde é que tá indo esse dinheiro?
E ele emenda: não adianta achar que corrupção é folclore brasileiro. Isso é do ser humano.
Sobre o Brasil, a frase dele que eu anotei aqui: a gente tem um exército excelente, o melhor do mundo pra 1990. O problema não é efetivo nem treinamento, é gap tecnológico. Satélite, comunicação encriptada, link de dados, enxame de drone, guerra eletrônica. Ele acha que dá pra virar esse jogo em poucos anos se o dinheiro for pro lugar certo, porque o parque tecnológico já existe.
Ele também defende que o Brasil deveria ter armas nucleares. Essa é uma posição dele, e é polêmica pra caralho, tem gente séria que considera isso um tiro no pé diplomático do tamanho do país. Registrado.
Mas a parte que ficou martelando na minha cabeça foi outra: pra ele, o que decide guerra não é equipamento, é mentalidade. E que a gente ainda não se enxerga como país que precisa ter uma.
A parte que mais me pegou
Teve uma hora que alguém na mesa falou que esse assunto, no Brasil, virou mais uma coisa pra dividir a gente. Tu é a favor ou contra, escolhe teu lado, e ninguém mais escuta ninguém.
E aí eu olhei pra mesa e pensei naquilo que a gente é.
Porque cara, vai no Bom Retiro. Tem igreja batista sul-coreana na frente de sinagoga. Tem coreano trocando dinheiro com libanês que compra na loja do judeu, e um boliviano passando ali no meio. Ninguém acha isso extraordinário porque a gente vive nisso.
O Farinazzo falou uma coisa que eu vou levar: se tu não construir um país aqui, tu vai construir onde? Vai fugir pra onde? É aqui que a gente resolve.
E teve a história da Marwa. Ela foi refugiada na guerra de 2006, tinha 8 anos, foi pra Síria e depois veio pra cá. Ela falou, sobre a guerra, uma frase curta: "eu só falo português por conta deles."
Ela contou também da Bruna, uma brasileira-libanesa que ela conheceu lá, que foi até o sul com jornalistas pra ver a casa da família, aquela onde ela passou a vida inteira. Filmou de longe. Não existe mais. Não existe mais nem a cidade.
E a Marwa fez uma leitura que eu não tinha pensado: aquela pessoa não perdeu só a casa. Ela perdeu a terra, que é a coisa mais importante pro libanês, e vai acabar em Beirute pagando aluguel pro resto da vida.
Tu imagina descobrir isso por um vídeo tremido, de longe?
Ficou um silêncio na mesa. Eu não soube o que falar.
Fechando
Eu anotei um monte aqui. Sério.
No fim das contas, o que eu levei desse papo não foi geopolítica. Foi a lembrança de que a gente opina com uma confiança absurda sobre lugares que a gente não conhece, sobre religiões que a gente nunca estudou, sobre gente que a gente nunca sentou junto. E que basta sentar pra descobrir que o buraco é bem mais embaixo.
O Sultan e a Marwa se zoam o episódio inteiro. Um chama o outro de opressor, disputam de quem é a culinária, disputam de quem é o shawarma. E aí, na hora que a conversa fica séria, eles se respeitam de um jeito que muita gente aqui não consegue nem no grupo da família.
Ah, e eu saí de lá com presente. A Marwa me deu um keffiyeh, aquele pano que virou símbolo de resistência palestina, e me explicou que a melancia também virou símbolo porque tem as mesmas cores da bandeira, num tempo em que não dava nem pra falar a palavra. O Sultan me deu um perfume árabe da marca da mãe dele.
Se tu quer ouvir o papo inteiro, e tem muito mais coisa que não coube aqui, corre lá no YouTube.
Dá o like, comenta, compartilha. Manda no grupo da família. Manda no grupo da igreja. Manda no grupo do mito também, principalmente no grupo do mito.
E vai lá seguir a Marwa, o Sultan e o comandante Farinazzo, que os links estão no comentário fixado.
A gente se vê depois. Beijinho, tchau.
