
Salve, família.
Se tu acompanhou o Flow nas últimas semanas, tu viu o Nando Moura subir na minha mesa e ficar de quatro em cima dela. Na minha mesa, mano. Um barbudo cabeludo engatinhando na frente do microfone e o estúdio inteiro olhando pra minha cara.
Pois é. Do outro lado daquela treta tava o MBL. E os caras quiseram vir responder.
Sentaram aqui o Arthur do Val, o Mamãe Falei, e o Renato Battista, coordenador nacional do movimento. O Arthur já chegou reclamando que eu passei uns dez anos sem chamar ele e que precisou ser acusado de nazismo pra ganhar convite. O Renato chegou com o número de candidato pendurado no braço, porque esse papo foi gravado três dias antes do primeiro turno.
Foram quase três horas. Teve a defesa deles contra a acusação de nazismo, teve um pensador americano que eu simplesmente não engoli, teve El Salvador… e teve uma frase do Arthur sobre o futuro do partido que, com a urna já aberta, pesa diferente.
Já aviso: eu não sou do MBL, não sou do Nando, e o Flow não declara voto. Meu papel ali era puxar o fio e apertar onde dava pra apertar. Bora.
“Tem que ser acusado de nazismo pra tu me chamar, mano”
O resumo da treta, do jeito que eles contaram: segundo o Arthur e o Renato, desde o fim de 2024 o Nando Moura tá por trás de uma campanha pra colar no MBL e no partido Missão o rótulo de nazista. Eles falam em perfil fake, matéria plantada e ex-integrante do movimento sendo usado pra atacar.
O Renato repetiu umas cinco vezes uma frase esperta: não acredita em mim, vai no vídeo. Eles dizem ter áudios e prints, e afirmam que o Nando perdeu processos e teve que tirar dezenas de vídeos do ar. Eu não vi as decisões. Fica o registro.
E tem um argumento deles que é fácil de entender. O MBL é um dos grupos que mais defende Israel e a comunidade judaica no Brasil. O Arthur contou que foi convidado pelo consulado pra ir a Israel depois do 7 de outubro. O Renato mostrou a revista impressa deles, com capa sobre antissemitismo na geração Z.
A pergunta deles é: que nazista é esse?
O Arthur resumiu do jeito dele. Se existisse uma elite nazista global, eles seriam os piores nazistas do mundo.
Eu ri. Mas o papo não parou aí.
Tu não me convenceu nesse papo do Curtis Yarvin
Aqui eu apertei.
O Curtis Yarvin é um pensador americano com umas ideias bem esquisitas sobre democracia, tipo um país tocado como empresa, com CEO no lugar de presidente. Parte do ataque ao MBL passa por uma suposta afinidade dos caras com ele.
O Renato defendeu que dá pra pegar um pedaço da tese de um autor sem comprar o pacote. E deu o exemplo do Aristóteles, que era contra mulher votar e nem por isso a gente deixa de ler.
Eu: cara, Aristóteles é antes de Cristo, mano.
Falei na cara dele que ele é bom de narrativa, mas que essa analogia não cola. O Yarvin tá vivo, pensando agora, propondo coisa agora. E eu confesso que não conheço a obra do cara a fundo. Só que numa pesquisa rápida, trocando ideia com uns caras que manjam e até com inteligência artificial, me pareceu ter um fundo eugenista ali. Os dois negaram que isso exista no pensamento dele.
Pode ser. Mas a minha régua é outra: eu não quero nem de longe ser elogiado por um cara que pensa desse jeito. E falei isso pra eles. Vocês tinham que ter tido uma atitude mais firme, tipo “isso aqui é interessante, aquilo ali é uma merda e a gente tá fora”. Fica claro e não dá munição pra ninguém.
O Renato disse que tava sendo claro naquele momento. Tá. Naquele momento.
Não me convenceu. E eu prefiro deixar isso escrito do que fingir que convenceu.
O dossiê que eles mesmos mandaram pra polícia
A outra frente é um perfil anônimo de Twitter com postagem nazista que, segundo o Nando, teria ligação com um apoiador do partido. A versão deles: alguém do grupo retuitou um texto desse perfil elogiando o MBL sem olhar o histórico. Depois chegou um dossiê dizendo quem seria o dono da conta, e o jurídico, segundo eles, mandou pra polícia sem nem abrir.
E aí o Renato virou a pergunta pra mim: se eu sou nazista e sei quem é o perfil, por que eu peço pra polícia investigar?
É um argumento bom. Eu apertei mesmo assim: então vocês não sabem se esse apoiador é o dono do perfil? Não sabem, responderam. E se for, nas palavras do Arthur, que se dane, o cara tá no lugar errado.
Ali cheguei no limite do que dava pra apertar. Não tenho como provar uma coisa nem outra.
Mas teve uma pergunta que eu queria ouvir respondida com todas as letras: vocês concordam que esses caras têm que ser limados? Porque esse tipo de gente funciona igual a servidor de jogo online, tá ligado? Tu não escolhe quem entra. Mas se não tem moderador, em duas semanas o chat vira esgoto e o pessoal normal vai embora.
O Renato foi além do que eu esperava: disse que já defendeu liberdade de expressão absoluta quando era “liberal bobo”, lá por 2014, e mudou. Pra ele, tem discurso que tem que ser proibido mesmo.
“Chantageou tanto que os caras montaram uma banda com ele”
Pausa pra respirar, porque teve hora que esse papo ficou pesado demais.
Uma das teses que eles atribuem ao Nando é que o Arthur teria sido afastado do MBL e voltado chantageando os caras. O Arthur fez a cara mais incrédula do mundo e soltou: chantageou tanto que os caras montaram uma banda com ele.
Ele só queria ser o baterista, mano.
E o Arthur passou o programa inteiro imitando o Nando. Eu falei: tu também faz o personagem, só que menos performático. Subir na mesa ele não subiu. Ainda.
“O Flávio é um picolé azedo, mas o outro é picolé de merda”
Aí o papo foi pra eleição, e o Arthur abriu a metralhadora.
A tese é dele, deixa eu ser bem claro: pra ele, Lula e Flávio Bolsonaro estariam ligados ao mesmo escândalo, o do Banco Master, e nenhum dos dois teria interesse real em ver a investigação andar. A frase do picolé ele atribuiu a influenciador que defende o Flávio só porque acha o outro pior.
Numa parte eu concordei com ele, e é conta, não opinião. Pra ganhar no primeiro turno precisa de metade mais um dos votos válidos. Com a rejeição dos dois acima de 50%, nenhum levaria de primeira. Então aquele papo de “vota no fulano senão o outro ganha no primeiro turno” não fecha a conta. Ponto pra ele.
Mas teve hora que eu cutuquei. Falei: tá na cara que tu tá batendo especificamente no Flávio, porque é dali que dá pra virar voto, o eleitor do Lula tu não converte. Ele negou, disse que o MBL sempre fez o contrário do que dava voto, que perdeu metade do público quando brigou com o Bolsonaro em 2019.
Tu acabou de fazer na minha frente, Arthur.
Teve STF também, e eu fiz o meu apelo neutro ali: se tu tá puto com o Supremo, presta atenção redobrada no voto pro Senado. É lá que dá pra pressionar.
A régua que eu usei pro Yarvin eu uso pro Marçal
Quando o papo caiu no Pablo Marçal, eu fiz a minha parte. Perguntei se eles lembravam o nono mandamento… não, peraí, é o oitavo. Me corrigiram ali na mesa. Não levantarás falso testemunho.
O Marçal se diz cristão. Em 2024 apareceu com um laudo contra o Boulos assinado por um médico que já tinha morrido. E sobrou pra mim: ele disse na TV que o Flow tinha recebido quase 500 mil da prefeitura. Não recebeu.
A régua é a mesma. Se eu cobro do MBL distância do Yarvin, eu cobro de quem se diz cristão distância de falso testemunho.
Cemitério, El Salvador e a pergunta que eu tinha que fazer
O Arthur soltou que o Brasil seria muito melhor se os membros do Comando Vermelho estivessem num cemitério. Todos.
Eu perguntei: com que tipo de processo?
Porque matou, fodeu. Não tem recurso depois.
Ele disse que aí sim tem que ter processo efetivo pra provar quem é de facção. O Renato entrou com El Salvador: segundo ele, o próprio governo do Bukele admite que uns 10% dos presos eram inocentes, e o processo serve pra soltar quem prova inocência. A proposta deles é rito mais rápido pra quem tem ligação clara com facção, começando pelas lideranças.
Até aí, tá. Mas eu fiquei no ponto que me incomoda. E o inocente que vai junto nessa baldada? Imagina tu andando na rua, aparece um cara dizendo que tu é faccionado e, no Brasil que a gente conhece, tu vai mamar.
O Renato respondeu que hoje a gente já vive o pior dos dois mundos: inocente preso e bandido solto. Eu concordo que o hoje é ruim. Não sei se a resposta dele resolve o meu medo.
“Se a Missão não performar, eu desisto dessa merda”
Teve um momento em que o Arthur ficou sério de verdade.
Ele contou que tinha falado isso pro Renato naquele mesmo dia: se o partido não performasse na eleição, ele ia embora. Desistir. Pra ele, nem PL nem PT vão mudar o país, e não dá pra vencer sozinho o que ele chamou de burrice brasileira. O Renato apostou o contrário: o resultado do Renan Santos ia surpreender.
Bom. A urna abriu no dia 4. O Renan terminou em quarto, com cerca de 2,2% dos votos válidos, e ele mesmo chamou o resultado de muito ruim. O Missão elegeu dois deputados, ambos em São Paulo: o Kim Kataguiri pra Câmara e o Rafa Minato pra Assembleia.
Eu não sei o que o Arthur vai fazer com aquela frase. Mas lembrei dela na hora que vi o número.
“Isso, pra mim, é tretinha de internet”
Lá pro fim eu falei o que tava pensando a noite inteira: boa parte disso é treta de internet. E eles mesmos ajudam a deixar ela desse tamanho.
O Arthur disse que meus olhos me entregavam: pra ele, o Nando é ego inflado e a materialidade toda é um dossiê que eles mesmos mandaram pra polícia. A minha leitura é outra. Eu acho que o Nando quer atrapalhar o projeto deles. O que não quer dizer, necessariamente, que ele tá errado em tudo. Eu não tô dentro do MBL. Eu não tenho a certeza que eles têm.
E a resposta do Arthur foi a mais lúcida da noite: o gargalo deles não é o Nando, é um país que vota majoritariamente em PT e PL. O Nando, disse rindo, é o camisa 10 dele. Foi por causa dele que eu chamei os dois.
Uma coisa que eu falei pro Arthur vale pra quem for debater com ele: a maior habilidade do cara é deixar o outro muito puto. E ele faz sabendo. Se tu tocar num ponto legítimo do jeito errado, perde a razão na hora.
E discordei deles na curadoria de quem entra no movimento. Acho que vacilam, sim. Não vou citar nome porque não vou aumentar quem não precisa ser aumentado.
O que eu levei desse papo
Cara, sendo sincero, foi um dos episódios mais difíceis de conduzir do ano. Muita acusação, muita gente citada que nem tava na mesa, e eu tentando separar prova de narrativa.
O que eu anotei: a régua tem que ser a mesma pra todo mundo. E a frase que eles repetiram a noite inteira, “não acredita em mim, vai ver”, eu devolvo pra tu. Vale pros dois lados. Vê o vídeo deles, vê o do Nando, procura as decisões e forma o teu juízo.
Se não servir pra mais nada, serve pro próximo print sem fonte que chegar gritando no teu grupo de WhatsApp.
O papo completo, com as quase três horas e o Arthur imitando o Nando sem parar, tá lá no canal: https://www.youtube.com/watch?v=lr-1KtQQWhg
Dá o like, comenta aí e manda no grupo da igreja, no grupo dos petistas e no grupo dos bolsonaristas. Foi isso que eu pedi no ar e eu mantenho. Obrigado pela moral, Arthur. Obrigado pela moral, Renato.
A gente se vê depois. Tchau.
