
Fala, galera.
Deixa eu te perguntar uma coisa. Tu tem alguma coisa em casa que é "tua"? Aquele troço que tu defende com unha e dente e que o resto da família olha e pensa "pra que isso, meu Deus"? Um videogame velho, uma coleção, uma bike que custou mais que a geladeira. Todo mundo tem.
Agora multiplica isso por vinte e poucos carros. Metade com algum defeito. E uma esposa que sabe a história de cada um.
O Ricardinho ACF voltou pra mesa do Flow. E eu avisei logo na abertura: hoje tu não é a estrela, parceiro. Porque ele trouxe a Flavinha. E a Flavinha veio pra explanar.
O papo foi pra um leilão no Japão onde ela virou cão farejador de carro raro, pra uma gravidez inteira rodando num Eclipse 93 sem ar-condicionado, e pra um limpador de para-brisa que quase terminou com o casamento dos dois. Um limpador. Já chego lá.
Eu não manjo porra nenhuma de remap, tá ligado? Eu sou o cara que deu uma voadinha de Linea numa estrada vazia e aprendeu a lição na hora. Então meu papel ali era puxar o fio e rir. Bora.
No drift do Japão ela mandou parar. Ele achou que ela tava enjoada
Eles tinham voltado do Japão fazia umas duas, três semanas. Primeira vez dela, segunda dele. E no meio de uma sessão de drift, com o Ricardinho no volante pegando confiança, a Flavinha virou e falou: amor, acho melhor a gente parar.
Ele, preocupado, achou que ela tava passando mal. Só no hotel ela abriu o jogo. Ela conhece ele. Tava vendo o cara ganhar ritmo e pensou: dentro desse carro estão o pai e a mãe do nosso filho. Se der merda, que dê só com um.
"Ela bota meu pé na cova", o Ricardinho reclamou.
E aí eu confesso que dei razão pra ela. Eu sou pai. Penso nas minhas filhas uns 80% do tempo. Mas tem aqueles 20% que a gente se dá o luxo, né? A mãe não tem esses 20%. Não desliga.
O próprio Ricardinho admitiu que tá puxando a corda demais. Os amigos mandando ele parar de andar de helicóptero por aí. Ele foi andar de balão e ajudou a desviar o bicho de uma árvore. E aí, no meio dessa conversa sobre ter juízo, ele solta: tá vendendo a X3 pra comprar um avião.
Duas mil horas de voo. No simulador
Antes da engenharia, o sonho do Ricardinho era ser piloto. Só que formar piloto comercial rápido pede um caminhão de dinheiro guardado, e o pai dele vivia de aposentadoria. Então o moleque de 15 anos fez o que dava: virou piloto virtual. Quase 2.000 horas de voo em rede de simulação, com controlador de tráfego que é gente de verdade treinando, rádio, navegação, radar.
Ou seja, o cara fez a autoescola do céu sem sair do quarto. Igual piloto de corrida que treina no simulador antes de ir pra pista.
Eu perguntei por que não pegar uma cota de avião, que sai mais barato. A resposta foi de quem mexe com motor todo dia: se ele meter um pouso duro no avião dele, ele sabe o que fez. No compartilhado, ele não sabe quem voou antes. E os aviões que ele quer mesmo? "Ainda não é pro meu bico."
Ainda. Guarda essa palavra, porque a Flavinha guardou.
Marido ensinando mulher a dirigir: não faz isso
A Flavinha foi categórica: casal não ensina o outro. Não funciona. Ela nunca viu dar certo com ninguém.
A prova foi a primeira tentativa de drift dela, numa E36 branca, depois de uma gravação. Meia hora com dó do carro. O Ricardinho do lado gritando pra acelerar, que o carro já tinha terminado de gravar, podia descangalhar. Até que ela ficou puta, pisou tudo e... fez. Direitinho.
E ele, orgulhoso: "Te faltava só ódio".
Depois ainda falou que tinha feito de propósito. Aí foi ladeira abaixo.
No Japão, com volante do lado direito, a primeira saída do hotel foi um show. Ela quase entrou na contramão, foi pro meio da faixa e ligou o limpador sem querer. A solução do Ricardinho pra ela e pra Carol, mulher do Alemão da Caravan, que também entrava na contramão: uma de navegadora, outra de motorista. Juntas formam um motorista completo.
Um cão perdigueiro solto num leilão de 30 mil carros
Agora a parte que eu fiquei vidrado.
O leilão de carro do Japão é um estacionamento gigante, e o Ricardinho falou em uns 30 mil carros por dia, três vezes por semana. Cada carro tem horário marcado e o lance dura menos de um minuto. Tu pode abrir, ligar, passar scanner em tudo.
E a Flavinha se perdeu. Ela mesma descreveu: parecia uma criança de 6 anos que sai correndo, acha um brinquedo e volta correndo pra chamar os pais. Achava um S2000 vermelho escondido entre duas minivans e saía gritando pra todo mundo vir ver. O Ricardinho definiu melhor: cão perdigueiro solto.
Ela se apaixonou por um Subaru STI prata, perfeito, com roda extra de brinde no porta-malas. Deu uns cinco lances, e quando passou de uns 80 mil reais na conversão, tirou o pé. Controlada. Ela.
O argumento do Ricardinho pra ela comprar foi dos melhores que eu já ouvi nessa mesa. Tu desce do avião depois de 30 horas voando, criança gritando, comida ruim, todo mundo com cara de enterro indo pegar metrô. E tu? Tu vai no estacionamento do aeroporto e tá lá o teu Skyline te esperando.
Porra. O cara tem razão.
Só que quem perdeu a linha mesmo foi o Alemão. O cara nunca tinha saído do Brasil e foi direto pro Japão. Em Akihabara, voltou a ser criança atrás dos bonecos de Cavaleiros do Zodíaco. Numa loja de miniatura, comprou mais de 25 carrinhos em escala 1:18, na caixa. Quatro malas só de carrinho. O Ricardinho perguntou se ele tinha noção de que com aquilo comprava um carro de verdade.
E aí a Flavinha achou um GT-R R32 no leilão. E chamou o Alemão.
O Ricardinho aproveitou pra dar a aula. Segundo ele, o R32 ganhou o apelido de Godzilla porque passava por cima de todo mundo nas pistas japonesas, e as montadoras de lá tinham um acordo de cavalheiros pra declarar no máximo 280 cavalos e marcar 180 no painel. No documento. Na prática, era outra conversa.
O Alemão pagou, nas contas do Ricardinho, uns 8,8 milhões de ienes, mais 10% de taxa. Quase 300 mil reais. Quem bancou foi a Carol, e ele tá pagando de volta pra ela.
A Flavinha não comprou nenhum carro. Mas os dois que compraram, compraram influenciados por quem? O Ricardinho resumiu: a mulher é uma cobra com asa.
O Mini Cooper é um ex tóxico. E ela não larga
E cara, eu tinha preconceito com Mini Cooper. Falei na lata. Ela confessou que também tinha. Achava carro de menininha, que iam pensar que ela não entendia nada de carro.
A história dela começa em Manaus, com um Civic Si que o irmão comprou todo judiado, contra o conselho dela, e deixou na mão da irmã. Ela virou melhor amiga do mecânico. Ia pra oficina todo dia. Um dia, com enxaqueca e o escapamento direto berrando, ela quase jogou o carro longe.
Aí o pai ofereceu uma ajuda pra trocar. E uma colega queria vender, sem anunciar, um Mini JCW vermelho e preto com 9.800 quilômetros. As duas cores favoritas dela. Ela foi dirigir numa avenida vazia de domingo e voltou pra casa com a frase que ela repete até hoje: não foi amor à primeira vista, foi amor à primeira acelerada.
O carro veio de balsa até Belém e de cegonha até São Paulo. O Ricardinho jura que é um ex tóxico, só deixa ela na mão. Ela defende: o carro tem empatia, só quebrou dentro do galpão e dentro da loja. Pra ela é válvula de escape. Não é potência, é prazer de dirigir.
E foi com ele que ela realizou o sonho de andar em Interlagos. O Ricardinho de carona, avisando que confiança é veneno. Ela veio voando, errou o ponto de uma curva cega, pisou no freio na hora que não podia, rodou de ré e parou a um metro do muro. O pé esquecido na embreagem. Ele rachando o bico do lado.
Isso me lembrou da minha voadinha de Linea: nada aconteceu, mas ali eu entendi que precisava ser um cara cuidadoso. A Flavinha quer aprender drift justamente por isso: pra saber o que fazer quando o carro aquaplanar no meio da rua.
Faz sentido, saca? Não é pra se exibir. É pra voltar pra casa.
Grávida, sem ar-condicionado e sem limpador de para-brisa
Agora o limpador.
Quando ela engravidou, o Ricardinho bateu o pé de pai responsável: SUV, blindada, automática. Uma Tuareg 2008. A Flavinha avisou que o ar-condicionado não funcionava. A resposta dele: tá frio, o aquecedor do banco funciona.
Tu não meteu essa. Meteu.
Aí o limpador parou. E um dia ela tinha que fazer o exame morfológico, aquele que tem janela certa na gestação, e caiu o mundo em São Paulo. Sem limpador, sem desembaçador, vidro fechado, ela chegou na oficina no feeling. E foi a única vez na gravidez inteira que ela sentiu dor.
Ela chegou num ódio que os funcionários nunca tinham visto. Jogou a chave. E o Ricardinho, desavisado, falou: me dá a chave, amor, vamos lá. Um funcionário puxou ele de canto, entregou a chave do próprio carro e falou baixinho pra ele ir no dele, senão ela matava todo mundo.
O exame deu tudo certo. Ufa.
Na volta ela decretou: a partir de agora, o Eclipse 93 é meu. E foi assim a gestação inteira. Uma grávida de barrigão saindo de um carro baixinho, parando no posto pra completar água do radiador com garrafinha, sendo parada em blitz porque o carro fazia barulho. E feliz. Ela disse que se sentia segura ali.
O Ricardinho explicou o drama da Tuareg, e é aqui que eu fiquei chocado. O motor do limpador fica do lado de fora e entra água. E pior: a peça conversa com o resto do carro por uma rede eletrônica, então a de outra Tuareg nem sempre funciona. Lá fora, segundo ele, era algo como 15 mil reais. O carro custou 25. Ele acabou montando um limpador que funcionasse com peças de três motores.
O que tu tá falando então é que a Volkswagen transformou um limpador de para-brisa num computador que pega chuva. Animal.
"A empresa é minha" e o dia em que ele levou o dinheiro do outro lado do mundo
Por trás da zoeira tem um negócio de verdade, né? A Flavinha é formada em Direito, estudou Administração, tem pós, cresceu ajudando na empresa da família em Manaus. Hoje é ela quem cuida da gestão financeira da ACF.
E o Ricardinho é o Ricardinho. Ele mesmo falou: nunca fez projeto pensando em retorno. A Copa, a Transamazônica, o Japão, a Caravan até Las Vegas. Foi porque quis, e as coisas foram dando certo. Pelas contas dele, o canal levou uns seis anos pra bater um milhão de inscritos, com a subida mais forte no fim.
Só que no começo deu briga. E ele teve a honestidade de admitir que foi escroto: numa dessas, jogou na cara dela que a empresa era dele, que ele construiu, e que se desse errado ele assumia sozinho.
A versão dela é a que ficou comigo. Ela nunca desacreditou dos projetos. Só pedia uma coisa: ter uns seis meses de salário dos funcionários guardado antes do próximo tiro. Porque ele dorme. Ela não dorme.
Na Caravan, ela perguntou como assim ele ia passar 40, 50 dias longe dela e do filho. E ele, na maior cara de pau: por mim ia todo mundo, tu que tá se desconvidando.
O miserável é um gênio.
Aí, na primeira viagem pro Japão, em abril, o telefone toca. "Quanto tem na conta?" Ele precisava pagar uns carros do leilão. E se não tivesse, pegava empréstimo. O planejamento dela, que tava lindo, foi embora num telefonema.
Ela se declarou rancorosa. Quando ele voltou, no dia seguinte tinha um 3000 GT vermelho, biturbo, 4x4, manual, parado na oficina. Comprado por ela.
Ele ainda jurou que os carros dele valorizaram mais que Bitcoin. A Flavinha rebateu com a pergunta certa: e quanto tu gastou pra deixar o carro bom?
O que eu levei desse papo
Cara, eu ri o episódio inteiro. Mas teve uma frase da Flavinha que eu anotei aqui do lado: se der merda, é nós, e a gente ajeita de novo.
É isso, né? Todo negócio que dá certo tem alguém que pula na bala e alguém que conta quantas balas sobraram. No Flow é igual. Se só tivesse o louco, já tinha quebrado. Se só tivesse a planilha, nunca tinha começado.
E tem a outra parte que ela falou e que vale pro teu relacionamento, pro teu sócio, pro teu time: tudo que ele se propõe a fazer, ele dá o máximo. Dá medo? Dá. Mas ela acredita.
Se não servir pra tu no teu negócio, serve pra olhar diferente pra pessoa que segura a tua onda em casa.
O papo completo tá lá no canal, corre pra assistir:
Dá o like, comenta aí qual carro da garagem dos ACF tu vendia primeiro e manda esse vídeo pra todos os teus amigos lasanheiros, casados ou não com lasanheiras. E fica ligado que a corrida de kart de influenciador tem que sair, eu já topei. Vou ser o pior, mas topei.
A gente se vê depois. Beijo.
