Nando Moura participa de episódio no Flow Podcast
Divulgação/Flow
Nando Moura participa de episódio no Flow Podcast

Salve, família.

Se tu passou pela internet brasileira nos últimos dez anos, tu já esbarrou num vídeo do Nando Moura. De guitarra, de política ou dele xingando alguém que tu nem conhecia. O cara é mobília da internet, tá ligado? E já é a quarta ou quinta vez dele aqui na mesa.

Só que dessa vez ele chegou diferente. Eu falei isso pra ele logo no primeiro minuto.

Nada da zoeira de sempre. O Nando veio com pauta, print, vídeo separado e uma notícia que eu não esperava: disse que tá pagando segurança armada e que essas podem ser as últimas semanas dele na internet. Ainda não decidiu.

O alvo era um só. O MBL e o partido que eles criaram, o Missão, que tem o Renan Santos como candidato a presidente.

(Antes de qualquer coisa, deixa eu ser claro contigo: o que tu vai ler aqui é a versão do Nando. O MBL não tava na mesa. Tava, inclusive, fazendo react da live em outro canal enquanto a gente gravava.)

Eu não conhecia metade dos personagens que ele citou. Juro. Então meu papel ali foi o de sempre: perguntar, cutucar quando achei que tinha que cutucar e segurar o microfone. Bora.

"Agora é tapa na cara. Quando tiver poder, é prendeu, matou"
O Nando abriu dizendo que a preocupação dele é com grupo que pega o ódio da população, que muitas vezes é legítimo, e troca por um projeto autoritário. E que o MBL, na leitura dele, virou isso.

Aí veio a frase que dá o tom do episódio. Segundo ele, o recado que recebeu de gente do movimento foi: por enquanto é tapa na cara; quando tiver poder, é "prendeu, matou", o slogan que o Renan Santos passou a usar.

Aqui eu dei a primeira cutucada. Falei que, em palanque, político fala uns extremos, né? Faz parte do teatro.

Ele não comprou. "Nunca nisso." Pra ele, o "prendeu, matou" é porta de entrada pra uma ideia em que o Estado escolhe uma categoria de gente que não tem direito a nada. Hoje é o traficante, que ninguém defende. E aí ele virou pra mim: e se alguém enfia um quilo de cocaína na tua casa e diz que tu é o bandido?

Pesado já nos primeiros dez minutos.


Quem é o Emanuel?

Essa foi a pergunta que ele repetiu umas dez vezes, olhando pra câmera, falando direto com o Renan.

O bagulho é o seguinte. Existe um perfil anônimo na internet chamado "The Phallic Man"(que na mesa virou "Félix Man"), e o Nando classifica o dono dele como neonazista. Esse perfil escreveu sobre o Renan numa newsletter de extrema direita americana. Depois, o MBL levou pro congresso dele o Curtis Yarvin, um dos nomes do tal "Iluminismo das Trevas", que defende trocar a democracia por uma espécie de monarquia de CEO.

A primeira vez que eu ouvi falar do Yarvin foi o Nando me contando. Mano.

A tese do Nando é que esse perfil tem nome, se chama Emanuel e circula dentro do MBL. E que quem ligou uma coisa à outra foi o próprio MBL, num documento anexado a um inquérito, assinado pelo lado do Renan. Ele mostrou o papel na mesa. Eu não tenho como verificar esse inquérito daqui, então fica no colo dele.

E cara, teve uma explicação dele que me fez parar. Segundo o Nando, esse discurso nem precisa mais odiar judeu ou cigano. Ele troca o alvo pra uma classe que a sociedade já detesta. Ou seja, é tipo mesa de RPG em que o mestre decide qual raça vira vilã, e o grupo sai caçando sem perguntar por quê.

Aí ele me perguntou quem é que não quer descer a porrada num funkeiro.

Eu levantei a mão. "Nando, para de caô. Tu sai de casa, pô. Um funkzinho numa festinha."

Ele detesta. Beleza. Mas eu entendi o ponto.

"Tu votaria?" "Eu não voto, Nando"

Teve uma hora que ele virou pra mim: tu votaria num cara que se diz cristão na frente das câmeras e faz o contrário por trás?

Eu respondi que, em geral, quando o cara faz muita questão de dizer que é cristão, é bom dar uma segunda olhada. E que eu não voto. Ele riu e disse que sabia que eu, como entrevistador, não ia querer me expor.

Não é isso. Mas tudo bem.

O Nando mostrou posts antigos do Renan metendo o pau na igreja e comparou com o Renan de agora, que se apresenta como cristão. Pra ele, conversão de conveniência. Eu fiz a ressalva: é muito difícil um presidente ateu no Brasil, e não falta político dizendo que é cristão. Ele disse que comum não quer dizer certo. Aí eu tô contigo, Nando.

Mas aí eu abri um parêntese. Porque alguém vai ler isso e pensar: tu tá batendo no Renan e, na prática, ajudando o Flávio Bolsonaro.

A resposta dele: direita e esquerda são dois lados da mesma moeda suja, e o Brasil fracassa quando torce por pessoa em vez de princípio.

Mais pro fim, eu voltei a apertar. Falei que ele tava fazendo uma aproximação bem grande entre o jeito que o Missão opera e o jeito que opera a AfD, o partido de extrema direita alemão. Ele respondeu que não tava aproximando nada, só mostrando o que eles mesmos falam em vídeo. Fica registrado: a comparação é dele.

O que ele trouxe (e o que eu deixei de fora)

O Nando dividiu a pauta em três: o que ele chama de degeneração moral do MBL, tolerância com gente e discurso de cunho nazista, e traição do discurso liberal que o movimento vendia lá atrás.

Pra cada ponto, vídeo. Um integrante que, segundo ele, curtiu post supremacista e ganhou cargo em gabinete em vez de ser expulso. Um candidato do partido falando, num podcast, em testar medicamento em preso, a ponto de o Monark dizer que tinha passado do limite. "Quando até o Monark fala isso, é porque fodeu", nas palavras do Nando. Um "intelectual" do partido discutindo em vídeo se somali é menos inteligente que alemão.

Ele contou também que esse mesmo candidato foi pra cima dele num evento de carro antigo em Lindóia, onde o Nando expunha os carros dele com a mãe, a esposa e dois bebês de colo por perto. Segundo o Nando, com gente do MBL filmando.

E tem uma parte que eu escolhi não trazer. O Nando falou de casos que correm na Justiça envolvendo gente do movimento e ex-companheiras. Tem pessoa privada no meio, tem segredo de justiça, tem gente que nunca pediu pra virar assunto. Isso fica fora daqui.

Eu vivi 2022. Por isso eu perguntei

Essa é a parte que eu mais quero que tu leia.

Lá pelas duas horas de programa, eu parei o Nando. Falei: cara, eu sou o Igor do Flow, eu vivi 2022. As pessoas não tavam só me difamando. Tavam me destruindo, o dia inteiro. Me chamando de nazista, inclusive.

E eu contei como eu reagia. Tinha coisa que era mentira, e eu brigava. Tinha coisa que era verdade, e com a verdade não tinha o que debater. Aconteceu. Pronto.

Por isso a reação do MBL me parecia curiosa. Por que tanto peso em cima de um youtuber?

A resposta dele foi curta: não existe nada que ofenda mais do que a verdade.

Aí eu apertei de novo, porque era a pergunta que tava me coçando. Tu entrou nessa porque te pegou pessoalmente, né? Porque, de estratégia, atacar partido na mídia só faz sentido se tu for candidato. E esse público cobra caro.

E ele abriu a conta.

O engajamento caiu de 40, 50 mil likes por vídeo pra uns 30 mil. Perdeu venda, perdeu monetização. Ganhou ameaça de morte e processo. E perdeu dois caras que chamava de ídolos e amigos, o Danilo Gentili e o André Guedes, que segundo ele entraram na campanha contra ele. Quando ele falou do Danilo, eu soltei que nunca achei que fosse ouvir aquilo dele.

"Eu só perdi."

Porra.

Ele disse que o final dele é o dia depois da eleição, quando, na torcida dele, o Missão não passar da cláusula de barreira. E que quando Deus bota uma luta no teu coração, tu vai até o fim.

Teve uma hora que ele falou do pai, nordestino, que passou tanta fome que pegava calango e comia com ovo. E o cara parou no meio da frase.

Eu não disse nada. Não tinha o que dizer.

A única coisa que vão achar é que ele joga no modo história

Pra respirar, porque precisava.

O MBL prometeu um exposed dele. O Nando riu. Disse que a esposa mexe no celular dele mais do que ele, e que a única coisa que vão descobrir é que ele tá jogando Dawnwalker no modo história, olhando pro lado pra ver se ninguém tá vendo, porque no normal ele não passa das fases.

A melhor maneira de não ser pego, segundo ele, é não fazer merda.

É isso.

O Gustavo pegou o microfone

No meio do episódio o Nando deu uma saída, e o Gustavo Aronson, biomédico, ex-MBL e quem faz a ponte do Nando com ex-integrantes do movimento, sentou pra falar direto.

Ele pediu à Fisesp e à Conib, entidades da comunidade judaica, que perguntem ao Renan quem é o Emanuel. Descendente de sobrevivente do Holocausto, disse que não tem medo de militância. "Pode mandar mais."

E rebateu a acusação de que os dois querem colar o rótulo de nazista pra alguém fazer mal ao Renan: se o Igor me dá um golpe e eu conto, a carreira do Igor sofre, não tem como contar sem manchar. Com certeza, falei. O Nando repetiu depois: quer o Renan vivo, pra responder pelo que fez.

E a Justiça nessa história?

A briga já tá no tribunal. O MBL conseguiu, em caráter liminar, a retirada de uma leva grande de vídeos do Nando. Ele diz que a decisão não explica por que cada vídeo caiu e que o caso foi parar no STF.

Ele leu na mesa um trecho de manifestação do Ministério Público num dos processos. Resumindo com as minhas palavras: o MP estranhou que gente que se vende como defensora da liberdade de expressão irrestrita recorra a ação penal, sob segredo de justiça, pra calar adversário.

E um cara do chat mandou a pergunta que precisava ser feita: tu não tá colando o rótulo de nazista num grupo que tem negros na cúpula e é respeitado pela comunidade judaica? A resposta do Nando, pra registro: ele diz que não chama o MBL de nazista, e sim que alguns discursos e procedimentos do grupo se parecem com os daquele período.

Pra fechar

Foram quase três horas. Uns 107 mil ao vivo.

Eu não vou te dizer em quem acreditar. O outro lado não tava sentado aqui. Mas eu saí com uma coisa anotada, que vale pra qualquer lado: político a gente vigia. Novo ou velho, de esquerda ou de direita. E quem vigia paga um preço. O Nando botou a conta dele na mesa.

Se não servir pra tu decidir voto, serve pra tu olhar diferente pra quem tá te pedindo um.

O papo completo, com os vídeos que ele mostrou, tá aqui: 



Dá o like, comenta aí com respeito (eu sei que é pedir muito nesse assunto), compartilha, manda no grupo da família que discute política no almoço de domingo.

Ele saiu dizendo "Deus nos proteja". Amém, Nando.

A gente se vê depois. Tchau.

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