
O primeiro sangue do episódio saiu antes de a câmera ligar. O André, que a internet conhece como Ninja Flow, chegou no estúdio com uma mala de armas feitas por ele mesmo. Machadão, espada, soco inglês, uma garra de metal. Na hora de arrumar tudo em cima da mesa, a garra furou a palma da mão dele. Ele não falou nada. Eu só fui descobrir no meio da gravação, quando ele pediu um papelzinho pra esconder o sangue, "senão o YouTube desmonetiza o Flow".
Tá bom, né. Prioridades.
Pois é, galera. Esse foi o Flow com o cara que se vende como o homem mais preparado pro apocalipse.
E eu confesso uma parada. Antes desse papo, eu já tinha montado de cabeça a minha lista de "pra quem eu ligo se der merda". Primeiro o Young Mascara, que tem fazenda com galinha pra caralho. Depois troquei pelo Daniel Lopes, porque o cara vive mandando fugir pras montanhas, então ele deve ter alguma parada lá. Aí o Ninja sentou na minha frente e desmontou a lista: tem galinha, mora na montanha, tem bunker e fabrica arma. Full combo.
Eu, no apocalipse, duro uns quarenta minutos. Com sorte. Então fui pra esse papo pra aprender, e saí sabendo que existe espada feita de mola de Fiat Uno, que dá pra levar quase uma tonelada de concreto num Fusca e que tem gente que vai pra Rússia só com passagem de ida.
Ele surfava trem com GoPro na cabeça. E o YouTube não achou graça
A virada de chave do Ninja começa com 14 anos, fazendo vídeo de parkour em Santa Catarina. E não era parkour de pular murinho, não. Os caras surfavam trem, escalavam guindaste, subiam ponte. Tudo com uma GoProzinha na cabeça e, nas palavras dele, se errar morreu. Chegou a competir na Grécia e ter patrocínio da Red Bull.
A inspiração? Vídeo russo. Ele assistia os malucos dando mortal de cima de prédio na neve e pensava: ninguém faz isso no Brasil.
Teve a vez da Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, em reforma. Ele escalou sem cabo, sem nada, e lá em cima ainda tinha um guindaste. Uns 150, 200 metros de altura, pela conta dele. Se pendurou, o cabo enrolou no pé, desenrolou, voltou... e passou um helicóptero da polícia do lado. Meteram o pé. Saiu no jornal.
E teve a do trem. Os caras subiram com uma mini moto num trem de carga em movimento e saíram andando em cima dos vagões. Só que trem de carga tem escolta armada. Num cruzamento, dois seguranças desceram do carro apontando arma pra três malucos de mini moto, e depois subiram no trem pra correr atrás deles. O Ninja comparou com Subway Surfers e, cara, é exatamente isso. Pularam num canavial, ficaram uns dez minutos deitados sem respirar e fugiram.
Aí postaram o vídeo, né.
Duas semanas depois ele tava na delegacia prestando depoimento. Deu sorte: o delegado era um senhor mais velho, achou maneiro e contou que na juventude também pegava trem pra ir pra outra cidade.
O que eu não sabia: no meio disso tudo ele se formou aspirante a oficial no NPOR, e o major chamava ele de "ninja de óculos". E na escola? Excluído, nerdão, cheio de espinha, horrível de bola até hoje. O rei do parkour não era rei de porra nenhuma no recreio.
Só que o YouTube mudou as regras. Vídeo enquadrado em "atos perigosos", monetização amarelinha, vídeo caindo, punição. Ou ele mudava ou perdia o canal.
"Eu não sou sobrevivencialista", e ele fez questão de corrigir
Essa eu não tinha na cabeça. O Ninja se chama de prepper, preparador. Pra ele, sobrevivencialista de verdade é o cara que improvisa no mato sabendo tudo de planta. O exemplo que ele deu foi o Renê Murad, do Largados e Pelados, que olha pra uma árvore e sabe qual folha ajuda em picada de cobra. O Ninja diz que não tem esse conhecimento. Ele prepara antes, testa e deixa pronto.
Aí eu apertei, porque era a pergunta que tava na minha cabeça desde o começo: tu acha mesmo que vai dar merda a ponto de precisar disso tudo, ou é só porque é legal? E falei na cara que, se for só legal, tá tudo certo, porque é legal pra caralho.
Ele assumiu que é legal, sim. Mas defendeu que tem uma filosofia por trás: segundo ele, homem útil pra sociedade é homem forte, capaz de agir num incêndio ou num assalto. O apocalipse é a extrapolação. O resto é preparação pra vida.
E aí veio a parte que parece contradição e não é. O cara que anda com machado nunca brigou na rua. Nunca. Até lutou duas vezes, MMA e muay thai amador, ganhou as duas (uma com joelhada na cara, único nocaute da noite). Mas no ringue, com juiz. Na rua, a regra número um dele é que tu nunca apanha se for mais rápido. A primeira lei da sobrevivência, pra ele, é não ser visto. Por isso o parkour. Por isso o bunker.
O homem mais armado da mesa é também o que mais corre. Faz sentido, saca?
Um Fusca, 80 blocos de concreto e nenhuma estrada
O primeiro bunker nasceu de um motivo que eu respeito muito: ele queria um bunker gamer. Jogava Warzone umas seis, sete horas por dia, campeonato regional e tudo. Cavou embaixo da casa do sítio, encheu de concreto armado e construiu a casa em cima. Errou a impermeabilização, aprendeu depois.
O segundo ele foi fazer no meio da floresta. Onde caminhão de material não chega.
Então ele levou de Fusca. Uns 80 blocos de concreto por viagem, quase uma tonelada, o Fusca rebaixado arrastando no meio do mato. Tu imagina a cena? A única coisa que ele terceirizou foi a escavação, uma máquina que fez o buraco numa tarde. Depois o Fusca virou uma Rural 4x4, e hoje ele tá montando uma picape estilo Mad Max com escudo na frente e pneu de trator.
E ele testa, tá. Já meteu a picape numa árvore pra ver se arrancava. Descobriu que árvore verde não quebra, ela enverga. Quem quebrou foi a picape.
São uns dois anos e meio nesse bunker e ainda não tá pronto. Pela conta dele, foram uns 60, 70 mil, com a mão de obra toda deles. Isso me pegou, porque é o que a gente chama aqui de inovação porca. O Flow começou com webcam em cima de caixa de uísque. O bunker do Ninja começou com um Fusca. A frase dele foi: não dá pra esperar as coisas caírem do céu, começa e depois vê como termina.
A espada é uma mola de Fiat Uno
Agora a parte que me deixou de boca aberta.
Ele comprou um soco inglês chinês de 50 reais na internet e testou num bloco de concreto. O troço explodiu na mão dele. Esfarelou, abriu os dedos, ficou cicatriz. Tem vídeo, e o título que ele deu foi "ASMR de homem". Daí nasceu a decisão de fazer as próprias armas.
A matéria-prima vem do ferro-velho. Lâmina curta sai de serra circular de madeireira. Espada comprida sai da mola traseira do Fiat Uno, aquela de lâmina, igual de caminhonete. Depois é forja caseira, martelo, lixa e têmpera. Dois, três dias por arma. E ele resume do jeito mais honesto possível: as armas dele não são bonitas, mas não quebram.
Tem a "javalizeira", que ele inventou misturando cabo de katana com aquela faca comprida de abate de porco, e que já foi usada numa caçada de javali (legalizada, com canil e o pessoal de backup com espingarda, ele fez questão de frisar). Tem o machadão inspirado no do Kratos, de God of War, com cabo de metal porque o de madeira quebrava toda vez que ele arremessava. E tem o que ele batizou de "soco brasileiro", uma garra curva inspirada na da onça-pintada.
A galera pediu garra de Wolverine. Ele explicou por que não rola: três lâminas dividem a pressão por três, e o corte perde força. Física de ensino fundamental, segundo ele.
Eu fui conferir numa garrafinha d'água. Encostei a espada de leve. Entrou sozinha.
Não fiz força nenhuma, mano.
E ele ainda prometeu que, se o episódio bater 1 milhão de likes, arremessa o machado dentro do estúdio. Eu não autorizei. Mas também não proibi.
"Tu é o cara da prática? Então dá o mortal aqui"
Ele se apresentou como "o cara da prática". Aí eu lembrei: os caras do parkour dão mortal, né?
Ele subiu na mesa do Flow. Quase 30 anos, tempão sem treinar, uns 1,5 metro até o teto, câmera e luz em volta. A primeira tentativa foi finta, o cara me trollou. A segunda saiu, apertada, no limite do teto. E o corte da mão abriu de novo.
Considerei aprovado. O cara sabe até cair.
Foi pra Rússia estudar bunker e voltou namorando
Bom, essa eu precisei que ele repetisse.
Ele foi pra Rússia com passagem só de ida. Sem plano nenhum. O objetivo era ver bunker. Visitou em Moscou um da época da guerra com uns 70 metros de profundidade, escada em espiral infinita, porta de umas 12 toneladas e ar pressurizado batendo na cara quando ela abre. E, óbvio, mandou um backflip lá dentro. Os russos acharam que o brasileiro era maluco.
Ah, e conheceu uma russa. Professora de inglês, que ia traduzindo os guias pra ele. Ela tava sentada ali no estúdio o papo inteiro, sem entender uma palavra de português. Eu tive que zoar: foi pra Rússia de bunker, né?
Ficou uns dois meses e meio, pegou 15 horas de trem pro interior pra conhecer a família dela, e voltou com uma leitura que eu achei boa. Russo de Moscou é tipo curitibano: não te dá bom dia. (Morei quatro anos em Curitiba, posso confirmar a parte do curitibano.) No interior é outra coisa, parece Brasil. Um dono de tabacaria que ele nunca tinha visto convidou os dois pra fumar narguilé na beira de um lago e, no meio da noite, caçar lagosta.
E o homem mais preparado pro apocalipse não toma vodca. Não bebe nada. Eu falei que ele perdeu um pedaço da Rússia. Ele respondeu que toda cultura tem o lado que não presta, e que a gente tem que saber filtrar.
O próximo desafio é o inverno de lá, que no interior chega a menos 30. O recorde dele até hoje é menos um, na Serra Catarinense.
Aí chegou a minha vez de passar vergonha
Um cara no chat perguntou se eu toparia um acampamento. E eu tive que abrir o jogo.
Baixada Fluminense, uns 2001. Eu e uns amigos subimos um morro com barraca, lampião, a espingardinha de chumbinho do meu pai (que não serviu pra porra nenhuma), um lençol pra fazer bandeira e uma lata de tinta spray pra escrever nela. Ninguém pensou em repelente. Ninguém sabia montar barraca. Eu desisti e fui dormir numa pedra, no frio, com mosquito acostumado a picar gado. Ninguém dormiu.
No dia seguinte a lata tava sem o bico. Improvisei com uma tampa de garrafa PET furada. Apertei.
O spray explodiu na minha cara.
Desci o morro carregando lampião, espingarda e a cara inteira pintada de prateado. Esse sou eu no apocalipse, galera. O Ninja riu da minha cara e me convidou pro sítio: uma tarde de treinamento, uma noite de acampamento, e passeio a cavalo pras minhas filhas. Eu topo. Com agenda marcada direitinho e o Ninja segurando o machado longe de mim.
O que eu levei dessa mesa
A mensagem que o Ninja deixou no fim é dele, e vale deixar no nome dele: pra ele, a ideia é a galera ser mais ativa, parar de depender do sistema, seja quem for que estiver no poder, e "ser o homem da sua casa". Ele gosta de videogame, mas diz que não dá pra viver só lá dentro.
Eu levo outra coisa, que ele soltou meio de passagem. Ele se descreveu como um pato: não é profissional em nada, mas o que botarem na mão dele, ele desenrola. O que ele não sabe, são dois tutoriais no YouTube e bora. A espada que ele trouxe pro estúdio saiu de três vídeos.
Isso serve pra mim aqui no Flow, na moral. Tem coisa que eu fico esperando saber fazer direito antes de começar. O cara começou um bunker com um Fusca.
Se não servir pra tu construir bunker nenhum, serve pra tu tirar da gaveta aquele projeto que tá esperando a condição perfeita. Ela não vem.
O papo completo, com o mortal na mesa e a espada atravessando a garrafa, tá lá no canal:
Dá o like. Sério. Se chegar em 1 milhão, o machado voa aqui dentro, e aí a responsabilidade é tua. Manda no grupo da família, pro tio que jura que sobrevive a qualquer coisa, e comenta aí pra quem tu ligaria se o mundo acabasse amanhã.
Obrigado pela moral, Ninja.
A gente se vê depois. Tchau.
