Augusto Cury é sabatinado no Flow News
Divulgação/Flow
Augusto Cury é sabatinado no Flow News

Tu já viu na estante da tua mãe, da tua tia ou da tua avó um livro com o nome Augusto Cury na capa?

Pois é. Chance grande de sim. O cara vende livro nesse país feito água há mais de vinte anos.

E ele sentou aqui no Flow News. Só que não foi pra falar de mente humana, não. Foi porque tá concorrendo à Presidência pelo Avante, e a eleição é dia 4.

Minha primeira pergunta foi mais ou menos essa: então tu tá me dizendo que o Brasil precisa de um psiquiatra?

A resposta veio sem rodeio. Que Brasília, com as devidas exceções, virou um manicômio. A palavra é dele, tá ligado? Eu só tô reproduzindo.

Agora, eu não manjo de direito constitucional nem de macroeconomia. Meu papel aqui é apertar onde dá pra apertar e traduzir o resto. O papo foi de reforma do STF a inteligência artificial, passou por Banco Master, por uma acusação pesada sobre algoritmo, e teve uma hora que eu saí do script pra perguntar uma coisa que tava entalada. Bora.


Os três "cânceres" da América Latina, na conta dele

O Cury chegou com uma tese fechada, e ela é mais radical do que eu esperava.

Pra ele, a América Latina tem três problemas estruturais que travam o continente. Ele chama de câncer, e o termo também é dele.

O primeiro é a reeleição. O argumento é que reeleição namora com a autoperpetuação no poder, e que quem entra já entra devendo favor a quem ajudou a chegar lá. Aí o cara governa pensando na próxima candidatura em vez de pensar no país. Faz sentido, saca?

O segundo é a vitaliciedade no Supremo. Ele quer provocar o Congresso já na primeira semana pra trocar o mandato até os 75 anos por um de 8 anos. Ir embora e nunca mais voltar. O raciocínio dele é que uma Suprema Corte deveria ser discreta, e que a exposição do STF hoje virou escândalo.

E o terceiro é o presidencialismo. Ele defende semipresidencialismo, com um primeiro-ministro cuidando da gestão do dia a dia e o presidente no estratégico e na política externa. O dado que ele usa pra sustentar isso: dos 20 países que mais se desenvolveram, só um seria presidencialista.

Eu ouvi e fiquei pensando. Não sei se eu concordo com tudo, mas o cara tem argumento montado, o que já é mais do que a média por aí, né?

"Como é que passa uma reforma dessas se a gente não passa nem reforma política?"

Foi mais ou menos assim que eu cutuquei.

Porque é fácil chegar com três revoluções constitucionais no papel. Difícil é olhar pro Congresso brasileiro e explicar como é que sai qualquer uma delas.

É tipo assumir um time que tá em último lugar e anunciar que vai trocar o esquema tático, vender metade do elenco e reformar o estádio. Tudo junto. Na primeira semana.

A resposta dele é que justamente por não querer carreira política, ele não seria ameaça pra nenhum partido, e isso lhe daria margem pra negociar sem ser negociado. Quer ficar quatro anos, arrumar a casa e sair.

Mas beleza, digamos que passe. E a economia?

Aí vem o miolo da proposta dele, que ele chama de economia distribuída. A ideia é financiar pelo menos 10 milhões de microempresas, dividir o BNDES em dois (um banco pra empresa grande, um pro micro) e botar agência de banco do empreendedor dentro de comunidade e favela.

E foi aqui que eu apertei de novo. Porque o próprio Cury tinha acabado de dizer que empresa mal gerida quebra. Então eu perguntei o óbvio: como é que 10 milhões de pessoas vão gerir empresa sem nunca terem sido educadas pra isso?

Ele respondeu que junto da agência vai uma escola do empreendedor, em escola pública, com gente do alto nível dando aula de graça, e o Sebrae puxando.

Bonito no papel, né? Eu continuo achando que o buraco é mais embaixo.

Só que aí ele encostou o papo num lugar que eu não esperava. Contou que pai, mãe e mais seis filhos moravam num quarto só. Que a mãe mandava um filho pra escola num dia e outro no outro, porque não tinha roupa pros dois irem juntos. Que depois de casado passou um ano sem comprar carne, e que num ano só empurrou o carro sem gasolina quinze vezes, de roupa branca, na rua, já sendo médico.

Porra.

Relato dele, tá? Não tenho como conferir. Mas muda o peso de quem tá falando de Bolsa Família na tua frente.

Banco Master, Moraes e o pedido que ele fez olhando pra câmera

Essa é a parte mais delicada do papo e eu vou contar com cuidado.

O caso do Banco Master e do Daniel Vorcaro é, na minha opinião, o maior escândalo que o Brasil já viu. Levei isso pro Cury junto com um medo que é da população inteira: o de que tudo seja empurrado pra depois da eleição e vire acordão.

E eu fiz questão de deixar claro ali, como deixo aqui: eu não tô falando em punir ninguém. Eu tô falando em investigar.

O Cury foi na mesma direção. Segundo ele, o julgamento tem que ser rápido, televisionado e antes do dia 4, porque caso contrário estariam furtando do eleitor o direito de decidir com informação. Ele disse que quer olhar nos olhos do ministro Fachin e dos membros da Corte e pedir que não coloquem a investigação debaixo do tapete.

Sobre o ministro Alexandre de Moraes, o Cury afirmou que ele vai ter que explicar muitas coisas, citando ligações que teriam partido de Vorcaro. Essa é a leitura do candidato, não uma conclusão do Flow. O caso corre no STF e não há decisão sobre isso.

E ele foi além, dizendo que grupos ligados tanto a Lula quanto a Flávio Bolsonaro estariam envolvidos com o Banco Master, e que por isso não seria do interesse deles a investigação andar antes da eleição. Também é afirmação dele, sem apresentação de prova no episódio.

Registrei ali e registro aqui: isso é acusação de candidato contra adversários em período eleitoral. Trata como tal.

Aí eu saí do script

Teve uma hora que eu parei a sabatina.

Porque o Cury já tinha vindo aqui no Flow antes, a gente já tinha conversado sobre os livros dele, sobre a carreira de psiquiatra. E quando eu vi que ele tinha se candidatado, a pergunta que me veio não era sobre proposta.

Eu falei pra ele mais ou menos assim: cara, tu tá entrando num jogo que tem umas características perversas. Tem gente nessa disputa disposta a abrir mão de muita coisa pra ganhar. O que que tu tá disposto a abrir mão?

Ele respondeu na hora que não perderia a essência por uma eleição. Nunca.

Pode ser resposta de campanha. Pode não ser. Eu não tenho como saber, e tu também não. Mas eu preferi fazer a pergunta e deixar ela gravada do que ficar só na tabela de propostas, tá ligado?

E aí, já que o clima tava aberto, eu provoquei de novo. Perguntei do Manuel Gomes, o Caneta Azul, que é candidato pelo mesmo partido dele. Falei que eu não sei em que medida aquilo me representa.

Ele desconversou com elegância. Disse que a beleza da democracia tá na divergência e que se o povo escolher mal, a consequência é do povo.

Ou seja: não me respondeu. E eu acho justo tu saber disso, porque a pergunta era sobre o time dele, não sobre o adversário.

A acusação sobre o algoritmo (e o que ele mesmo disse que faria se estiver errado)

Agora a parte mais pesada, e eu preciso te dar o contexto completo.

O Cury afirmou no programa que teve um crescimento explosivo depois do debate da Band e que, do dia pra noite, as redes pararam de entregar o conteúdo dele. Ele falou em "forças ocultas" e disse que há indícios fortes de tentativa de sabotagem da candidatura.

Ele anunciou uma coletiva na Associação Paulista de Imprensa pra apresentar o que tem, e disse que se for investigado e não houver comprovação, ele pede desculpas públicas. Se houver, disse que vai cobrar centenas de bilhões de dólares, que não iriam pro bolso dele.

Ou seja: é uma suspeita que o próprio candidato classifica como não comprovada. Tô contando porque foi dito no meu programa e porque é grave dos dois lados. Se for verdade, é bomba. Se não for, também diz alguma coisa.

Ele comparou os valores de impulsionamento: uns R$ 100 mil da campanha dele contra dezenas de milhões dos dois primeiros colocados. Números dele. Não conferi na hora.

O psiquiatra apareceu no fim

E cara, teve um momento que o candidato saiu e o autor dos livros voltou.

Ele soltou dados sobre saúde mental que, se estiverem certos, explicam muita coisa do Brasil de hoje. Falou que uma em cada duas pessoas terá um transtorno psiquiátrico em algum momento da vida, e que no Brasil a fração que consegue tratamento é ínfima, seja por falta de médico, por custo ou por medo de admitir a fragilidade.

Depois falou da intoxicação digital, e aqui ele conectou com uma coisa que eu vejo em casa: criança que para de dar atenção pro próprio bichinho porque a tela entrega estímulo mais barato e mais rápido.

E soltou um conselho que serve pra qualquer pai, independente de eleição: elogie três vezes mais do que critica. A frase dele foi que apontador de falhas não conserta máquina nenhuma.

Essa é a parte que não tem lado. Eu anotei.

O que eu levo desse papo

Antes de qualquer coisa, o de sempre, e eu repeti isso no ar: o Flow não tá te dizendo em quem votar. Não apoiamos candidato A, B nem C.

O que a gente faz é sentar com o cara, deixar ele expor como enxerga a realidade, apertar onde dá, e devolver isso pra tu formar teu próprio juízo. Inclusive contratamos a Agência Lupa pra checar o que é dito nessas conversas e no debate do dia 21. Porque afirmação em campanha tem que passar por peneira.

Eu falei pro Cury no fim, e é verdade: eu acho curioso quando aparece alguém que, à primeira vista, não devia estar ali. Na minha opinião ele é um cara desses. Mas não vou ficar falando bem dele, não adianta.

O que eu levo pra mim é a pergunta que eu fiz fora do script. Vale pra política e vale pra tua vida: o que tu tá disposto a abrir mão pra conseguir o que tu quer? Porque todo mundo paga alguma coisa. A diferença é quem sabe o preço antes.

Se tu quer ver a sabatina inteira, com os números e as propostas na íntegra, corre lá:


Dá o like, comenta aí o que tu achou e manda no grupo da família que discute política no almoço de domingo. E se tu discorda de tudo que leu aqui, comenta também. É disso que a democracia vive.

A gente se vê depois.

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