
Salve, família.
Sexta-feira à noite, estúdio do Flow, e eu com dois na mesa: o Dilera e o Skipinho. Se tu acompanha Twitch brasileira há mais de cinco minutos, tu sabe quem são os dois. O Dilera é o cara que grita, xinga, cospe no meio da frase e transformou a Síndrome de Tourette na coisa mais engraçada da internet brasileira. E o Skipinho é o cara que já tava lá antes. Antes do hype, antes do milhão de seguidor, antes de todo mundo querer o Dilera no canal.
E vou te falar: começou como zoeira pura e em algum momento virou outra coisa. Teve treta de dez anos atrás sendo aberta ao vivo. Teve um Tiggo que fundiu três vezes. Teve gente vendendo dinossauro criado por IA. E teve uma mensagem de um pai que me fez calar a boca.
O engraçado é que na época em que esses dois eram os reis da Twitch Brasil, eu era só mais um streamer sem nada. Não existia Flow. Eu assistia. Então esse papo aqui, pra mim, foi meio que fechar um ciclo. Bora.
Três dias na casa do Skipinho (e o cheiro de cigarro que ficou)
Antes de se mudar pra São Paulo, o Dilera passou três dias na casa do Skipinho. Três.
Primeiro dia foi hype total, saudade, abraço. Segundo dia foi dez horas de conversa colocando a vida em dia. E o terceiro... o Skipinho jura até hoje que se precisasse de um quarto dia ele ia sugerir um hotel ali pertinho. "Pra tu ficar mais confortável, né." Tá, Skip.
O detalhe é que naquela época o Dilera ainda fumava, e a casa do cara é aquele negócio de chão que parece porcelana. Ele contou que ficou meio sem jeito de sentar na mesa do jantar. A esposa do Skipinho olhando pro chão, as crianças ali, e ele no meio.
E aqui tem uma parada que eu acho que a galera não entende. Na internet o microfone comprime tudo. Tu ouve o grito, dá risada e segue a vida. Ao vivo, mano, o rojão é ALTO. Tu não tá ligado em quão alto é. A internet te entrega uma versão comprimida do Dilera. Na sala da tua casa é 4K.
"A gente não era um time?"
Aí eu puxei a treta. Porque eu precisava saber, tá ligado?
Volta uns oito, dez anos. PUBG dominava a . Dominava mesmo. E naquela época não existia contrato de influenciador do jeito que existe hoje. Existia uma coisa chamada minutagem: milhão de minuto assistido virava dinheiro, e a minutagem gringa pagava o dobro da brasileira. Por isso todo time grande tinha streamer no elenco. Todo mundo tava caçando minuto.
O Skipinho e mais três entraram num time internacional. Não era treino, não tinha campeonato oficial ainda, eles só jogavam junto e faziam live. Cada um já era bom por si.
Aí lançou o primeiro campeonato de verdade do jogo. Data marcada, inscrição aberta. Passou a primeira semana. Passou a segunda. E a uma hora do fechamento das inscrições, dois dos quatro se inscreveram sem ele e chamaram outro cara.
Ele descobriu ao vivo. Entrou no Discord, perguntou na cara. Saiu de lá a frase que virou meme e que ele recebe de donate até hoje.
Cara. Pensa nisso. Uma hora.
E o que me pegou não foi nem a treta. Foi ele falando hoje, calmo, que se fosse agora ele processava, cobrava tudo, porque tinha contrato e a org tinha obrigação. Mas na época ele era garoto. No dia seguinte pagaram o que deviam, cinco meses atrasados, e acabou. Cada um pro seu lado.
Ele não quis falar o nome do outro cara na live, e eu respeitei. Mas nem precisa. Quem viveu aquela época lembra que o chat da Twitch brasileira era dividido em dois lados igual eleição. Era time A ou time B. Toda mensagem nova no chat era alguém querendo saber de que lado tu tava.
Motor de Corolla
Aí o papo desceu pro nível terra e eu chorei de rir.
O Dilera comprou uma MT-07. Ficou um mês. Trocou por uma 1000 cilindradas. Chegou a 240 por hora, freou de uma vez, quase morreu, vendeu. Voltou pra uma Biz. Depois uma Crosser. E aí decidiu de madrugada que ia pra São Paulo, foi na feira do rolo e trocou a moto num Tiggo.
O vendedor falou uma coisa só. Motor de Corolla. Era o argumento inteiro. Motor de Corolla.
Andou 150 km. Ferveu. Parou no posto, pagou 800 reais. Andou mais 150. Ferveu de novo. Mais 1.800 de guincho pra trazer o carro pra São Paulo. Chegou aqui, rodou 10 quilômetros e fundiu.
Dez. Quilômetros.
Deu 8 mil pra arrumar o cabeçote. Ele contou isso rindo, o que é ainda mais insano.
Brasileiro é criativo pra carlho. Pena que gasta em golpe
E aí veio o bloco que me deixou puto de verdade.
O Dilera tem um GPS com a voz dele, aquele negócio que tá em meio Brasil. Um perfil de cortes com 180 mil seguidores pegou o link, começou a vender por fora e simplesmente não entregava. Cara. É 30 reais. Trinta. E o cara ainda bloqueou o Instagram de todo mundo da produção quando foram cobrar.
Tirar dinheiro de gente que quer prestigiar um PCD é um nível de sem-vergonhice que eu não sei nem onde arquiva.
Aí o Skipinho lembrou de outro: tem um maluco vendendo dinossauro. Dinossauro. Ele faz vídeo com IA mostrando o ovinho chocando, o bichinho nascendo, e vende por 500 reais. E tem brasileiro comprando. Não chega nada, óbvio.
E teve a história da irmã dele, que chegou empolgada dizendo que o governo tava liberando 3.200 reais pra quem entrasse num link. Ele falou dez vezes que era golpe. Dez. Ela pagou os 90 reais de "taxa de liberação" mesmo assim, e o Skipinho acabou reembolsando ela pra encerrar o assunto. Ela tá esperando os 3.200 até hoje.
Ele ainda contou de uma ligação de sequestro falso que recebeu no trabalho. Ligou pra esposa no outro telefone, confirmou que ela tava bem em dez segundos, e voltou pro golpista só pra trollar. O cara desligou.
A real é que a gente é o povo mais criativo do planeta e uma parte considerável dessa criatividade tá sendo investida em foder o vizinho. A gente não exporta tecnologia. A gente exporta golpe.
O Ban, o laudo e a menina que virou a mais foda da escola
Agora vem a parte que mudou o clima da mesa.
Teve uma época, e quem tava na Twitch lembra bem, em que certas palavras derrubavam teu canal na hora. Não podia falar. Ponto. E o Dilera tomou 15 dias de ban por discurso de ódio. Por uma palavra que ele fala sem querer. Que é sintoma. Que é a porra do diagnóstico dele.
Eles acharam alguém lá dentro que cuidava da parte de acessibilidade, mandaram o laudo médico, e em dois ou três dias voltou. Depois disso ele nunca mais tomou nada.
Mas fica o buraco na lógica, né? A plataforma criou um sistema que pune a palavra e não a intenção. Aí um cara com Tourette é banido por ter Tourette. E só destrava porque conheceu alguém que conhecia alguém.
Só que o que me derrubou mesmo foi o final desse bloco.
Eu recebi uma DM no Instagram, faz um tempo, de um pai. A filha dele tem Tourette e era rejeitada na escola. As crianças não entendiam, os pais não entendiam, e ela era a esquisita da turma. Aí o Dilera explodiu. E de repente os moleques passaram a entender o que era aquilo. Ela virou a dourada da turma. Dá os gritos, dá os tiques, e a galera dá risada com ela e defende ela.
Porra.
Eu sou pai. Eu fico pensando na cena dessa menina chegando na escola antes e depois. É a mesma menina. Mudou o mundo em volta dela.
Um moleque do interior fazendo live de videogame fez pela inclusão mais do que qualquer campanha de conscientização que eu vi na minha vida. Sem querer. Só sendo ele.
"Não importa se é esquerda ou direita, importa o caráter"
E aí, do nada, o papo virou. Extra Flow é isso.
O Skipinho soltou uma parada que eu anotei: pra ele, todos os sistemas de governo já deram errado em algum lugar e já deram certo em outro, então discutir o rótulo é perder tempo. O que importa é se quem tá lá em cima quer o bem de todo mundo ou quer o bem do próprio bolso. E o Dilera completou dizendo que liberdade hoje, na prática, é poder aquisitivo. Com grana tu escolhe onde morar, com quem conviver, que vida tu leva.
Não é a minha fala, é a deles, e eu tô repassando porque achei honesto.
Daí caímos em Lei Rouanet, e eu vou te falar como eu penso. O mecanismo em si não é o problema. Renúncia fiscal existe no mundo inteiro. O problema é acesso. É o velho QI, quem indica. Se o Skipinho quiser fazer o filme dele, ele consegue aprovar e captar? Na teoria sim. Na prática tu sabe que não é bem assim. É mais uma parada boa que a gente usa de um jeito merda porque tem muita gente com a mão no pote.
E isso me irrita porque o Brasil já é uma potência cultural sem nem tentar. Criança na China cantando funk. Gringo se sentindo especial por vestir camisa da seleção. Brasil core virando estética. Isso é soft power, mano, é influência sem tanque de guerra. A Coreia entendeu isso e montou uma indústria. A gente entendeu e botou pra escanteio.
Ah, e teve a teoria conspiratória da noite: o Dilera jura que depois que ele foi falar num evento, uma semana depois começou a rolar aquele papo de taxar negociação de skin e proibir abrir caixa. Cara, na moral: eu quero muito acreditar que não tem ligação nenhuma. Imaginar que gente daquele nível tá preocupada com o que o Dilera fala me parece um apequenamento absurdo. Mas o timing é engraçado. Isso é.
Temporada dos PCDs
Fechando: o Dilera tá irreconhecível.
Botou dente, arrumou a pele, tá com aquela cara de gente que dorme bem. Eu peguei foto antiga dele ali na hora e não é o mesmo ser humano. Ele tá gravando todo dia, tá na novelinha do Cariani com a doutora Dani, todo mundo quer ele no canal, e ele mesmo chama esse momento de "temporada dos PCD".
Mas presta atenção na parte que importa.
O Skipinho foi o cara que ficou. Numa época em que a palavra errada derrubava teu canal e o teu sustento, andar com o Dilera era risco real. A galera tinha medo. Tinha medo de tomar ban de revés, de perder patrocínio, de dar merda. O Skipinho pagou pra ver. Fez live, narrou campeonato junto, defendeu, botou o nome dele na reta.
E hoje o outro tá lá em cima.
Anotei o ouro
Cara, eu sentei nesse Extra Flow achando que ia ser três horas de zoeira e saí com uma frase martelando na cabeça: o hype chega pra quem tem alguém que ficou antes do hype.
Todo mundo quer estar junto agora. Todo mundo quer o Dilera na thumb agora. Mas em 2018 tinha um cara só chamando ele pra live sabendo que podia se foder junto. Isso não tem métrica. Isso não aparece em dashboard nenhum.
E se serve pra mim aqui no Flow, serve pra tu também. Olha em volta e vê quem tava do teu lado quando tu não era ninguém. Provavelmente é a pessoa que tu menos agradece.
O papo completo tá lá no YouTube, e tem umas partes que eu não consigo nem descrever aqui.
Dá o like, comenta aí qual foi o teu golpe favorito dessa lista, compartilha, manda no grupo da família, manda no grupo da igreja. E se tu conhece alguém com Tourette, manda esse vídeo pra ela. Sério.
A gente se vê depois.
