Ronaldo Caiado é sabatinado no Flow News
Divulgação/Flow
Ronaldo Caiado é sabatinado no Flow News

Quem sentou aqui comigo no Flow News foi o Ronaldo Caiado, governador de Goiás e candidato à Presidência pelo PSD. Ele ficou duas horas na cadeira. E falou uma coisa que me pegou: que foi a primeira vez na campanha inteira que ele teve tempo de conversar de verdade.

Pensa nisso. Candidato a presidente sem espaço pra falar mais de cinco minutos seguidos, né?

Eu não manjo de regimento de Supremo nem de política de presídio. Meu papel aqui é apertar onde dá e traduzir o resto.

Ele falou de anistia, falou de reeleição, falou do Vorcaro, e teve uma hora que ele me fez um convite que eu não esperava. Bora.

"Graças a Deus a população enxergou"

A gente gravou no dia seguinte àquela sessão do STF. E aí não teve como começar por outro lugar.

O Caiado não amenizou. Pra ele, o Brasil viu um colegiado se acusando por dentro, num nível que ele diz não ter visto nem no Legislativo. E a leitura dele é que a exposição foi boa: graças a Deus a população enxergou, foi a frase.

Aqui eu topei e completei. Porque eu prefiro ver aquilo do que não ver, tá ligado? Por mais desconfortável que seja, o cidadão descobriu na marra que aquelas indicações são políticas e que existem alas ali dentro. Isso é didático.

Ele apontou uma saída que eu não conhecia: não é só o Supremo que pode se autocorrigir. Na omissão da Corte, o Senado teria a prerrogativa de instalar comissão de ética e afastar ministro. E aí ele perguntou onde está a voz do Senado.

Sobre como se escolhe ministro, a proposta dele tem quatro pernas: notório saber, idade mínima de 60 anos, varredura completa da vida pregressa antes da indicação, e quarentena ao sair. Oito anos antes de poder ser candidato a qualquer coisa.

A lógica dele é simples e meio dura: hoje se escolhe jovem porque jovem fica mais tempo, e se escolhe amigo porque amigo é leal a quem indicou, não à Constituição.

É tipo montar time de futebol escalando quem é teu chegado em vez de quem joga. Funciona no domingo com os parceiro. Não funciona quando o campeonato é o país.


Anistia no primeiro dia. Sem meia palavra.

Essa é a parte mais pesada do episódio e eu vou entregar sem enfeite.

Eu perguntei se ele mantém o que já tinha dito antes, que não sabe se o 8 de janeiro foi golpe. Ele manteve. E emendou que vai encaminhar anistia a todos no primeiro dia de governo, deixando claro que a palavra final é do Congresso, não do presidente.

O argumento dele é que isso só alimenta uma briga que não entrega nada pro cidadão.

É posição dele, e é uma das mais contestadas do debate público brasileiro hoje. Eu registrei ali e registro aqui. Tem gente que vai ler isso e fechar o Flow com raiva. Tudo bem, é pra isso que serve perguntar.

Na mesma lista do primeiro dia ele colocou o fim da reeleição, e aí ele foi mais longe do que eu esperava: quer PEC promulgada encerrando o próprio mandato em 2030, sem chance de continuar. A frase que ele usou foi que ninguém governa sendo soldado do rei e soldado do papa ao mesmo tempo.

Ou tu governa, ou tu se reelege. Escolhe.

E olha, vindo de um cara que tá disputando justamente essa cadeira, é uma promessa cara de fazer.

Vorcaro, Lula e Flávio: a tese mais grave que ele soltou

Agora a parte que exige cuidado, e eu vou ser bem explícito.

O Caiado afirmou que Daniel Vorcaro comprou os dois lados da política brasileira, com dinheiro pra cá e dinheiro pra lá, e que por isso a certeza dele seria sair solto depois da eleição, ganhe quem ganhar.

Isso é tese do candidato. Ele não apresentou prova no programa e eu não confirmei nada. O caso corre no STF.

Ele também listou, pelo nome, o que considera pendências do Flávio Bolsonaro e do Lula. Mesma régua: acusação de candidato contra adversários, em período eleitoral, três semanas antes do voto. Trata como tal.

O que eu acho justo destacar é outra coisa. Quando eu puxei o Bolsonaro pai, ele não desceu a lenha. Reconheceu que manter a direita unida fora do mandato e sem ser candidato é algo inédito na política brasileira, e disse que não gosta de falsear o que precisa ser reconhecido.

Aí separou as divergências, que são concretas: a vacina e a quarentena dos brasileiros repatriados da China. Ele é médico, acredita em ciência, e ali não deu.

O cara elogiou o pai e detonou o filho na mesma resposta. Isso não é comum, né?

Presídio, facção e o embaixador de El Salvador

Segurança é a bandeira dele e foi onde ele ficou mais à vontade.

O que ele diz ter virado o jogo em Goiás não foi patrulhamento: foi assumir o controle das penitenciárias. Cela de no máximo oito, scanner corporal, monitoramento ambiental, fim da visita íntima pra faccionado, audiência com advogado gravada.

E a separação física entre faccionado e não faccionado, com galpões de marcenaria, mecânica e confecção do outro lado, onde preso trabalha e sai com carteira assinada.

Segundo ele, o embaixador de El Salvador foi duas vezes a Goiânia ver o presídio.

Duas, mano. O cara do país que virou referência mundial em presídio veio aprender aqui, tá ligado?

O plano dele prevê 40 unidades no modelo, a R$ 3 bilhões, divididas pelos estados. E tem a parte mais polêmica: quer enquadrar faccionado como terrorismo, o que liberaria Marinha, Exército e Aeronáutica na Amazônia.

Eu cutuquei no ponto que me incomoda. Se o PCC chegou na Europa, ele já não está dentro do próprio Estado brasileiro? Ele não fugiu: disse que sim, que hoje tem em todo nível, e usou a palavra metástase.

O absorvente e o prato de vidro

Esse foi o bloco que mais me pegou, e não tem nada a ver com ideologia.

Ele contou que foi atrás de entender por que adolescente faltava aula em Goiás. A resposta era que menina não ia à escola por não ter absorvente. Ele passou a distribuir.

E teve o que ele chama de turno da fome, moleque que ia pra aula sem ter o que comer.

Aí veio o detalhe que eu anotei. Ele mandou servir a merenda em prato de vidro, com talher de inox, sentado à mesa com toalha. Não é frescura: a ideia dele é que a criança aprenda o que é uma refeição e leve isso pra casa, corrigindo os pais.

Porra. Isso é governar olhando pra gente, não pra planilha.

Ele diz que hoje sete dos dez colégios estaduais mais bem avaliados do país estão em Goiás, e que na alfabetização na idade certa o Ceará é primeiro e Goiás vem em segundo. São números que ele soltou de cabeça e que eu não conferi na hora.

E eu devolvi o meu incômodo: no Brasil a gente já põe dinheiro pra caramba na educação. O problema não é repasse, é regra velha e é desvio. Ele concordou, e contou de uma gravação em que um parlamentar ensinava um prefeito a desviar justamente a merenda e o transporte escolar.

Roubar a comida de criança em escola pública. É esse o nível.

As bets, e a parte que doeu

Aqui o papo ficou pesado de outro jeito.

Ele defende apertar as apostas online, e não pelo lado moral. Lembrou que a ludopatia é doença classificada internacionalmente, e trouxe o caso de um pai que viu o gasto do filho no extrato e ouviu de volta que aquilo não era droga nem era proibido, tanto que patrocina o time e aparece no evento inteiro.

Ele contou também que perdeu um integrante da própria equipe de segurança por causa de dívida de aposta. Não vou entrar em detalhe. Só registro que ele trouxe isso como experiência própria, não como estatística.

Mas eu discordei na prática. Proibir não resolve, porque ludopata faz VPN e joga em servidor de fora. Ele concordou na hora e ofereceu outro caminho: tributar na entrada, do jeito que se faz na Índia, onde boa parte da aposta já vira imposto antes de virar aposta.

Ou seja, em vez de proibir, encarecer até não valer a pena. Faz sentido, saca?

"Me empresta a sua coragem"

Teve uma hora que eu comentei aquilo que todo brasileiro fala no boteco: que político é tudo igual, que é tudo bandido.

E ele parou.

Falou que isso é o que mais dói nele. Ouvir na cara, depois de quatro décadas de vida pública, que tanto faz. Não sei te dizer se foi performance. Só sei que a pausa foi real e que eu preferi deixar ela acontecer a atropelar com outra pergunta.

Aí ele virou e fez um convite: se chegar à Presidência, quer despachar do bairro mais violento de cada cidade que visitar. Falou em Complexo do Alemão. E me chamou junto.

Eu ri e falei que ele só quer ir pros lugares sinistros. Mas o argumento não é piada: pra ele, presidente acobertado enquanto o povo fica exposto é o contrário do que o cargo deveria ser.

Depois me perguntou por que eu não me candidato. Respondi o que eu penso mesmo: provavelmente nunca vou. Meu jeito de contribuir é esse aqui, sentar e ter tempo de acessar o que tem na cabeça de vocês. Meu papel não é te dizer em quem votar.

E o episódio inteiro ele voltou numa figura que é invenção dele: a dona Irene. A mulher que no dia 15 já ficou sem salário, que faz a conta dentro do carrinho e sai do mercado com menos comida do que entrou pra comprar. Ele fechou falando direto pra ela, e a frase foi essa: me empresta a sua coragem.

O que eu levo desse papo

Uma coisa dele eu anotei e não tem nada a ver com eleição.

É aquele critério de escolher gente por lealdade em vez de competência. Ele falou daquilo pensando em ministro do Supremo, mas cara, isso vale pra quem tu contrata, pra quem tu faz sociedade, pra quem tu bota na tua equipe. Lealdade a ti é uma coisa. Lealdade ao trabalho é outra. Quando tu confunde as duas, tu tá montando um problema pro teu futuro.

Agora, o resto: não é pra tu acreditar em mim nem nele. É pra tu chegar no dia 4 sabendo mais do que sabia ontem. A gente contratou a Agência Lupa justamente pra checar o que é dito nessas conversas e no debate do dia 21, porque promessa de campanha tem que passar por peneira.

Se tu quer as duas horas completas, corre lá: 


Dá o like, comenta aí o que tu achou e manda no grupo da família, no grupo da igreja, no grupo do bairro. Manda onde tu quiser. E se tu discorda de tudo isso, comenta também.

A gente se vê depois.


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