
Salve, família.
Deixa eu te perguntar uma coisa antes de tudo. Tu já parou pra pensar que quando a gente sonha com alguma coisa, a gente nunca sonha com a parte ruim dela?
Pois é. Foi o Maurício Meirelles que me colocou nessa.
Ele falou que o moleque que sonha em ser jogador de futebol imagina o gol e a namorada. Não imagina a lesão, a cobrança, o não poder errar nunca. E soltou a frase que virou o título disso aqui: quando o Neymar sonhou em ser jogador, ele não tava pensando no Casagrande.
Cara. Eu fiquei quieto uns segundos.
E olha que eu chamei o cara no meio da temporada mais política do ano, achando que a gente ia falar de eleição e rir. A gente falou de eleição. Só que o papo desandou pra um lugar que é o oposto de engraçado, e foi o melhor episódio de comediante que eu fiz em muito tempo.
Bora.
"Todo político é gente boa, esse é o trabalho deles"
Primeiro o assunto que tá na boca de todo mundo, porque eu tô entrevistando candidato atrás de candidato e ele também.
E ele começou com um alerta que eu assino embaixo: todo político é gente boa no off. Chega, aperta a mão de todo mundo, elogia o estúdio, é simpático pra caralho. Isso não é bondade. É o trabalho deles.
Segundo o Maurício, os dois lados operam de jeitos diferentes. Um deles funciona como líder de matilha, ninguém manda nele, ninguém diz quanto tempo ele fica nem o que ele fala. O outro vem com uma estrutura de partido em volta, gente ao lado cuidando do que entra e do que não entra.
Aí eu contei uma de bastidor. Numa das entrevistas que a gente fez aqui, ao vivo, alguém da comitiva pediu pra parar o programa. Mais de uma vez. Com quarenta minutos de conversa.
Eu não parei.
E teve a outra, que é a mais reveladora: numa rodada antiga de entrevistas em que eu fiz exatamente as mesmas perguntas pra todos os candidatos, num formato de entrevista de emprego com uma RH na mesa, quem mais deu trabalho foi o candidato mais à esquerda da fila. Pediu todas as perguntas antes e vetou tema.
E o cara até era legal. Só que tinha medo.
O problema não é ser cancelado, é desagradar
Aí o Maurício fez uma distinção que eu achei precisa.
Ele falou que o medo não é do cancelamento. É de desagradar. É de pisar fora da cartilha que o teu público espera de ti. O cara não vai tocar em gordo porque tem eleitor gordo, não vai tocar num tema porque tem eleitor daquele grupo, e no fim ele não fala nada.
E o efeito disso é o que ele chama de autocensura. Não é que censuraram ele. É que a galera da internet é chata, então ele não fala. Aí outro não fala. Aí ninguém fala.
Ele falou que esse é o primeiro ano em que ele vê uma porrada de gente que gritava em 2022 simplesmente sumida do debate.
E aqui eu concordo com ele e vou além. O que mais me irrita hoje é que tu não consegue mais fazer uma crítica sem ser rotulado. O cara é o síndico do prédio, o elevador quebrou, eu preciso cobrar o síndico. Aí me respondem que o síndico anterior fez a escada.
A gente tá competindo com a gente mesmo.
Ele bate em todo mundo, e é de propósito
Já que a gente tava falando disso, eu perguntei como é que ele faz pra não virar comediante de time.
O método é bem pensado. No show dele, o público responde um questionário por QR code antes de começar. Ele descobre quem já foi preso, quem separou, quem é de direita, quem é de esquerda, quem é evangélico, quem é vegano. E monta o show em cima daquilo.
E aí ele bate em todos. No Lula, no Bolsonaro, no evangélico, no vegano, na umbanda, e nele mesmo.
Ele deu o nome da coisa, que ele aprendeu vendo South Park: iconoclastia. Bater no poder, seja de onde for. Tudo que é poderoso merece piada.
O que ele não suporta é o jornalista que comemora quando aparece crise de um lado e fica quieto quando aparece do outro. Porque aí não é análise, é torcida.
E o mais honesto do bloco inteiro: ele admite que tem um viés pessoal, que no dia a dia dele a opinião tem lado. O que ele tenta é tirar esse véu na hora de fazer a arte.
Isso é mais do que a maioria admite.
Se o Brasil fosse uma pessoa, seria um moleque de 16 anos
Pra aliviar, porque essa parte é engraçada pra caralho e ao mesmo tempo dolorida.
Ele tem um exercício de transformar país em pessoa, e eu entrei junto.
O Brasil pra ele é um moleque de 16, 18 anos. Vaidoso, com boné de marca, invejoso e hipócrita. Moralista com o que o outro fez e faz igualzinho.
Os Estados Unidos são um babaca de 30 anos que acha que o dele é o maior. A China é um velho que treina, corre mais que o moleque brasileiro e ainda chama todo mundo de otário. O Japão é um senhor de 70 que chega às cinco da manhã e reclama que às seis e meia ninguém apareceu. A Alemanha é um cara de 50 que não sorri e não tá pra brincadeira.
E aí ele emendou a parte que doeu: a gente é vira-lata com quem tá acima e grosso com quem tá abaixo. Chega um europeu, a gente oferece a casa. Chega um vizinho nosso do continente, a gente mal puxa conversa.
Pensa nisso. É piada até tu perceber que é um retrato.
Em Angola ele correu na rua de manhã
E aí veio o bloco de viagem, que foi onde ele mais me surpreendeu.
Ele levou o quadro dele pra Angola e ficou dez dias gravando. E a leitura que ele trouxe foi essa: lá tem gente com muito e gente com quase nada, e quase nada de meio termo. Só que o celular dele não corria risco, porque quem tá na pior não teria pra quem vender.
Ele corria de manhã no meio de Luanda com o celular na mão. Coisa que ele não faz em Pinheiros.
E teve o detalhe que me pegou: ele diz que não viu carro blindado.
Tem também uma sacada de método ali. O quadro junta um brasileiro, um angolano, um francês e um chinês, e ele contou que criou isso porque estava de saco cheio do policiamento em cima da comédia. Cada um fala da própria cultura e ninguém pode enquadrar ninguém.
E o melhor: o integrante que mais tirava sarro da África foi o mais assediado quando pisou lá. Todo mundo querendo foto com ele.
O iate em Miami e a pizza com o filho
Agora a parte que fez o episódio virar outra coisa.
Ele passou 50 dias fora cobrindo a Copa. Cinquenta. Perdeu a rotina, perdeu o fuso, perdeu o chão, e virou o cara que reclama de ir pra Nova York pela quarta vez no mês.
Aí, em Miami, uns amigos chamaram ele pra dar um rolê num iate alugado. Open bar, jogo passando na TV, numa quarta-feira à tarde.
O Maurício de 16 anos estava em êxtase. Ele falou isso com essas palavras.
E aí ele parou e reparou numa coisa: aquela felicidade não era diferente da que ele sentiu levando o filho pra fazer pizza.
Ele falou que aquilo foi um alívio, e eu entendo. Porque se a felicidade precisasse de um iate em Miami, a vida dele seria insustentável. Já que não precisa, ele pode parar um pouco.
E a conclusão é dele, não minha: ele parou de planejar dez anos pra frente. Não porque virou coach de presente, mas porque o filho nasceu dente e ele não viu o dente nascer.
A gente bate palma pra obsessão
E aí ele fechou com a crítica mais afiada do papo.
A tese é essa: a gente olha pro cara que acorda às três da manhã pra treinar e chama de obstinado. Se esse mesmo cara chegar às quatro da manhã no escritório da tua empresa, tu ia querer demitir ele.
Tem alguma coisa ali que não é normal, e a gente aplaude assim mesmo.
E aí vem a parte que serve pra quem tá comprando curso de gente assim: ninguém te vende a fatura. Ninguém abre o curso avisando que tu vai ficar um ano sem ver tua mãe, que talvez pegue um burnout, e que se der certo tu fica rico e não almoça mais com tua filha.
Ele resumiu de um jeito que eu levei: tu tá tentando copiar o método de alguém cujo cérebro funciona diferente do teu. Funcionou pra ele. Não quer dizer nada sobre ti.
E ele ainda se implicou junto, contando que fica vendo tutorial de como levantar muro porque acha que não sabe fazer nada de útil. A esposa pergunta por que, se ele já achou a profissão em que é bom. Ele não sabe responder.
O que eu levei desse papo
Anotei minhas coisinhas.
Levei o negócio do político gente boa, que serve pra qualquer um que vai sentar na frente de alguém que quer alguma coisa dele. Simpatia no off é ferramenta de trabalho.
Levei que autocensura não começa com censura. Começa com preguiça de aguentar a chateação.
E levei o iate, que é a que eu vou lembrar daqui um ano. Porque a gente passa a vida montando uma felicidade complicada quando a simples já tava resolvendo.
Ah, e uma que eu roubei descaradamente: o preço do sonho vem sempre depois do sonho, e ninguém te mostra ele na hora de sonhar.
Se não servir pra tu na carreira, serve pro próximo curso que te prometerem.
O papo completo tá lá no canal:
Dá o like, comenta aí qual seria o teu país se ele fosse uma pessoa, compartilha e manda no grupo daquele teu amigo que tá planejando os próximos dez anos.
A gente se vê depois. Tchau.
