Ferrugem é o convidado de novo episódio do Flow Podcast
Divulgação/Flow
Ferrugem é o convidado de novo episódio do Flow Podcast

Salve, família.

Deixa eu te perguntar uma coisa antes de tudo. Tu já reparou que a música que tu mais canta alto no carro quase sempre é a da história que não deu certo?

Pois é. Eu reparei nisso ouvindo o Ferrugem falar.

O cara tem 11 álbuns e passou a carreira inteira apostando no amor que dá certo. Aí, dois discos atrás, ele resolveu se dar licença pra falar dos que não dão. E a carreira andou.

Ele contou isso na mesa com uma cara meio de quem não sabe se comemora ou não. E eu entendo.

O papo foi parar em uns lugares que eu não esperava: o pai caminhoneiro, o dinheiro que sumia, o dia em que ele subiu num elevador no Rock in Rio com medo do que ia ver lá em cima, e uma noite em que ele chorou em vez de cantar.

Bora.

O pai rodava de caminhão e ele atendia o cara do frango

Ele veio de Campo Grande, zona oeste do Rio. Três irmãos.

O pai foi caminhoneiro por mais de 30 anos, e ele lembra do valor: alguma coisa perto de mil reais por mês, pago em quinzena. Ele mesmo ia no banco buscar 500. Quinze dias depois, buscar os outros 500.

E aí tem a cena que eu acho que qualquer pessoa que cresceu apertada reconhece na hora. Batia o cara do frango na porta, e ele tinha que dizer que o pai não tava, que só voltava semana que vem porque tava em Recife. Depois batia o cara que vendia as panelas. Depois o cara da luz.

Tu já foi a criança que atende a porta pro cobrador? Então.

Ele começou a tocar com 12 anos. Com 15 já tinha agenda. Trabalho de carteira assinada ele nunca teve, e falou isso com um certo orgulho: entregou lanche, vendeu jornal no sinal, sempre um bico que desse dinheiro sem tomar o tempo da música.

E aí eu perguntei quando é que virou. Com 28.

Treze anos de estrada até a primeira música tocar no rádio. Pensa nisso.


"Ganhava 20 mil e devia 10"

Aí veio a parte que eu mais ri, porque é tão clássica que dói.

Quando a coisa começou a andar, ele tava tirando uns 20 mil limpos por mês. E devia uns 10 no banco.

Não ia em casa. Só passava pra tomar banho. Guardava as coisas dentro do carro, era aquele cara que mora no porta-malas. E comprou uma BMW 320 que até hoje ele não sabe explicar como conseguiu comprar. Falou que vai ter que perguntar pro pai.

Não tinha entrada, não tinha nada. Comprou.

E ele resumiu numa frase que eu vou roubar: não tinha nem uma gotinha de mel, mandaram um pote, e ele se lambuzou inteiro.

Quem arrumou isso foi a Thaís, a esposa. Ela sentou e perguntou quanto ele ganhava. Ele falou. Ela perguntou como é que ele conseguia não ter nada. Ele falou que não sabia.

Ela pediu licença pra organizar a vida dele. A partir dali ele começou a ver dinheiro na conta.

Cara, eu admiro quem não pirou quando pegou a primeira grana. Mas é raro, e ele não foi um desses. A diferença é que ele assume.

Três nãos antes de um sim

Já que a gente tava falando de virada, eu puxei como é que a música chegou no rádio.

E a resposta é uma corrente de gente.

Primeiro o Lincoln, que é cavaquinista e que o Ferrugem considera o melhor do Brasil pelo jeito de tocar, uma coisa mais limpa e mais leve que mudou a batida do instrumento. Eles se conheceram gravando o disco de um grupo que nem vingou. O grupo acabou, e o Lincoln não deixou ele ir embora.

Aí o Lincoln tentou apresentar ele pro Sérgio, que era empresário. O Sérgio disse que não tinha tempo nem grana. Tentou de novo. Não de novo.

Na terceira, o Ferrugem é que não queria ir. Falou que não ia perder tempo com aquele cara. O Lincoln pediu por amor, ele pegou um ônibus e foi pro Rio.

Deu certo. A trinca tá junta até hoje, e depois entrou o investidor que bancou o disco.

E ele fez questão de dizer a parte que ninguém gosta de ouvir: talento é o carro-chefe, mas antes de tu ser alguém, tu precisa de um megafone. Sem alguém pondo dinheiro, a música boa fica tocando na sala de casa.

"Fazer o simples é o que é foda"

Agora o bloco que me pegou, porque eu não fazia ideia do trabalho que dá.

A obsessão dele é simplicidade. Acordes que qualquer banda consegue reproduzir. Música mais curta. Menos distância entre o começo e o refrão. Quando chega uma melodia torta dos compositores parceiros, o time senta pra desentortar.

Ele comparou com futebol e com roupa: o jogo do Ganso é simples e é bonito, e o cara de camisa branca e calça jeans tá bonito. Se é simples, tem que ser bem feito, senão vira só pobre.

E aí ele soltou a frase: fazer o simples é que é foda.

Porque a régua fica menor, saca? Se tu se esconde atrás do complicado, ninguém repara. No simples, o erro fica exposto.

Teve uma parada técnica que eu achei sensacional. O pagode é o gênero mais difícil de mixar que existe, e ele explicou por quê. Tantã é grave. Surdo é grave. Repique de anel é grave. Baixo é grave. A bateria tem três, quatro tambores graves mais o bumbo. É tudo empilhado na mesma faixa de frequência.

Ele bota 11 músicos no palco. Onze.

E tem uma hierarquia ali dentro: a banda faz o simples justamente pra ele poder deitar os cabelos por cima. No disco ele canta contido. No palco ele solta o aço, e é a banda segurando a onda que permite isso.

O elevador do Rock in Rio

Pra aliviar, uma das melhores histórias do papo.

Ele foi chamado pro Palco Sunset depois de já ter feito o Espaço Favela dois anos antes. E surtou. Porque no mesmo dia tinha nome grande no cartaz e ele ficou sem saber o que fazer pra segurar aquele público.

Montou o show, divulgou, chegou o dia. Ele e o sócio no camarim, os dois nervosos, a mão pingando.

E aí eles entram num elevador que sobe direto pro palco.

Ele contou que a vontade que deu foi de sair do elevador e deixar ele subir sozinho, pra não ter que ver a praça vazia. Era esse o medo. Subir e não ter ninguém.

Subiu. Tinha gente até onde a vista alcançava, com cartaz, com o nome dele, família inteira, e o Rock in Rio virado pro palco dele.

No dia seguinte ele acordou com as colunas de música dizendo que o melhor show da noite tinha sido o do pagodeiro.

Porra.

Ele chama esses momentos de beliscão. Cada degrau que sobe, a vida belisca e manda prestar atenção no que tá acontecendo. Eu achei bonito demais.

Ele chorou em vez de cantar

E aí veio o bloco dos ídolos, que é onde o cara desmonta.

O Péricles ia participar de um pagode do grupo em que ele tocava, e a rapaziada escondeu dele até uma semana antes justamente porque sabiam do tamanho da fanzice. Ele foi no shopping, comprou roupa nova, viveu seis dias de expectativa.

Quando chegou a hora, ele não conseguiu cantar direito. Chorou.

Hoje os dois têm uma turnê juntos. Tratam de igual pra igual, se desafiam no palco, um manda um agudo e o outro responde. Ele falou que a maior bênção que a música trouxe foi a amizade dos caras que ele idolatrava.

Teve o Roberto Carlos também, que ele jurava que era impossível. Cantou no navio dele, foi levado ao camarim, e o cara abriu a porta e elogiou o canto dele de cara.

E teve o Caetano Veloso, que topou fazer um especial de TV com uma condição: só se fosse com o Ferrugem. Botaram ele de volta na apresentação só pra aquele programa. Ele ainda passou uma madrugada no estúdio do cara pedindo música e ouvindo ele tocar.

Agora vem o que eu acho o mais bonito: em dezembro ele vai gravar uma homenagem à Alcione com ela presente, assistindo. Ela participou do primeiro disco dele, lá em 2015. Ele foi pessoalmente na casa dela fazer o convite, e a conversa não durou cinco minutos. Ela perguntou a roupa, o dia e a hora.

Homenagem com o homenageado vivo e na plateia. Deveria ser sempre assim.

O que eu levei desse papo

Anotei minhas coisinhas.

Levei a régua dele pra própria vida, que é a mesma da música. Ele falou que quer ser colocado sempre na caixa que cabe nele. Nem apertada demais, nem larga demais. Se tem 38, que seja visto como alguém de 38. Não quer levar nada além do que é dele.

Levei o lance do médico. Ele foi num cardiologista aos 33 e ouviu que a idade biológica dele era de 78 anos. Hoje treina e corre todo dia, sem exceção, e falou que se não fizer nem dorme.

E levei a melhor punchline do episódio, que ele soltou quase de passagem: o problema não é vacilar, é vacilar no mesmo vacilo. Se tu cagou num buraco, tampa. Faz outro buraco.

Cara, eu não tenho como melhorar isso. Tá bom do jeito que tá.

Se não servir pra tu na música, serve pro teu trabalho. E serve pro próximo vacilo.

O papo completo tá lá no canal:


Dá o like, comenta aí qual música de amor que deu errado tu canta mais alto no carro, compartilha e manda no grupo dos pagodeiros.

A gente se vê depois. Tchau.

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