Brasileiro foi um dos quatro escolhidos pela Rockstar Games para ver GTA VI rodando
Divulgação/Flow
Brasileiro foi um dos quatro escolhidos pela Rockstar Games para ver GTA VI rodando

Salve, família.

Deixa eu te perguntar uma coisa. Tu lembra de onde tu tava quando jogou GTA pela primeira vez? Eu lembro. E se tu é brasileiro e já pegou num controle, tu jogou, nem que tenha sido no PC do primo com código de tanque voando.

Pois é. Agora imagina o seguinte: a Rockstar, que é a empresa mais fechada que existe nesse mercado, resolve escolher quatro criadores no mundo inteiro pra ver o GTA 6 rodando antes de qualquer pessoa. Quatro. Nenhum americano.

E um deles é o Davy Jones, que sentou aqui na mesa do Flow.

O papo foi pra uns lugares que eu não esperava. Ele entrou na Rockstar pela garagem. Ele viu um desenvolvedor mexendo no jogo na frente dele, ao vivo. E ele voltou de lá com uma informação privilegiada que vazou na internet uma semana depois, e teve que decidir o que fazer com isso.

Eu jogo, mas eu não manjo porra nenhuma do mercado. Então meu papel foi puxar o fio. Bora.

Ele foi pra Paris só pra despistar

O bagulho começou com uma ligação no meio de uma live.

Ele tava assistindo um jogo, o cara da Rockstar no Brasil pede pra ligar, ele sai da live e atende na garagem. Convite feito. E era no meio da Copa, que é o pior momento possível pra sumir uma semana.

Aí tem um detalhe que eu achei o máximo. Ele assinou o tal do NDA antes de saber do que se tratava. No escuro, porque quando alguém te manda um contrato de sigilo, tu já sabe que vem informação boa por aí.

E olha o tamanho da paranoia. Ele não podia ir direto pra Escócia, porque se alguém tirasse foto dele num aeroporto indo pra lá, fechava a conta. Então o voo foi pra Paris primeiro. Em Paris ele encontrou um brasileiro, tirou foto, e o cara só foi entender o que tava rolando meses depois.

Ele contou que aeroporto é onde ele mais é reconhecido. São 20, 30 fotos do check-in até o portão.

E lá na Rockstar ele achou que ia entrar pela porta da frente, aquela que tá em toda foto da internet. Não entrou. Entrou pelo subsolo, pela garagem, porque tem gente que fica camperando na calçada esperando pra fotografar quem entra.

Ele viu aquela porta famosa. Por dentro.


Lá dentro não tem museu nenhum

Agora a parte que quebra a fantasia, e eu adorei.

Tu pensa num estúdio de videogame e imagina o quê? Ele mesmo contou que já foi na NetherRealm, do Mortal Kombat, e lá tem praticamente um museu, porque aquele estúdio foi feito pra receber visita.

A Rockstar não recebe ninguém. Então lá dentro é um hall gigantesco e vazio, uma mesa de recepção, o logo, e do resto é estação de trabalho até onde a vista alcança, tudo com divisória. A prateleirinha de colecionáveis é menor que a estante do nosso estúdio. E tem um R em neon rosa, por causa do GTA 6.

Ele nem viu direito a galera que faz o jogo.

E teve uma cena que eu não tiro da cabeça: ele foi no banheiro e cruzou com um desenvolvedor no corredor. Um cara normal. O cara olhou pra ele com uma cara de quem tava perguntando por que que tinha um estranho ali dentro.

Porque nunca teve mesmo, né.

Só que o que me pegou mesmo foi outra coisa. Ele falou que os caras ficaram emocionados de verdade vendo a reação dele. Tu trabalha num negócio por mais de dez anos, ninguém de fora nunca viu, tu não sabe mais se aquilo é bom ou ruim. Aí chega um brasileiro e reage.

Eles ficaram bobos. Isso diz muito sobre por que o jogo deles é o que é.

O cara tava ajustando o jogo na frente dele

E aí vem a parte mais insana do papo inteiro, na minha opinião.

Não era um vídeo pronto. Tinha um cara jogando ao vivo. E no meio da sessão ele começou uma perseguição com a polícia, ficou ali brigando um tempão, e virou pra alguém da equipe técnica pra falar que tava fácil demais e que precisava aumentar a dificuldade.

Aí o outro respondeu que na semana passada tava difícil demais.

Tu sacou? Um jogo colossal desse tamanho, e o cara tá calibrando o nível da polícia na frente de um visitante, tipo chef provando o molho no meio do almoço.

Teve mais. Num outro momento o cara olhou pra tela e falou que a distância entre dois botões do comando tava antiintuitiva, e que ia mudar a posição do prompt. Ali, na hora.

E tem as decisões que vieram da galera. Abrir o mapa no touchpad do PlayStation, porque eles viram que as pessoas ficam nervosas quando isso não existe. Correr no L3 em vez do X, que é o padrão da indústria e que o GTA nunca seguiu. Voltaram mecânicas de San Andreas que o público pedia há anos, tipo treinar habilidade.

Isso tudo pra um jogo que, segundo ele, já tava tão polido que qualquer outra empresa teria dito que estava pronto. Ele viu em julho. Ele até se enrolou na data na mesa, falou junho, foi conferir a passagem e era julho mesmo, 7 de julho.

Os vazamentos e o que ele decidiu não falar

Já que a gente tava falando de sigilo, eu apertei ele nessa.

Uma semana antes do trailer sair, começou aquela onda de vazamento com gameplay e tudo. E um portal cravou o evento em que ele esteve, com a descrição completa do que aconteceu na sala. Só não sabia quem tinha ido.

Imagina o frio na barriga.

E aí veio o dilema. Vazou que dava pra abastecer o carro no jogo. Isso ele tinha visto lá dentro. Era informação que ele tinha e não podia dar.

Ele falou que na cabeça dele não dava pra tocar naquilo, mesmo com o mundo inteiro já tendo visto. Ele duvida que a Rockstar fosse perturbar, ninguém pediu nada, mas ele trabalha com isso há mais de uma década e não fura embargo. Falou que é sacanagem, e ponto.

Cara, isso é caráter. Num mercado em que furar notícia vale view, o cara segurou uma parada que já tava pública.

A Rockstar já pagou o GTA 6 antes de lançar

Bom, e aí vem a parte de dinheiro, que é onde a coisa fica surreal.

O GTA V, um jogo de 2013, continua vendendo mais de 5 milhões de cópias por trimestre. Por trimestre. Dá coisa de 20, 25 milhões por ano, todo ano, mais de uma década depois.

E o GTA Online, segundo o que vazou ano passado, faz algo entre 500 e 800 milhões de dólares por ano.

Então a conta que ele fez na mesa é essa: fala-se que o GTA 6 custou uns 2 bilhões, e a Rockstar já pagou esse jogo com o online do jogo anterior. Ela tá confortável pra fazer o que quiser.

E olha que loucura: não existe absolutamente nada anunciado sobre o GTA 6 Online. Nada. Ele perguntou lá e a resposta foi que estão focados em fazer um single player. Numa empresa que sabe que o online dá quase um bilhão por ano.

Ah, e o extended look que foi parar na Netflix fez 31 milhões de visualizações na primeira semana, pela contagem da própria Netflix, que é bem mais dura que a do YouTube. Primeiro lugar em mais de 80 países.

Um trailer de videogame. Na Netflix. Em primeiro lugar.

"A indústria tá uma merda e o problema é o dinheiro infinito"

Essa foi a frase dele, e ele explicou de um jeito que eu levei pra vida.

A tese é essa: as empresas viram que Fortnite, FIFA e Minecraft fazem bilhões e saíram correndo atrás disso. Só que esses jogos não foram feitos pra ser isso. Eles ficaram assim. Ninguém consegue copiar.

Aí o cara gasta 200 milhões num jogo ruim e cobra mais caro por ele.

Mas ele também mostrou o outro lado, e essa parte me deixou com esperança. A Capcom passou anos apanhando por tentar agradar o mercado ocidental e se reergueu fazendo jogo bom, a ponto de lançar uma franquia nova e o público comprar só pela confiança. A Nintendo faz jogo com custo muito abaixo do resto do mercado e entrega polido.

E teve a que mais me impressionou. A CD Projekt anunciou um remaster de um dos maiores jogos da história, e vai dar de graça pra todo mundo que já tem o jogo. São 65 milhões de pessoas. As duas expansões junto.

Eles podiam cobrar. Vagabundo pagaria. Não vão cobrar.

Faz sentido, saca? Videogame bom não sai de planilha. Sai de gente apaixonada fazendo uma parada que ninguém pediu.

A síndrome de Estocolmo com o Pokémon

Pra fechar, a parte humana, que é onde eu descobri que o cara não é da Rockstar coisa nenhuma.

Todo mundo acha que o Davy é o cara do GTA. Ele é muito mais do Pokémon.

E ele foi honesto de um jeito raro: falou que fã de Pokémon vive uma síndrome de Estocolmo. Aceita qualquer coisa que mandarem. E aceitar não é a mesma coisa que achar bom. A última geração, segundo ele, saiu injogável, e vendeu uns 30 milhões assim mesmo.

Aí tu pergunta por que ele continua. Cara, ele casou com uma pessoa tão doente de Pokémon quanto ele. A casa é Pokémon pra todo lado. Tem estátua, tem os Legos que eles montam juntos, e um Pikachu que levou 10 horas pra ficar de pé. Tem um pinball, que ele fez questão de avisar que é difícil pra caralho, porque tem missão e evolução e só cinco vidas.

Ele foi no Japão, entrou na Pokémon Center e se controlou. Comprou quase nada. Diz ele.

E aí ele resumiu a relação de um jeito que serve pra qualquer coisa que a gente ama: se o jogo veio ruim, tudo bem, tem as cartas, tem o pinball, tem o resto. Se te faz sofrer, aí o problema é outro. Ele não tá sofrendo.

O que eu levei desse papo

Anotei minhas coisinhas, como sempre.

Levei a cena do desenvolvedor calibrando a polícia ao vivo, porque é a prova de que nada grande fica pronto de uma vez. É ajuste em cima de ajuste até o dia de mandar.

Levei que o cara segurou uma informação que já era pública só porque tinha dado a palavra. Isso hoje vale mais do que parece.

E levei o contraste: uma empresa que ganha quase um bilhão por ano com o online e diz que tá focada em fazer um jogo pra uma pessoa jogar sozinha, com o mercado inteiro correndo pro lado oposto.

Se não servir pra tu no videogame, serve pro teu trabalho. Tem o caminho do dinheiro rápido e tem o de fazer a parada direito. O segundo demora mais e paga melhor.

O papo completo tá lá no canal:


Dá o like, comenta aí onde tu tava quando jogou GTA pela primeira vez, compartilha e manda no grupo dos teus amigos que já estão contando os dias.

A gente se vê depois. Tchau.

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