Douglas Viegas, o Poderosíssimo Ninja, durante participação no Flow, em que falou sobre sua trajetória, esporte, política e a transformação pessoal
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Douglas Viegas, o Poderosíssimo Ninja, durante participação no Flow, em que falou sobre sua trajetória, esporte, política e a transformação pessoal

Fala, galera. Salve, família.

Tu já tava rolando o feed de madrugada e parou naquele vídeo de um careca de voz grossa mandando tu largar de ser otário? Pois é. Esse cara sentou de novo aqui na mesa do Flow . Douglas Viegas, o Poderosíssimo Ninja, ex-jogador de basquete, hoje metido no meio da política, e um dos poucos convidados que já veio aqui uma penca de vezes e nunca repetiu papo.

E esse aqui foi denso. Teve filosofia de vida resumida em três palavras, teve meio bilhão de reais que quase sumiu do esporte brasileiro, teve o método de leitura que ele faz todo santo dia há sete anos, e teve uma galinha chamada Faca que mora na casa dele e caga a sala inteira sem pedir licença.


Vou te falar: eu não sou o cara mais fácil do mundo de convencer com papo de fé. Eu escuto, eu absorvo, mas eu venho de um lugar meio cético. Só que quando o cara senta na tua frente e conta a história dele sem tentar te vender nada, o bagulho pega diferente. Bora.

"Não seja um cuzão": a filosofia que abriu o papo

O papo começou pelo mais simples e acabou sendo o que amarrou tudo. O Ninja falou de uma frase que ele aprendeu com o pai americano, o cara que abriu a casa pra ele morar lá nos Estados Unidos quando ele era um moleque atrás de basquete: live and let live. Viva e deixa viver.

E aí eu falei pra ele a minha versão, que é mais suja: não seja um cuzão. Se tu não tá ali pra atrapalhar de propósito a experiência dos outros, tu já ganhou metade do jogo.

Ele riu e completou: a mensagem é a mesma, só muda a língua pra alcançar tribo diferente. Jesus chamou de ame o próximo. O pai americano chamou de live and let live . A gente aqui chama de não seja um cuzão.

Tá. Mas aí eu apertei. Porque é fácil viver e deixar viver quando todo mundo tá de boa. E quando o cara é um filha da puta escancarado e tá atrapalhando o rolê de todo mundo?

A resposta dele foi seca: quem tá atrapalhando o rolê já não tá vivendo e deixando viver, então esse aí precisa de um empurrãozinho de volta. Senão a pessoa monta em ti e faz o que quiser.

Faz sentido, saca?

O cara não tava procurando nada. E foi aí que virou

Essa parte é a que mais me pegou, e olha que eu converso com gente foda todo dia.

Todo mundo acha que quem muda de vida tava desesperado atrás de uma saída. O Ninja jura que não. Ele conta que não tava procurando porra nenhuma. Nunca falou "preciso parar de beber", nunca falou "preciso achar Deus".

Pelo contrário: ele diz que tinha amor verdadeiro pela loucura, que tava achando tudo lindo, porque era só o que ele conhecia.

Aí um amigo antigo da família, o Vicente, ensinou ele a fazer uma leitura. Não deu sermão, não convidou pra igreja, não pediu nada. Só ensinou o método.

E o método é ridículo de simples, isso que é o insano. Ele pega o Novo Testamento, começa em Mateus, lê de um subtítulo em negrito até o próximo negrito, marca a página e vai tocar a vida. Só isso.

Um pedaço por dia. Quando chega em Judas, volta pro começo e recomeça. Ele diz que faz isso há sete anos sem falhar um dia sequer e que já tá na nona virada.

O que tu tá falando então é que o barato não é intensidade, é frequência. E ele mesmo traduziu com uma analogia que eu anotei na hora: funciona igual juros compostos. Tu deposita um pouquinho todo dia, parece que não tá acontecendo nada, e um dia a curva vira e fica absurda.

Ele faz questão de repetir umas dez vezes que aquilo não tem nada a ver com religião, que ele respeita crença e descrença de todo mundo, e que não tá ali pra converter ninguém. As palavras dele: "quer continuar se ferrando, fica à vontade, a vida é tua".

Eu gostei disso. Porque tem uma diferença gigante entre o cara que te empurra a fé goela abaixo e o cara que só senta e mostra o antes e o depois.

De "não tinha 50 conto" a Brasília

O antes ele conta sem maquiar nada. Sete anos atrás, segundo ele, era um cara endividado até o talo, sem R$ 50 no bolso, que ele mesmo define como a vergonha da família. Radioativo, tóxico, perigoso de chegar perto. As palavras são dele, não são minhas.

Quatro anos depois desse ponto ele tava sentado numa cadeira da Câmara dos Deputados .

Só que aqui vale o contexto real, porque a história é mais dura do que parece de fora. Ele foi o mais votado que não elegeu em 2022 , ficou como suplente pelo União Brasil de São Paulo, e só assumiu porque o titular saiu pra ocupar uma secretaria em São Paulo . Ou seja: entrou, saiu, voltou, saiu de novo, conforme o titular ia e vinha.

E ser suplente, segundo ele, é ser o primeiro otário da fila. Tu tá na foto, tu tá com o crachá e tu não tem emenda, não tem verba, não tem gabinete próprio, não tem nada. Tu tá lá pra ser xingado.

Ele encara isso como treino. A frase que ele soltou foi essa: entrei sem nada, sem saber nada, pra ver o que eu conseguia fazer sem nada.

"Gente ocupada não tem tempo de fazer besteira"

Aí o papo foi pro bloco cabeçudo, e esse é o motivo real de ele estar na política.

A tese dele é uma só: esporte é segurança pública de forma preventiva. Não é lazer, não é hobby de fim de semana, é ferramenta de educação. E ele fala isso do lugar de quem viveu: enquanto ele tava treinando pra virar jogador, ninguém conseguia oferecer nada pra ele na rua, porque no dia seguinte tinha treino. O esporte era o único ponto intocável da rotina de um moleque que tinha loucura de todo tipo acontecendo em volta.

Daí vem a parte prática, que é onde a coisa fica técnica. Vou traduzir pro nosso lado da mesa.

Existe uma PEC de autoria dele, a PEC 44 de 2024, que quer obrigar que 3% das emendas parlamentares individuais vão pro esporte . Emenda parlamentar, pra quem não acompanha, é aquele dinheiro que cada deputado e cada senador tem pra destinar. É teu dinheiro, na mão deles.

A PEC teve a admissibilidade aprovada na CCJ e agora depende de o presidente da Câmara  instalar a comissão especial pra seguir. Enquanto isso não rola, tá tudo parado.

E tem o outro lado da história, que é o dinheiro das bets. Parte do que as casas de aposta arrecadam já é destinada ao esporte, e a PEC da Segurança Pública previa puxar esse recurso pra financiar segurança. O Ninja gravou esse episódio no meio dessa briga, alertando que o esporte ia perder cerca de meio bilhão.

Atualização: depois da gravação, o relator no Senado retirou esse trecho e a CCJ aprovou o texto sem o corte, com o Comitê Olímpico do Brasil comemorando publicamente a manutenção da verba. Ou seja: o cenário que ele descreveu no papo mudou de figura em cima da hora.

A frase que ele repete e que resume tudo: gente ocupada não tem tempo de fazer besteira.

Eu concordo pra caralho. Só que eu apertei ele num ponto, porque é onde eu não consigo ser otimista: isso que ele tá propondo não é resultado de cinco anos. É de trinta, cinquenta.

E o nosso sistema não é feito pra isso. Aqui eleição virou concurso de popularidade, e todas as decisões dos caras são tomadas pra servir pesquisa. O cara não vai num debate presidencial pra servir pesquisa. E tem uma legião de otário que engole.

Ele não discordou. Só devolveu com outra pergunta: se a gente não fizer, quem vai fazer?

A galinha Faca, que não respeita nada

Preciso te contar essa porque foi o momento em que a mesa inteira riu.

A mulher dele começou a falar em casa que queria uma galinha. Sem quintal, sem espaço, sem nada. Um dia um rapaz foi fazer um serviço lá, esbarrou e quebrou uma galinha de cerâmica de enfeite. No dia seguinte o cara voltou com uma galinha de verdade, viva, debaixo do braço, pedindo desculpa.

Sete anos depois a Faca tá lá, mandando na casa, ignorando dois jack russel e uma gata, cagando em todo lugar sem dó. Ele fala que nunca foi tão prazeroso limpar cocô. Agora tem uma segunda, a Filomena, que é uma galinha sedosa. Eu nem sabia que existia galinha sedosa, mano.

E foi dessa besteira que saiu a parte séria do papo. Eu perguntei pra ele como ele acha que vai se sentir quando esses bichos forem embora, porque essa discussão rola lá em casa e a minha esposa me sacaneia dizendo que eu falo que não tenho ligação emocional com os nossos e depois ela me flagra brincando com eles.

A resposta dele foi a coisa mais direta do episódio. Ele disse que apagou a palavra preocupação do vocabulário. Que preocupação e medo são falta de fé.

E que justamente por ter noção da finitude da vida ele não deixa mais passar batido uma gracinha da filha ou da mulher no fim do dia, mesmo chegando em casa detonado.

Porra. Isso me pegou. Meus pais moram no Rio e faz tempo que eu não vejo eles pessoalmente. Tem coisa que a gente adia achando que tem prazo.

O que eu levei desse papo

Teve uma hora que eu falei pra ele qual é, pra mim, a maior virada que um cara pode ter na vida. Não é ficar mais inteligente. É começar a se perguntar "e se eu tiver errado?" com honestidade, mesmo tendo certeza de que tá certo. Porque no segundo em que tu percebe que pode estar falando merda num assunto, tu percebe que pode estar falando merda em vários.

Ele ouviu e devolveu o nome disso: maturidade.

E é isso mesmo. O papo inteiro girou em torno da mesma coisa por caminhos diferentes. Consistência acima de intensidade. Um pouco todo dia. Juros compostos aplicados em leitura, em treino, em ser um marido melhor, em qualquer porra que tu queira construir.

No fim das contas, o que ele tá vendendo não é fé. É que tu para de esperar o dia mágico.

A parte da política, pra ficar claro

Pra não ter dúvida: ele encerrou o papo pedindo voto. Falou o número, 2034, falou a data, 4 de outubro, e listou as bandeiras dele, que são esporte, corte de gasto público e redução de imposto, com exceção de bet.


Aqui é a pauta dele, não é a minha nem a tua. O Flow abre a mesa, tu escuta e decide sozinho. Sempre foi assim.

Fecha aí

Cara, eu anotei um monte nesse episódio. Sério.

E o mais foda é que quase nada do que eu anotei tem a ver com política. Tem a ver com o cara que ele era sete anos atrás e o cara que tava sentado ali na minha frente. Se serviu pra mim, que eu tenho um estúdio, uma equipe e uma vida completamente diferente da dele, serve pra tu também no que tu tá construindo aí.

Quer ouvir o papo inteiro, com tudo que ficou de fora aqui? Corre lá .

Dá o like, comenta aí o que tu achou, e manda esse episódio pra quem tá precisando ouvir. Manda no grupo da igreja, manda no grupo do futebol, manda no grupo da facul, manda no grupo dos petista e no dos bolsonarista também. Onde tu sentir que a galera precisa, manda.

A gente se vê depois.

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