
Fala, galera.
Se tu já pisou numa academia no Brasil nos últimos dez anos, tu já ouviu alguém do lado do supino soltando um "o Cariani falou que...". Pode ser sobre whey, sobre cárdio, sobre quantas vezes tu tem que comer. Não importa. Alguém ali tá repetindo o tiozão.
Pois é. O tiozão sentou aqui na mesa do Flow. E já chegou chamando o pai e a mãe pra verem ele no programa... pra dois segundos depois lembrar que os dois já morreram. Começou assim. Clima leve.
Só que o papo foi pra lugares pesados. O Ramon acabou de perder o Mister Olympia e o Cariani tem uma teoria sobre isso que eu não tinha visto ninguém falar. Tem uma história de insulina com Coca Zero que eu não tiro mais da cabeça. E tem o motivo de um cara que chegou a 117 kg de músculo seco ter decidido ficar menor.
Ah, e pra constar: eu sou o cara que, na primeira vez que conversou com ele, chamou fisiculturismo de "alterofidismo". Ele lembrou disso ao vivo. Então tu já sabe quem foi o aluno aqui.
Ele ajudou a popularizar o fisiculturismo e esqueceu de avisar que o esporte é perigoso
A primeira coisa que o Cariani trouxe foi número. Em 2023, ele e o Júlio comentando o Olympia no sofá, sem poder mostrar imagem: 530 mil pessoas ao vivo. Esse ano, com transmissão liberada, o pico foi 126 mil.
Ó como foi caindo.
Aí eu perguntei o óbvio: se o wellness nunca esteve tão bem, por que o fisiculturismo tá perdendo gente? E ele fez uma coisa que eu respeito pra caralho. Assumiu a parte dele.
Segundo o Cariani, ele e outros influenciadores contaram a história do esporte pro público geral, só que esqueceram de dizer que é perigoso. Ele comparou com paraquedismo: imagina popularizar isso e todo mundo começar a pular sem estrutura. Quantos não iam morrer? E no Brasil, nas palavras dele, os atletas ainda abrem a caixa de Pandora do que usam e acham bonito.
Tem mais. Ele parou de fazer conteúdo de fisiculturismo em 2023, na época dos projetos com a gente, e virou a chave pro fitness. E eu falei na cara dele: do meio maromba, tu e o Júlio são quem movimenta a parada. Se vocês param de falar, o assunto perde força.
E teve a morte do Gabriel Ganley, que tinha um público de moleque de 12 a 18 anos. Deu Fantástico, deu Jornal Nacional. E a mãe em casa olhou e decidiu: academia pode, competir esquece.
Aí eu apertei. Tá morrendo mais atleta ou a gente só tá vendo mais? Ele disse que tá morrendo mais porque tem mais gente competindo. Eu insisti: com tanta informação, não era pra ter mais cuidado? Ele admitiu que tem, bem mais que na geração old school dele. O problema é doença cardíaca escondida, que costuma ser silenciosa.
É tipo lançar um jogo no modo mais difícil e não avisar o jogador que não tem checkpoint.
A Coca Zero que custou uma vida
Aí eu perguntei o que ele não deixava de fazer quando competia, pra não morrer. Veio uma aula de insulina.
O bagulho é o seguinte. Insulina é o hormônio que tira o excesso de açúcar do sangue, e é dos mais anabólicos que existem. Só que o corpo não é matemática.
O Cariani começou falando em 90% e se corrigiu na hora, ficou nos 70: segundo ele, é essa a fatia dos atletas que morrem cedo por doping que morrem por insulina ou por diurético. Não por testosterona.
E como é que alguém morre de insulina? Falta glicose, o cérebro começa a apagar. Ele descreveu três fases. Primeiro a boca e a língua dormentes, um tremorzinho. Depois suor de sauna e tremedeira. Depois o cara cai e convulsiona. O Júlio, contou ele, já salvou um atleta num hotel nessa terceira fase, enfiando açúcar na boca do cara que nem engolia mais.
Aí veio a história. Um atleta sozinho em casa entrou em hipoglicemia, ligou pro coach, e o coach mandou tomar Coca de uma vez. O cara tomou Coca Zero.
Pra não quebrar a dieta.
Morreu.
Puta que pariu.
E o diurético não fica atrás: ele contou de uma atleta que morreu no backstage, minutos antes de subir no palco, de desidratação severa.
O que tu tá falando então é que o que mata não é o que parece mais perigoso. É o que parece inofensivo.
Fui eu que pedi pra mudar de assunto. Tinha virado bad trip.
Um britânico que ninguém levava a sério tirou o título do Ramon
Na Classic, a briga esperada era Ramon contra o alemão Mike Sommerfeld. Aí apareceu o britânico Niall Darwen e estragou a festa de todo mundo.
O mais louco: ano passado, fora do pódio, o cara disse numa entrevista que ia voltar campeão. A galera zoou. Ele voltou campeão. E o Sommerfeld virou vice pela terceira vez seguida. Deve estar de saco cheio.
E o Ramon ficou em terceiro. Justo? O Cariani ligou pro treinador do Ramon, e a resposta foi que sim.
Agora a teoria dele. O Bumstead saiu, e a liga perdeu um embaixador com milhões de seguidores. O Cariani defende que o Ramon é o representante perfeito, carismático e no shape o ano inteiro, mas que ainda não fala inglês. E pra ele isso pode incomodar quem decide. Eu, ex-professor de inglês, achei a teoria interessante e meio cruel ao mesmo tempo. Fica no colo dele.
Teve gente no chat perguntando se o Ramon posou com preguiça. O Cariani foi firme: preguiça, não. No dia do campeonato o atleta tá no pior estado da vida, desidratado, dormindo mal, acordando às cinco pra pintar. As poses não encaixaram.
E ele soltou uma que eu ri alto: na sexta, tinha 100 mil pessoas às três da manhã vendo homem de sunga pintado e passado no óleo. Vai explicar isso pra mulher em casa.
O campeão subiu com uma camiseta xingando o apresentador
Na Open, dança das cadeiras também. E eu descobri ali uma parada que nunca tinha entendido: são dois julgamentos, sexta e sábado, com notas separadas. Nove árbitros, corta as duas maiores e as duas menores, soma as do meio. E quem tem a MENOR nota ganha.
Tipo golfe, mano.
O Nick Walker foi bem na sexta e melhor no sábado. Primeiro título dele. E o Cariani contou o bastidor: o apresentador do evento, Bob Cicherillo, tinha dito num podcast que o Walker nunca seria Mister Olympia. O Walker apareceu no meet and greet com uma camiseta perguntando quem diabos era Bob Cicherillo. E adivinha quem teve que anunciar o campeão?
O Bob. Com a voz meio murcha. E o Walker chamou ele pro abraço.
Ele chegou a 117 kg de músculo seco e resolveu que queria viver mais
O Cariani tá diferente. Cabelo maior, corpo menor. E eu perguntei: pra quem passou a vida inteira precisando ser o maior, como é aceitar que o outro é maior?
Ele falou de vigorexia, que é achar que tu tá sempre pequeno. E quanto maior tu fica, sempre vai ter alguém maior.
Chegou a pesar 117 kg seco. Pra ele, esteroide em dose alta envelhece. E sobrepeso é sobrepeso: músculo ou gordura, o coração tem que mandar sangue pra 117 kg.
Aí ele puxou da mochila o troféu de campeão overall de um campeonato nos Estados Unidos, de 2019, e falou a frase que virou título dessa matéria: não tenho mais nada pra provar pra ninguém.
Hoje são 94 kg, com 1,79. Cárdio intenso, treino que não estoura articulação. A última competição foi em 2022, com 46 anos. E a dor na perna que fazia ele descer escada torto sumiu só mudando o treino.
Eu falei pra ele: tua decisão não foi "quero ser menor". Foi "quero viver mais". E ele devolveu uma que eu anotei: quem não sabe a hora de mudar o rumo do barco pode ver o barco afundar.
Academia de quatro pau e meio, e ninguém lá dentro tem shape
Já que a gente tava falando de treino, fui nas academias. A CTRC tem duas funcionando, em Minas e São Paulo, e segundo ele umas 27 entre obra e contrato. Incluindo Itália e Lisboa.
Itália, tiozão. Tu não fala nem inglês.
Ele riu, explicou que lá tem sócio operador, e contou que na Itália não adianta sala de spinning: italiano vê bicicleta como transporte.
Aí ele desmontou a academia boutique. Segundo o Cariani, quem paga uns 4.500 por mês paga por network, é o vendedor de Porsche treinando do lado do possível cliente. E treinar que é bom, nada: ninguém com shape lá dentro, nas palavras dele.
E teve a treta das máquinas. Ele disse que máquina bonita perde em biomecânica pra máquina antiga e feia. Eu apertei: tá, mas pra iniciante essa máquina boa vai precisar de alguém do lado, não? Ele: depende, mas precisa de um bom professor de sala. Eu tinha sentido isso no CT dele. Sentei numa daquelas e pensei: se eu fizer errado aqui, eu me machuco.
A caneta tá assustando a indústria do salgadinho
Pro Cariani, o Mounjaro tá mudando o jeito que o mundo come, e é a primeira vez que a indústria farmacêutica cria um remédio que melhora a saúde de verdade.
Mas ele deu o alerta. A caneta pode criar outra doença: falta de músculo. Tem gente que chega nele orgulhosa de ter comido uma maçã o dia inteiro. Tá errado, segundo ele. Sem proteína e sem treino, o corpo come o músculo junto.
E ele soltou uma sobre inteligência artificial que eu adorei. Ele manda contrato pro ChatGPT, pro Claude e pro Gemini antes dos advogados. Mas avisa: a IA é igual médico, não sabe dizer "não sei". E tu sabe quando o médico não sabe o que tu tem.
É virose.
Eu corri 5 km em 32 minutos e 50 e vou contar como vitória
No fim, o Cariani virou o jogo e me entrevistou.
A corrida foi em 32min50. Treinei uns três meses, mal treinado, e na real Deus me ajudou mais do que eu mesmo. Perto do fim eu quis relaxar e o Gláucio, meu treinador, não deixou. Muito de cabeça, no fim das contas.
E o Cariani lembrou do Igor de 2023, soltando fumaça de vape na cara deles na academia. Esse cara não existe mais. Tenho 41, fico murcho mais rápido, mas gordão eu não fico. Tem pra onde melhorar. Mas podia ser pior, então não briga comigo.
Tem hora que o barco precisa virar
Cara, anotei um monte. E a que mais ficou foi a do barco. Tu não precisa ter pesado 117 kg pra entender. Serve pra carreira, pra empresa, serve pra mim aqui no Flow. Tem hora que o que te trouxe até aqui é o que vai te afundar se tu insistir.
O papo completo tá lá no canal:
Dá o like e responde a pergunta que o próprio Cariani jogou pro chat: fisiculturismo é esporte ou é concurso? Comenta aí. E manda pro teu amigo que tá tomando Coca Zero achando que tá abafando.
Obrigado pela moral, tiozão.
A gente se vê depois. Beijo.
