
Salve, família.
Tu acordou na segunda-feira depois da eleição e o grupo da família tava pegando fogo, né? Metade comemorando, metade procurando culpado, e o teu tio mandando print de urna às sete da manhã. Pois é. Aqui não foi diferente.
Só que eu tinha um motivo a mais pra querer conversar. Na quinta anterior, a noite em que a Globo ia fazer o debate presidencial, quem tava sentado comigo era o presidente da República. E desde então metade da internet resolveu me dizer como eu deveria ter feito aquela entrevista.
Então chamei o Felipe Moura Brasil, meu parceiro de Flow News, numa mesa diferente da de sempre (a gente é multiformatos, chique, hein). O papo foi pro resultado do primeiro turno, pro debate que morreu uma hora antes de começar, pro STF com um Senado novo na porta… e pra uma pergunta do chat que eu respondi sem enrolar.
Bora.
“É muito mais uma derrota do PT do que uma vitória do Flávio”
O resultado, pra quem tava em Marte: Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente, com uns 47% dos votos válidos, e Lula ficou uns dois pontos atrás. Segundo turno marcado pro dia 25.
A leitura do Felipe é essa, e ela é dele: o Lula se desgastou sozinho. Ele listou insegurança nas metrópoles, a crise do STF estourando bem no meio da campanha e um monte de medida que ele chamou de eleitoreira nas últimas semanas. Pro Felipe, a campanha do Flávio fez só uma coisa, e fez bem: martelar que o Lula não podia indicar mais quatro ministros do Supremo.
E ele não aliviou pro outro lado. O Felipe lembrou quem o Flávio ajudou a botar no STF e o histórico de investigações que pesa sobre ele. A frase dele foi mais ou menos assim: o eleitor votou no Flávio pra tirar o PT, não porque admira o Flávio.
Aí eu fiz a pergunta que eu queria fazer: o Lula não devia ter se posicionado com mais clareza sobre o que tá rolando no Supremo? Ficar calado é conivência.
O Felipe foi mais duro do que eu. Na opinião dele, é pior do que ficar calado, porque o Lula ajudou a montar o Supremo que tá aí. Ele citou as indicações do advogado pessoal e de um ministro do próprio governo.
É o Felipe falando, deixa eu ser claro. Mas ele defende isso há anos, toda terça, na minha frente.
O debate que morreu uma hora antes de começar
Tu lembra da sequência? Eu lembro, porque eu tava no meio dela.
O Lula avisou que não ia. A ministra Estela Aranha, do TSE, mandou tirar o púlpito vazio dele do palco e proibiu os outros de fazerem pergunta pro ausente. O Flávio chamou aquilo de censura. Aí o Gilmar Mendes mandou incluir o Renan Santos no lugar do Lula. O Flávio desistiu. E a Globo cancelou tudo menos de uma hora antes de ir ao ar.
Eu cheguei pro meu compromisso às quatro da tarde e o programa só começou quinze pras nove. Passei o dia inteiro vendo a equipe ligar um pro outro: e aí, vai ter, não vai ter, quem entrou, quem saiu? Uma novela.
A análise do Felipe tem duas partes. Na primeira, ele critica as decisões, chama de interferência e acha a do TSE uma frescura. Na segunda, ele separa as coisas: nenhuma das duas decisões impedia o Flávio de ir lá e meter o pau no Lula, no governo e nos próprios juízes. Pra ele, o motivo real da desistência foi o Renan. Mesma coisa no debate da Band, segundo ele.
E o Lula? O Felipe acha que ele errou feio na estratégia. O cara faz debate desde 1989 e abriu mão de mostrar experiência contra um adversário que, nas palavras do Felipe, nunca teve.
Ele ainda lembrou uma imagem que o Caiado usou meses atrás. O PT estaria cuidando do Flávio igual peru de Natal: engorda no primeiro turno pra servir no segundo. Só que aí o peru chegou na ceia dois pontos na frente.
“Se tu puxar forte demais, tu perde o peixe”
Aí veio a pergunta do chat. O Rafael Júlio mandou: falar com o Lula no mesmo horário do debate não acabou reforçando a estratégia dele?
O Felipe riu e falou que essa era comigo.
Então vou repetir aqui o que eu disse lá. A gente construiu o ano inteiro pra isso. O Flow fala de política desde 2019, recebeu candidato a prefeito de São Paulo em 2020, fez debate. Tava todo mundo convidado. Quando o presidente da República topa vir, eu não vou dizer não. E o vazamento de que ele faltaria ao debate e viria aqui saiu na segunda anterior. Não fui eu que escolhi o horário da Globo.
Agora, o estilo. Eu não vou pular no pescoço de ninguém sentado nessa mesa. Nem de quem todo mundo sabe que eu não gosto. Eu falei com o Lula de Lulinha, de Banco Master, de STF, de Vorcaro. Toquei em tudo. E ele me disse, por exemplo, que tinha ligado três vezes pro Fachin por causa do impasse no Supremo. Tu pode acreditar ou não. Mas saiu.
É igual pescaria, tá ligado? Tu já jogou uma vara? Se tu der um tranco forte demais, a linha arrebenta e tu fica olhando pra água. Tem que ir dando linha, puxando, dando linha. Em 2022 fizeram a mesmíssima crítica quando o Bolsonaro sentou aqui.
E pro pessoal do outro lado: se a campanha do Flávio tivesse ligado na sexta, eu topava. A porta nunca fechou.
O Felipe não passou pano pra mim, e eu gostei disso. Ele disse que cada entrevistador tem um estilo, que o meu não é o da sabatina de jornalista político, e que muito veículo tradicional teria aceitado do mesmo jeito. Mas também disse, com todas as letras, que no meu lugar ele refletiria antes de aceitar.
E fez uma observação que eu acho que é a mais certeira de todas. Muita gente tinha medo de que o Lula falando à vontade convencesse o eleitor. O resultado mostrou o contrário: o espectador viu, julgou, e o Lula terminou atrás.
“Querem que eu seja o Flávio Dino do jornalismo”
Essa parte me pegou, porque eu vivo uma versão dela.
O Felipe contou que, em época de eleição, ele é cobrado o tempo todo pra declarar voto e usar a audiência dele pra puxar gente pra um lado. E ele resumiu assim: o cara que me pressiona quer que eu faça com a minha profissão o que, na leitura dele, o Flávio Dino faz com a dele. Que eu escolha o que noticiar pelo efeito eleitoral.
Ele usou uma imagem que eu já tinha ouvido dele no Flow News e continua boa. Chamam de “em cima do muro” quem mostra a sujeira dos dois lados. Só que quem faz isso tá é embaixo do muro, tomando tiro de todo mundo.
Aí veio o Adam Smith. Antes de escrever o livro que virou a bíblia do liberalismo, o cara escreveu um sobre sentimentos morais. E tem um trecho que o Felipe nunca esqueceu, sobre pouca gente conseguir manter o “discernimento livre do contágio geral” em tempo de briga de facção.
E cara, a conversa desaguou no futebol, como tinha que desaguar com dois flamenguistas na mesa. Eu falei: pode acabar o Flamengo que eu continuo Flamengo. O Felipe concordou e virou a chave: só que torcida pelo menos vaia quando o time joga mal. O fanático político tá abaixo do nível futebolístico.
Pensa nisso.
Senado com 28 do PL: o Supremo tá com medo?
O PL vai ter a maior bancada da Câmara, 121 deputados, e 28 senadores. Eu perguntei sem rodeio: os caras do STF devem estar com o cu na mão, né?
Preocupados, sim, segundo o Felipe. Mas ele acha que eles ainda contam com uma acomodação. A tese dele é que existe risco de um acordão entre bolsonarismo e o grupo do Alexandre de Moraes, e ele lembra episódios do passado pra sustentar isso. Pra ele, a única coisa que impede é pressão da sociedade, imprensa em cima e investigação andando.
Um detalhe que ele trouxe e que eu nem tinha na cabeça: o Moraes deve ser o próximo presidente do STF. O Felipe acha isso inaceitável diante de tudo que veio à tona.
Ah, e pra aliviar: a pergunta seguinte do chat veio assinada por um tal de “Rebola bem safadinho”, que mandou um “salve Guinho e Felipe”. Eu li em voz alta e o estúdio inteiro caiu na risada. Achei que tinha lido o nome errado. Não tinha.
O que eu levei desse papo
Cara, eu saí dessa conversa com uma frase do Felipe martelando na cabeça. Cidadão não é só quem vota. É quem vota e, no dia seguinte, cobra. Votou no fulano? Beleza. Cobra o fulano primeiro. Tu não é refém do teu voto por quatro anos só porque defendeu o cara no almoço de domingo.
E serviu pra mim também, porque a crítica sobre a entrevista com o Lula me fez pensar no meu papel. Eu sigo achando que o meu trabalho é abrir a mesa pra todo mundo e tocar em todos os assuntos. Mas é bom ter do lado um cara que discorda de mim na cara e explica por quê.
O papo completo tá lá no canal: https://www.youtube.com/watch?v=Wm2JVlqy2hE
Dá o like, comenta aí o que tu achou da eleição e manda no grupo da família que brigou no almoço de domingo. E segue o Felipe Moura Brasil no YouTube e no Instagram, o cara faz análise todo dia. Terça tem Flow News.
Obrigado pela moral, Felipe. A gente se vê depois. Beijo.
