
Salve, família.
Se tu tem filho, sobrinho, afilhado ou só uma tia no grupo da família, tu já viu esse vídeo. Um moleque sobe no palco, o apresentador pergunta qual é o talento dele, ele fala que vai dar um mortal e… pois é. Quase deu ruim. E a internet inteira parou pra assistir.
O cara que segurava o microfone naquela hora sentou aqui no Flow. Serginho Lacerda, o do show “Vida de Pai”. E veio com o Afonso Padilha, que tu conhece do Quatro Amigos ou daquele especial na Netflix sobre ser pobre.
Já aviso que o papo foi caótico. Teve show pra 3 mil professoras que estavam esperando outro comediante, um gato que acha que o dono é gaúcho e uma lista de famosos que negaram foto. Mas teve também uma história de mãe que me desmontou no meio da risada.
Eu, que tô longe de ser comediante, só tentei acompanhar. Bora.
O cara pesava 130 quilos e tinha “texto de gordão”
O Serginho chegou de bigode, e eu já falei na lata: tem cara de criminoso. Ele agradeceu o elogio.
E aí ele explicou o bigode. Foi tipo uma aceitação de quando ele era gordão. Gordão mesmo, 130 quilos, calça 50, daqueles que, nas palavras dele, tinham “texto de gordão” no palco. Porque comediante gordo faz piada de gordo. E quando emagrece, perde as piadas, porque não tem mais credibilidade.
Ele emagreceu na raça, dieta pesada, antes de existir remédio da moda. Hoje tá com uns 92.
O Afonso aproveitou pra soltar a teoria dele: com essas canetas emagrecedoras, os gordos vão acabar. Daqui a pouco vira fetiche. “Olha aquele gordo ali, não se vendeu pro sistema.” Eu ri igual um idiota.
Mas o que me pegou foi uma coisa que o Serginho disse. Gordo quase nunca emagrece por estética. Emagrece porque deu um susto na saúde. Eu sei bem. Eu também já estive lá em cima, com o fígado pedindo socorro, e foi isso que me botou na academia.
“Qual é o seu talento?”: o show que virou Tinder de criança
Aí entra a virada de chave do Serginho, e ela é bonita.
Ele levou uns 13 anos pra ter o primeiro viral. O texto dele sempre foi sobre ser pai, mas ninguém dava bola. Um produtor sugeriu que ele fizesse um show inteiro sobre paternidade. Ele começou a postar. Os pais começaram a ir. E aí veio o problema: “não tenho onde deixar meu filho”.
Leva o filho, ele disse. E tirou os palavrões do texto.
Quando ele viu, metade da plateia era criança. Ele chamou uma pro palco, depois outra, e nasceu o “Qual é o seu talento?”. Hoje os pais inscrevem as crianças num aplicativo, sobem documento, assinam autorização de imagem, e o Serginho escolhe arrastando pro lado. Ele mesmo chamou de “Tinder” do show.
E tem a sacada que eu achei a mais esperta do papo. Ele foi a show de youtuber infantil com o filho e reparou que o teatro tava cheio de adulto morrendo de tédio. Então montou o show pra funcionar igual filme da Pixar: tem camada pra criança e camada pro pai. Toy Story, mano. Tu assiste com 10 anos e com 40 e é outro filme.
O Pedro do mortal? Segundo o Serginho, ninguém sabia que ele ia fazer aquilo, nem o pai. O vídeo explodiu, choveu crítica, o pai pensou em pedir pra tirar do ar. O Serginho topou apagar. Mas sugeriu outra coisa: cria um perfil pro moleque e vamos ver o que sai disso. O Pedro entrou no parkour. E no especial que sai no dia 12, segundo o Serginho, ele crava o mortal.
O moleque virou o Rocky Balboa do mortal, tá ligado?
Três mil professoras esperando outro comediante
Agora a história de show ruim, que todo comediante tem e que eu adoro ouvir.
O Serginho foi contratado pra um evento de professores em Pinhais. Três mil professoras num ginásio. Antes dele, banda da Polícia Militar tocando rock, todo mundo pulando. Depois, a prefeita discursando e tomando vaia. Aí anunciaram a atração principal, e uma mulher gritou do meio do ginásio o nome de outro comediante.
Não era ele.
Ele fez uma piada, duas, três. Nada. Olhava pro empresário e o empresário fazia sinal: faltam 23 minutos. Aí ele teve a ideia: “gente, tem um sorteio, né?”. Assumiu o sorteio, que nem era dele, e foi fazendo piada a cada prêmio.
Um dos prêmios? Dois ingressos pro show do comediante que elas queriam ver.
O Afonso tem a dele também. Saiu na mão com um músico de bar no intervalo do próprio show, voltou pro palco e terminou o texto com o cara lá fora fazendo sinal de que ia pegar ele na saída. Porra. E o Rafinha Bastos, nas lembranças dos dois, uma vez fez a melhor piada dele, não ouviu uma risada e mandou: se vocês não riram dessa, das outras não vão rir. Boa noite.
“Respeita a família, irmão”
Aí o papo mudou de cor, e eu não tava esperando.
O Serginho perdeu a mãe em outubro do ano passado. Ele tava viajando pra fazer show em Recife quando o pai avisou que ela tinha piorado. Comprou passagem de volta. O avião começou a decolar, o irmão ligou. “Irmão… a mãe.” E a linha caiu.
Ele veio o voo inteiro chorando. A comissária trazia bala, trazia água. Quando desceu em Guarulhos, de óculos escuros, alguém reconheceu. “Ó o cara do Canalhas aí.” Ele tirou umas dez fotos no aeroporto chorando.
Cara. Pausa.
Em casa, ele contou pro filho de 10 anos como tinha sido a viagem, as balas, a água. O moleque respondeu: na próxima eu vou chorar também, então.
E tem mais. No dia do velório, saindo do cemitério, um cara atravessou a rua animado e pediu foto. O Serginho abraçou o cara. O irmão dele saiu do carro e soltou: “aí não, velho”. O fã ficou sem graça, nem sabia o que tinha acontecido, queria desistir da foto. O Serginho fez questão de tirar.
Ele entrou no carro, bateu a porta, e a primeira frase do filho foi: respeita a família, irmão.
Eu fiquei ali entre rir e engolir seco. Porque o meu pai tá velhinho, tá ligado? E eu vivo com essa pressa de aproveitar enquanto dá. O Serginho riu contando, e eu entendi por quê. Às vezes rir é a única coisa que dá pra fazer.
O Afonso também já perdeu a mãe. E o Serginho fechou com uma que só acontece no Brasil: o agente funerário que cuidou de tudo tinha comprado, uma semana antes, a churrasqueira usada que ele tinha anunciado na internet.
O Zeca Pagodinho disse não
Pra respirar, a gente caiu no assunto foto.
O Afonso viu o Zeca Pagodinho no aeroporto de Lisboa às nove da manhã. A mãe dele era apaixonada pelo Zeca. Ligou pra ela, ela mandou ele pedir. Ele foi, todo humildinho. O Zeca respondeu que não. O Afonso se afastou uns passos e tirou uma foto dele de longe, só pra mandar pra mãe.
Ele jura que hoje escuta Zeca igual antes. Mas na primeira meia hora…
E eu? Eu tomei a minha também. Mostrei pros dois as fotos que eu tenho da Bola de Ouro, em Paris. Tem foto com o Raí, com o Figo, uma da Natalie Portman sentada bem na minha frente. Pedi em inglês, com aquela voz de humilde, e ela tirou. Mas o sorriso que ela deu… o Afonso olhou e mandou: horrível, ela tava de saco cheio.
Justo. Eu nem era pra tá lá.
O gato acha que o dono é gaúcho
Essa é a minha favorita, e eu não sei explicar por quê.
O Afonso tem uma gata de 15 anos que foi morar com ele e ficou chateada com a mudança. Do nada, ele começou a falar com ela imitando sotaque gaúcho. “Bah, guria, tá com a carinha fechada?” E a gata respondeu. Pronto. Agora é só em gauchês.
Só que ele se mudou de novo há uma semana. Chamou o elevador, voltou pra dentro porque esqueceu alguma coisa e mandou um “bah, vai pra dentro, guria” pra gata. Quando fechou a porta, o vizinho tava parado esperando o elevador. “Pô, tu é gaúcho?”
E ele, com vergonha de explicar que era só um maluco imitando sotaque pra uma gata, respondeu que sim.
Agora o vizinho encontra ele na academia e cumprimenta com “bah”. O Afonso vive uma vida dupla, mano. Com ar-condicionado.
Ah, e quando eu perguntei quem eles seriam se pudessem acordar no corpo de alguém por um dia, o Afonso escolheu o Joesley Batista. De todas as pessoas do mundo. Eu falei na cara dele que foi uma das respostas mais idiotas que já ouvi nessa mesa. O Serginho quis ser o Solimões, da dupla com o Rio Negro, almoçando cupim num sábado. E eu fiquei com o Xi Jinping, que eu também não sei explicar.
O que eu levei desse papo
Cara, eu ri o programa inteiro. Mas saí com duas coisas.
A primeira é do Serginho sobre carreira. Ele passou anos olhando os amigos estourarem e se perguntando o que tava fazendo de errado. A resposta que ele achou foi trabalhar. Escrever, postar, repetir. Sem garantia nenhuma de que vai dar certo. Mas quando a sorte bate na porta, tu tá lá trabalhando.
A segunda foi uma frase que o Serginho atribuiu ao Aragão, parceiro dele do Clube dos Canalhas. Os dois estavam num churrasco, cheio de criança, e o Serginho foi esconder o cigarro. O Aragão acendeu o dele na frente de todo mundo e falou: eles é que têm que esconder da gente.
Eu gargalhei. E fiquei pensando nas minhas filhas.
O papo completo, com o Afonso imitando gaúcho e a foto tremida do Zeca, tá lá no canal: https://www.youtube.com/watch?v=C4TP0pYgS3E
Dá o like, comenta aí qual famoso já te negou foto e vai nos shows desses caras, que senão eles viram motorista de aplicativo e param de vir aqui. Obrigado pela moral, Serginho. Obrigado pela moral, Afonso.
A gente se vê depois. Beijo.
