Reinaldo Azevedo é o convidado do Flow
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Reinaldo Azevedo é o convidado do Flow

Salve, família.

Deixa eu te perguntar uma coisa. Tu já participou daquela reunião de orçamento na mesa da cozinha? A conta do mês estourou 20 mil e alguém solta a solução: vamos comprar menos laranja na feira. E menos ovo.

Economia de cem reais pra um buraco de vinte mil.

Pois é. Foi com essa cena que o Reinaldo Azevedo resumiu, aqui no Flow, o plano econômico do candidato que terminou o primeiro turno na frente. A comparação é dele. A cena, eu garanto que tu já viveu.

O Tio Rei veio numa quinta à noite, quatro dias depois da eleição. O papo foi pro Senado que assustou ele mais do que a disputa pra presidente, pro que quer dizer de verdade quando o jornal escreve “fulano comentou com interlocutores”, e pra hora em que eu perguntei, sem rodeio, se ele tinha virado petista.


Já adianto: o Reinaldo vota no Lula e não esconde isso de ninguém. O Flow é neutro, a gente expõe os lados e cada um forma o próprio juízo. O que vem aqui embaixo é tese dele, com o nome dele em cima. E eu, que não sou analista político, sentei do único jeito que eu sei: perguntando como quem não sabe. Bora.

Na quinta anterior, a equipe do Lula achava que levava no primeiro turno

Começo pelo bastidor, porque eu tava lá. Na quinta antes da eleição eu tava com o Lula pra entrevista, e a equipe dele falava em vitória no primeiro turno. O que incomodava era o Flávio crescendo e nada colando nele, nem o caso Vorcaro. Eu falei pro próprio Lula que, pra mim, a fuga dos debates era pra não mexer nas pesquisas. Ir pro segundo turno em segundo seria um desastre.

Foi exatamente o que aconteceu.

Pro Reinaldo, o Bolsonaro “fagocitou” a direita brasileira (engoliu, no português de ogro), e por isso o Flávio já nasceu competitivo só com o sobrenome.

A diferença final ficou abaixo de dois pontos, e ele lembrou que nunca teve virada em segundo turno presidencial no Brasil. O primeiro Datafolha saiu naquele dia: 52 a 48 pro Flávio nos válidos. Pro Reinaldo, ainda tá na margem e o Lula não tá fora do jogo.

Aí me bateu uma lembrança. Em 2014, recém-chegado na Cultura Inglesa, eu vivia num círculo em que todo mundo jurava que o Aécio ganhava. Troquei uma ideia com uma professora de lá, petista, e ela me falou uma porrada de coisa que eu nunca tinha ouvido. Foi a primeira vez que eu entendi que tinha gente pensando completamente diferente do meu grupo inteiro.

Não virei nada. Mas a minha cabeça mudou ali, tá ligado?


O que assustou o Tio Rei foi o Senado (e, pra ele, não foi recado sobre o STF)

O PL vai ter 28 senadores. Somando quem o Reinaldo chama de “bolsonarizados”, nas contas dele, dá uns 49, o número que precisa pra mudar a Constituição. Pra tirar ministro do Supremo, precisa de 54. Ele acha que chegam.

Eu dei meu pitaco: isso não é um recado da população sobre o STF?

Ele não comprou. Puxou o Rio, que teve a segunda maior abstenção do país, atrás só de Mato Grosso do Sul. “Essa abstenção no Rio não tem a ver com STF.” E repetiu a frase que tinha dito no ar: “Pobre Rio, tão perto do Cristo, tão longe de Deus.”

Aí veio a analogia de interior. Impeachment de ministro do STF nunca aconteceu no Brasil. No dia em que acontecer, pra ele, vira cachorro que pegou gosto por pintinho. “O cachorro comeu o primeiro pintinho, livre-se do cachorro.” Não para mais. Ministro passa a julgar com medo, e a segurança jurídica que o mercado adora vai pro brejo. Isso infernizaria a vida do Lula, segundo ele, e a do Flávio também.

Ele pausou o vídeo do Sachsida umas oito vezes

Mas vamos lá, pra feira.

Segundo o Reinaldo, circula um plano com corte de 1,5% a 2% do PIB, coisa de 250 a 300 bilhões na conta dele. (O plano registrado no TSE fala em uns 190 bilhões, perto de 1,5% do PIB. Ainda assim, dinheiro pra caralho.)

Aí ele pediu pro Vitão rodar o vídeo do Adolfo Sachsida, que coordena a equipe econômica do Flávio, e foi pausando. Para, Vitão. Solta. Para de novo. O Sachsida promete fortalecer Bolsa Família e BPC, reduzir imposto, não privatizar Banco do Brasil, Caixa e Petrobras e não congelar salário de servidor. O corte viria do servidor que ganha R$ 200 mil por mês e dos 39 ministérios.

O bagulho é o seguinte, na leitura do Reinaldo: despesa grande igual e receita caindo, a conta só fecha cortando de alguém. Supersalário e ministério são a laranja e o ovo, saca? Sobra cortar do pobre ou da isenção do empresariado. “Do empresariado eles não vão cortar.”

E veio a frase mais dura da noite: “Ou mente para ganhar a eleição, que eu acho que é o caso, ou não sabe o que tá falando.” Ele mesmo descartou a segunda. Disse que o Sachsida não é burro.

Eu cutuquei duas vezes. A euforia do mercado com o Flávio não era o esperado? Era, mas o mercado espera justamente o corte que o candidato nega. “Se vocês tiverem caminhando numa calçada e perceberem que os mercados estão indo na mesma calçada, atravessa.”

E o PT também não diz o que vem, né? Ele admitiu que o arcabouço fiscal anda com problema, mas disse que o Lula ao menos prometeu não mexer em aposentadoria, BPC e salário mínimo, e que a prioridade seria rever isenção. Aquela que, nas palavras dele, vira apartamento em Miami, lancha e avião.

Pro Reinaldo, a esquerda deu XP pro adversário sem perceber

Aí eu dei a minha leitura, de quem ouve os caras todo dia. Muita gente vota no Flávio por antipetismo, e o PT tem culpa: uma elite intelectual do partido passou anos tratando quem discorda como idiota. Se tu não trata o evangélico com cuidado, tu entrega ele de bandeja pro outro lado.

O Reinaldo concordou que a direita soube fazer o trabalho. Concordou não, foi além. Ele é do tempo em que universitário votava em peso na esquerda, e hoje, segundo ele, o Flávio ganha nesse recorte em boa parte das pesquisas.

O motivo, na tese dele, é o ProUni: uma política de esquerda abriu a faculdade pra milhões de pessoas fora da bolha da universidade pública. A esquerda criou os elementos da contestação dela mesma. Ele chama isso de dialética.

É tipo upar o personagem do adversário no RPG. Ele sobe de nível e volta pra te bater.

“Tu virou petista, hein, cara?”

Teve uma hora que eu não aguentei e soltei a pergunta.

“Não virei.” E ainda mandou um recado pra quem vive perguntando por que ele mudou: “Supera, Marília Mendonça.”

Eu apertei mais. E se fosse pro outro lado, com o PT de poder absoluto, tu ia tá falando a mesma coisa?

“Pergunta pro PT o que eles achavam de mim.”

Justo. Eu lembro, e falei pra ele: o cabelo era um pouquinho menos claro e ele enchia o saco dos caras também.

A tese dele é que o bolsonarismo não é força democrática, e o divisor de águas pro voto dele é a entrevista do Flávio à Folha, em junho do ano passado, falando em uso da força num choque com o Supremo por causa de indulto. O Flávio disse na época que era análise de cenário, não ameaça. Enquanto ele não retirar, o Reinaldo diz que não tem chance.

Eu fui pro extremo: tu tá comparando o Flávio com fascismo?

Ele não recuou. Disse que usou “fascismo sorridente” num texto daquela madrugada, pegando a ideia de um livro de 1980 do americano Bertram Gross, Friendly Fascism. E citou duas propostas, nas palavras dele: “prender criança de 14 anos” e soltar golpista.

Aí eu dei a minha real. Isso não pega, cara. É plataforma, é o que dá voto. Se tu falar isso na cara do Flávio, ele vai dizer que é essa porra mesmo.

O Reinaldo não brigou com isso. Disse que tava explicando o voto dele, não adivinhando o de ninguém.

Ladrão de direita, ladrão de esquerda e a cota da gasolina

Já que a gente tá falando de régua moral, sobrou pro Caiado. Na campanha ele disse que tanto fazia roubar com a mão esquerda ou com a direita, era ladrão do mesmo jeito. No segundo turno, apoiou o Flávio. Pro Reinaldo, quem tem autoridade moral não vota em ladrão de lado nenhum. Se vota num, o problema nunca foi o ladrão. Era o lado.

Aí eu levantei uma que me incomoda de verdade. A gente tem uma régua moral esquisita, cara. Aceita o roubo de um lado porque odeia o outro. E tem coisa que nem crime é: o parlamentar que gasta todo mês a cota inteirinha da gasolina, no posto do amigo ou do primo. Ilegal não é. Mas é ético?

Ele chamou a questão de “absolutamente procedente” e devolveu com a frase que eu mais anotei: o santo moralizador tá sempre a um passo da pior corrupção de todas, a corrupção da santidade. O cara grita tão alto contra os outros que fica blindado pra fazer a dele.

“Nenhum ladrão nosso é melhor do que ladrão de ninguém.”

Pois é.

E ele aceita quem vota no Flávio por achar o PT um mal maior: “É uma escolha política.” O que não dá é dizer que um lado é puro. Nisso eu concordei pra caralho. O critério dele, de católico, é o mal menor: Senado, Câmara, presidência e depois Supremo na mão do mesmo grupo é poder sem freio. E o contrapeso, pra ele, se chama Lula.

O “vai quebrar a economia” já era usado contra a abolição

No fim, o chat do Live Pix perguntou da escala 6x1. Ele é a favor do fim, com transição. E puxou a história: na abolição, tinha gente escrevendo que a escravidão era imoral, mas que o país não aguentaria viver sem ela.

E aí veio a punchline da noite, pra mim. O país mais desigual do mundo não se constrói da noite pro dia. “É uma conquista de séculos.”

Caralho.

Sobre a ideia do Flávio de acabar com a reeleição e ter mandato de cinco anos, ele abriu a Constituição na mesa. Artigo 60, parágrafo 4º: o voto periódico é cláusula pétrea. Ou seja, dá pra aprovar cinco anos pro próximo presidente. Esticar o mandato de quem já sentou na cadeira, na leitura dele, não pode.

O que eu anotei (e o elogio que eu vou mandar emoldurar)

Bom, pra gente finalizar.

Na despedida, o Reinaldo disse que eu sou “um doce de criatura” e um entrevistador que finge que não sabe, mas que as perguntas vão sempre ao ponto.

Porra, Tio Rei. Vou mandar emoldurar.

A real é que eu pergunto como quem não sabe porque, na maior parte do tempo, eu não sei. Anotei minhas coisinhas. Uma é o pessimismo da inteligência com otimismo da vontade, do Romain Rolland via Gramsci: o médico sabe que todo mundo morre e mesmo assim faz a melhor cirurgia possível. A outra é aula de jornalismo de graça: quando tu lê “fulano comentou com interlocutores”, foi o próprio fulano que contou. Só não quer o nome dele ali.

Tu pode concordar com tudo, com nada ou com metade. Na mesma semana sentou gente aqui com leitura bem diferente da dele. Ouve todo mundo e decide sozinho. Se não servir pro teu voto, serve pra tu ler jornal com outros olhos.

O papo completo, com as três horas de Tio Rei, tá lá no canal: https://www.youtube.com/watch?v=U1DkNqLigak

Dá o like, comenta aí e manda no grupo da família que tá brigando por causa do segundo turno. E vira membro do Flow, se tu for gente boa. Se for babaca, nem vira.

Obrigado pela moral, Reinaldo. A gente se vê depois. Tchau.

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