Ed Motta é o convidado do Flow
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Ed Motta é o convidado do Flow

Fala, galera.

Tu já tava numa van lotada de aeroporto e algum engraçadinho soltou “tem espaço na van”? Pois é. O cara tava citando Ed Motta. E provavelmente nem sabia.

Se tu cresceu nos anos 90, ouviu “Manuel” tocando em algum lugar. Se foi criança no fim da década, ouviu esse cara no Tarzan dublado. É o mesmo sujeito. E ele sentou aqui na mesa do Flow de paletó, lenço e tudo.

O papo foi longe: por que, pra ele, o TikTok existe desde o Bach, o ano que ele passou na casa do Tim Maia quando era criança, e uma aula de vinho que me deixou com vergonha de mim mesmo.

E olha, eu queria essa conversa fazia tempo. Tempo mesmo. Bora.


Todo mundo já teve o seu TikTok, até o Bach

Eu abri com a pergunta que me incomoda. Hoje, se a música funciona no TikTok, ela é sucesso. Só que tu não vê ninguém curtindo aquilo no carro. Passou o pedaço que viralizou, acabou a graça.

O Ed não foi pelo caminho do saudosista, e olha que ele é o cara mais nostálgico que eu conheço. A tese dele é que toda geração teve o seu TikTok. Quando o rádio chegou com música comercial, quem ouvia música lendo partitura deve ter surtado. O rock dos anos 50 era o TikTok de quem tava acostumado a ver concerto inteiro sentado.

E ele foi mais longe: o Bach compondo sob encomenda pra missa de domingo já era o primeiro jingle. Um acordo entre a arte e quem paga o cachê.

O que muda, pra ele, é o tamanho da distribuição. Quanto mais música, mais a média vai arriando. E aí ele soltou a frase que eu anotei: “Quanto mais nota, menos nota, e ninguém nota.”

Ou seja, a régua não caiu do céu. É que tem música demais disputando o mesmo ouvido.


O moleque da Tijuca que queria ser aviador

Antes da música, o Ed era colecionador. Tampinha de refrigerante de tudo quanto é canto do Brasil, uma gaveta cheia. Selo, mas só de aviação, porque o sonho era ser aviador. Ou veterinário.

Aí eu não aguentei: mas tu já era gordão, né? Não tem aviador gordão.

Ele parou, pensou e concordou. Nunca tinha pensado nisso. Culpa do sorvete de creme, segundo ele: dois litros assistindo Sessão da Tarde.

O pai chamava ele de “Maria Bom Começo”, porque o moleque tirava no violão o começo de todas as músicas e não sabia o resto. Aos 13 foi vocalista de uma banda de hard rock que fez um show só, no Grajaú. E o nome Ed nem é de batismo: ele era o Dudu, e quem começou a chamar de Ed foi o Nelson Meirelles, que tinha programa na Rádio Fluminense. Ficou. Dudu, segundo ele, era muito playboyzinho.

A formação de verdade veio de uma loja de discos na Tijuca, onde ele passava o dia, antes e depois do colégio. O dono, o Maurílio, era “o irmão mais velho que eu não tive”. Ia dando disco, e o Ed ia anotando tudo num bloquinho pra pesquisar depois na enciclopédia.

Eu também fui moleque chato de violão nas costas, que chegava na festa querendo enfiar metal nos outros. Pelo menos ele virou o Ed Motta. Eu virei o cara que não gosta de Nirvana, e falo isso sem medo.

A música escolheu ele na casa do Tim Maia

E aí o papo ficou sério.

O avô do Ed, pai do Tim Maia, era cozinheiro e tinha uma pensão na Tijuca. Roberto Carlos, Erasmo, Jorge Ben, a turma toda passava por lá. A mãe do Ed guardou o caderno com as receitas francesas dele.

Quando o Ed tinha uns 7, 8 anos, a mãe dele ficou doente, e por quase um ano o motorista do tio buscava o menino no colégio e levava pra casa do Tim Maia. Ele ficava lá até o pai sair do trabalho. Na casa tinha guitarra, teclado, percussão e uma pilha de disco importado, coisa rara pra caramba naquela época.

“Ela que me escolheu”, ele falou da música. Foi ali.

Cara. Eu fiquei quieto.

O Tim Maia nunca foi a um show dele. Viu pela televisão, no máximo. E o Ed falou disso sem mágoa nenhuma: o tio tinha a vida dele, as questões dele. E deixou uma frase que explica a carreira toda: ele nunca se vendeu como sobrinho do Tim Maia, mas as pessoas compravam ele assim.

Raio caindo duas vezes na mesma família. Pensa nisso.

Ficou doente de medo antes do primeiro disco

Agora, a parte que eu não esperava de um cara desse tamanho: o Ed é medrosão. Palavras dele.

Na hora de gravar o primeiro disco, ele travou de medo da expectativa. Ficou gripado, pegou bronquite, garganta inflamada. A gravadora deixou o disco parado um mês esperando ele sarar.

Nos anos 90, de tanto voo pra show, pegou pânico de avião. E até hoje ele sonha todo santo dia que tá viajando. Mala, check-in, hotel, aeroporto. Nunca sonha que tá no palco cantando. Sempre no bastidor.

Isso eu entendo. A galera acha que eu só tô vivo enquanto o programa tá no ar. Tem uma porrada de coisa por trás. (Já avião, eu durmo amarradão. Se tiver que dar uma morrida, não tem nada que eu possa fazer.)

E os hits vieram assim, meio na raça. “Manuel”, que bombou pelo Brasil inteiro, nem é dele: segundo ele, é do Fábio Fonseca, tecladista da banda, uma das pouquíssimas do repertório que ele não compôs. Já as versões de Tarzan saíram de uma direção de dublagem que ele chamou de aula. Vai, volta, repete. Repete de novo.

De paletó até na farmácia (e a pergunta que eu fiz sem filtro)

Ele prometeu pra ele mesmo que, quando fizesse 50, só ia andar de paletó. Tá com 55. Vai de paletó na farmácia, no barbeiro da rua de trás, no café da manhã do hotel.

Eu perguntei na lata: a intenção é parecer insuportável? Tu não tem fama de ser meio babaca?

Ele riu e assumiu. Fica a fama de marrento, de quem se acha mais chique que os outros. E ele gosta. Irritar, no fim das contas, só depende de quem fica irritado.

Eu também cutuquei a confusão do restaurante no Rio, em maio, aquela do vídeo com a cadeira. Ele repetiu na mesa a versão dele, de que não jogou em ninguém, e disse que nunca deu um tapa em ninguém na vida. Na época, ele mesmo admitiu publicamente que se descontrolou. O restaurante tem outra versão.

Champanhe, empadinha e o suco de jabuticaba de Jesus

Vamos falar de vinho, que aí o Ed vira outro ser humano. E eu, que sou completamente ignorante nisso, virei aluno.

Primeira lição: em casa, ele só toma tinto se tomar branco antes, e o ideal é abrir com champanhe. É uma escadinha. E champanhe vai em taça grande, não naquela fininha. Não é frescura. É ciência.

Aí eu pedi o jantar dos sonhos dele. Começa com uma taça de champanhe e uma empadinha de queijo. Depois um peixe cru com molho do próprio mar e um branco leve. E aí vem a gordura do porco com branco da Borgonha, que segundo ele “dá vontade de chorar”. Tipo o lardo de Colonnata, curado em mármore de Carrara, que derrete na boca.

A Borgonha virou religião numa degustação nos anos 90. Ele achava os vinhos de lá levinhos demais, até que um produtor apareceu com uma garrafa que parecia, nas palavras dele, um suco de jabuticaba. “O suco de Jesus.” O Ed vendeu todos os vinhos que não eram da Borgonha. Calça de veludo ou bunda de fora.

E sabe qual foi o primeiro vinho da vida dele? Santa Helena, com a mulher, achando que tava abafando. Fiquei mais tranquilo.

Ah, e ele nunca ouve música comendo ou bebendo vinho. Foco total. Ele, que tem quase 30 mil discos de vinil em casa, aprendeu a gostar de silêncio. O silêncio, alguém soltou na mesa, é o gengibre da mente.

Ele podia ter ficado rico fazendo a mesma coisa

Essa parte me pegou.

O Ed falou sem rodeio: era fácil ter ficado rico. Era só fazer a mesma coisa pra sempre, ginásio lotado todo fim de semana, “medíocre, fazendo a mesma coisa pro resto da vida”. Ele não quis. Gravou disco instrumental, fez musical que ninguém prestou atenção, passou mais de uma década gravando em inglês pra um selo alemão. E só agora voltou ao português, com o Toc-Toc, primeiro disco em português em 13 anos.

E ele bota a culpa no signo. Leonino, movido a ego. “Sem o ego, o leonino, pô, acabou.” A mulher, a Edna, é libriana, e eles estão juntos há 36 anos. Opostos que se amam, segundo ele.

Eu perguntei: e se tu fosse CLT, Ed? Ele riu sozinho. Ia estar cheio de problema com colega. Eu me identifiquei mais do que devia. Graças a Deus não tenho chefe burro.

E veio também uma tese que é dele: pra ele, mesmo com música tocando no rádio, nunca fez mais de três, quatro shows por semana, e ele acha que tem gordofobia nisso. O gordo vai até ali, nas palavras dele. Não deixam o gordo ir longe demais.

“Vou beber eles todos”

No fim, o chat do Live Pix perguntou o que vai acontecer com os 30 mil discos quando ele morrer. Doação? Fundação?

“Eu vou vender antes. Vou beber eles todos.”

Melhor resposta do ano.

Ele contou que arranhou a última faixa de um disco raríssimo que trouxe do Japão, de um pianista paulista, o Mário Albanesi. E, claro, botou na cabeça que a faixa favorita era justamente a que arranhou. Contou também que guarda um disco inteiro gravado aos 21 anos com feras do jazz americano, entre eles o baixista Anthony Jackson, que nunca saiu por desacerto com o produtor.

E a última foi de pai pra moleque: o cara de 21 anos que ainda mora com os pais e fica decidindo a vida que saia de casa primeiro. Paga tuas contas, lava tua roupa, aprende a ter uma casa. Ele saiu com 18, pra morar com a Edna.

O que eu levei desse papo

Bom, pra gente finalizar.

Eu falei pro Ed no fim, e falo aqui: eu ficava com a sensação de que um dia ia chegar a minha vez de trocar essa ideia com ele. Chegou.

Anotei minhas coisinhas. A de estudar tudo o que tu gosta, que é o jeito dele de viver: música, quadrinho, cinema, vinho e comida, sempre com enciclopédia do lado. E a de não fazer a mesma coisa pra sempre só porque dá dinheiro. Isso serve pra mim aqui no Flow. Se não servir pra tu no trabalho, serve pra tua playlist.

E vem coisa por aí. O Ed virou personagem de quadrinho em Aplausos e Enigmas, do PH Tirre com arte do Manoel Magalhães, uma aventura de detetive no estilo Tintim que sai no fim de novembro. A pré-venda tá no Instagram dele.

O papo completo tá lá no canal: https://www.youtube.com/watch?v=9DhK6gT6jD0

Dá o like, comenta aí qual música do Ed tu cantava errado e manda no grupo da família pro tio que até hoje jura que é “Manuel foi pro céu” e não sabe mais nada da letra.

Obrigado pela moral, Ed. A gente se vê depois. Beijinho.

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