
Deixa eu te perguntar uma coisa antes de tudo. Tu já parou naquele posto bonitinho de estrada, banheiro limpo, luz branca, e saiu de lá com R$ 100 a menos achando que tinha feito um bom negócio? Só ia mijar. Aí comprou uma água, uma coxinha, uma balinha, um energético de R$ 20.
Pois é. Segundo o Vinheteiro, isso ali não é um posto. É uma armadilha com nome de demônio.
Ele sentou aqui na mesa com o Igorfina, que é o cara que imita o Cariane, que imita ele, que imita metade da internet brasileira. E o papo foi pra uns lugares que eu não sabia nem que existiam. A teoria dele sobre como funciona de verdade a indústria da música no Brasil. E uma confissão sobre dinheiro que eu não esperava ouvir dele.
Tem ainda um bloco inteiro de golpe, e esse aí é o que mais serve pra tu. Bora.
Ele não vem mais na sexta e não é brincadeira
Primeira coisa que eu perguntei, porque todo mundo pergunta: por que que o Vinheteiro não topa mais gravar na sexta com o Dilera?
A resposta dele foi, resumindo o que dá pra publicar, que ele não acha graça, não consegue concluir um raciocínio no meio dos tiques e que não aprende nada no papo. Ele foi mais longe do que isso e usou umas palavras que eu não vou repetir aqui, porque em vídeo sai como personagem e em texto sai como ofensa a uma pessoa de verdade.
Eu falei na cara dele o que eu penso: tem que saber lidar. Eu dou risada, me divirto, e os moleques são suaves.
E depois eu falei outra coisa, que é a que eu acho mesmo. Eu acho que ele tem inveja. O Dilera cresceu, tá na TV agora, e teve uma sexta que o cara ficou quieto o programa inteiro só esperando o rojão. Isso incomoda.
Ele ouviu e devolveu que inveja é coisa do Baal. Mais pra frente, quando eu apertei de novo, ele mesmo admitiu: todo mundo tem inveja, e quem diz que não tem é mentiroso.
Pois é. Ele se incluiu na conta sem perceber.
"Todo mundo que tocou no rádio emprestou o Lulu"
Aí veio o bloco que segurou metade do programa, e eu preciso explicar o código antes.
O Vinheteiro tem um jeito próprio de falar de uma coisa que todo mundo do meio sabe e ninguém diz o nome: ele fala em "emprestar o Lulu". É a versão dele pro velho toma lá dá cá sexual que abre porta na indústria. E ele jura que 99% das vezes aquilo é literal, não é figura de linguagem.
A tese na boca dele é essa: tocou no rádio, tocou em novela, entrou em trilha de cinema nacional, alguém pagou por fora. E não pagou com dinheiro.
Eu falei que era papo de maluco. O Igorfina falou a mesma coisa com menos educação.
Mas aí o cara fez uma coisa que eu não esperava. Virou pra câmera, mudou o tom, e falou direto pra quem tem uma bandinha em casa: presta atenção, porque vão chegar em tu com uma oferta que parece boa, tu vai pagar o preço, e a música não vai tocar em lugar nenhum. Aí já era. Tu se vendeu de graça.
Tem caminho sem isso? Ele resumiu em duas coisas: não atender e não ter inveja.
O posto que ele chama de Baal
E já que conversaram de oferta boa demais, ele puxou pro posto de estrada, que na cabeça dele é o mesmo esquema em escala de varejo.
Tu vê a placa, pensa no banheiro limpo, entra. Até chegar no banheiro já passou por seiscentos produtos. Sai de lá R$ 100 mais pobre com uma balinha na mão.
Ele falou que não entra. Segura, para no acostamento e resolve ali mesmo. Se tá com sede, entra numa cidade pequena e toma café na padaria da região, reclamando que todo mundo fora de São Paulo enche o café de açúcar.
Perguntei se ele prefere um mundo sem posto nenhum. Prefere.
Cara, eu discordo. Mas a comparação é boa demais pra jogar fora: o posto vende pra ti a sensação de que tu tá evitando uma coisa pior. O banheiro sujo, a fila, o risco. E é por isso que tu aceita pagar.
Vivaldi é o único que nunca fez merda
Bom, e aí veio a parte que eu mais esperava, porque eu sou leigo e adoro quando alguém que manja de verdade destrói tudo.
Pro Vinheteiro, praticamente tudo é fezes. Rock é fezes porque tem guitarra e bateria. Angra é a pior banda, e é pior ainda porque mistura música brasileira. Red Hot Chili Peppers tem uns 50 ou 60% de fezes. Belo, segundo a régua dele, passa dos 150%, o que não faz sentido nenhum e é justamente por isso que é engraçado.
E aí vem a parte séria, que eu anotei.
Ele falou que até os gênios faziam coisa ruim. Mozart fez fezes à beça, e ainda assim tem a 25 e a 40, que pra ele são as melhores sinfonias que existem. Liszt é, na conta dele, o compositor que mais produziu porcaria na história, e ao mesmo tempo escreveu a peça mais importante já feita pra piano, a Rapsódia Húngara nº 2. O único que ele não lembra de ter ouvido uma música ruim é o Vivaldi, que era padre.
Tu sacou o tamanho disso? O cara que mais produziu lixo é o mesmo que escreveu a obra que mudou o instrumento. Não tem gênio sem uma pilha de tentativa fracassada embaixo.
E ele emendou com o ponto que mais me serviu do papo inteiro: músico é a categoria mais invejosa que existe. Se um professor elogia um colega, o outro já fica bolado. Ele citou o Amadeus, aquele filme do Salieri roído por dentro com o Mozart, e falou que isso acontece todo santo dia no meio. Talento sem caráter não leva ninguém pra lugar nenhum.
Faz todo sentido, saca? E não é só na música não.
O mapa que a avó desdobrou oito vezes
O Igorfina contou que a avó dele, recém-chegada em São Paulo, sacou da bolsa um mapa desenhado à mão pelo irmão dela uns 35 anos antes. Desdobrou oito vezes dentro do carro, virou uma cartolina, e foi guiando pelo papel igual pirata procurando tesouro.
Tem gente que acha isso ridículo. Eu acho lindo, e o Vinheteiro também.
A tese dele é que a gente terceirizou o trabalho mental todo pro computador. Antes o cara decorava a quilometragem entre as cidades da viagem. Hoje ninguém sabe nem os estados do Brasil. Eu, que ganho a vida falando, travei na fórmula de Bhaskara na frente de todo mundo.
E teve a confissão que resume tudo: contar troco virou coisa que ninguém mais sabe fazer, porque a maquininha faz.
Pensa nisso. A gente não ficou burro de repente. Foi entregando uma tarefa por vez, achando que tava ganhando tempo.
Ninguém conta o golpe que tomou
O Igorfina abriu o jogo primeiro. Comprou um iPhone em Nova York numa loja de rua porque tava uns 150 dólares mais barato que na Apple, perguntou umas duzentas vezes se era desbloqueado, o vendedor jurou, ele chegou no Brasil e o aparelho não pegava chip. Uns 700 dólares no lixo.
Teve o macacão de moto também. Um cara pediu pra ele anunciar num marketplace específico, mandou um e-mail falso com o layout certinho, disse que o dinheiro só cai depois do envio. A moça do correio estranhou, perguntou se ele tinha certeza, avisou que faltava a etiqueta. Ele mandou assim mesmo. Foi bloqueado dois minutos depois. Mais R$ 2.000.
A mulher dos correios avisou. Ele mandou. Todo mundo já foi esse cara.
E aí o Vinheteiro soltou a frase que eu não tiro mais da cabeça. Ele falou que já caiu em mais de 100 golpes na vida. Golpe de bitcoin, golpe de sequestro falso, golpe de ligação, e agora o Banco Master, que ele confirmou na mesa sem rodeio.
Eu brinquei que se teve golpe no Brasil, o Vinheteiro tava na fila. E ele completou com a parte séria: a maioria das pessoas cai também, a diferença é que elas não contam. Só contam vantagem.
Porra. É isso mesmo.
E tem a parte de fora do país, que serve de aviso prático: nunca compre nada de rua sem preço escrito. O Vinheteiro pagou 24 dólares em duas casquinhas de sorvete na frente de um museu em Nova York, porque não tinha plaquinha e ele só perguntou o preço depois de o primeiro já estar na mão da esposa. O Igor Fina levou um golpe de cachorro-quente na Times Square. E no Grand Canyon, depois de 8 horas de moto, descobriu que existe uma taxa nova pra quem não mora nos Estados Unidos e pagou os 120 dólares porque já tava lá.
A voz que mandou ele olhar a moto três vezes
Pra fechar, uma que me arrepiou.
O Igor Fina tava treinando numa academia em Niterói, segundo andar, moto estacionada embaixo. No meio da série ele ouviu uma voz mandando ele olhar a moto. Olhou pela janela, tava lá, tudo certo. Voltou a treinar. A voz veio de novo. Olhou de novo, viu dois caras parados numa outra moto ali perto, achou que tava estereotipando e voltou pro exercício.
Na terceira vez ele olhou e os caras estavam levando a moto.
E tem um detalhe que fecha a história de um jeito esquisito: no dia anterior, voltando de um torneio de basquete, ele reparou numa placa com o nome de um bairro que ele nunca tinha visto na vida e achou o nome estranho. A moto foi parar exatamente lá.
Ele acha que era Deus avisando. O Vinheteiro, que passou o programa inteiro falando de demônio, concordou na hora.
Eu fiquei quieto. Porque essas paradas acontecem comigo também, e eu ainda não sei direito o que fazer com elas.
Disponível no YouTube
O papo completo tá lá no canal, e vale ver a cara dele tomando chá igual monstro do pântano:
Dá o like, comenta aí qual banda tu defenderia na frente do Vinheteiro, compartilha e manda no grupo da família. E se tu já caiu num golpe e nunca contou pra ninguém, olha, tu não tá sozinho. O cara do maior canal de piano do mundo caiu em cem.