
Salve, família.
Setembro chegou e a gente abriu a temporada de sabatinas com os presidenciáveis aqui no Flow News . O primeiro a sentar na cadeira foi o Renan Santos, candidato do Missão.
E cara, esse papo quase não rolou. Sério mesmo.
Dias antes, o ministro Dias Toffoli, que é do STF e também compõe o TSE, suspendeu a propaganda eleitoral da chapa dele, bloqueou repasses do Fundo Eleitoral e proibiu o cara de participar de debate em rádio, TV, podcast e "quaisquer outros meios de comunicação". Traduzindo o bagulho: ele tava proibido de vir aqui, e eu tava proibido de receber ele. No dia seguinte o próprio Toffoli voltou atrás e liberou. Foi por isso que a gente atrasou. A culpa é dele, tá? Fica registrado.
Ah, e antes que alguém pergunte: a galera da Agência Lupa acompanhou o programa fazendo checagem de fatos. Se o cara quer ser presidente, tem que ter gente conferindo o que ele diz. Faz todo sentido.
Bora.
"Decisão ilegal não se cumpre"
Primeiro os fatos secos, do jeito que saiu na imprensa. O pedido de registro da candidatura foi protocolado em 7 de agosto. Um monte de perfis de rede social só foi informado ao TSE em 19 de agosto, 12 dias depois. Pra Toffoli, essa demora deixou as contas rodando normalmente nos algoritmos de recomendação enquanto as outras campanhas já tavam com restrição, o que poderia dar vantagem indevida. Ele chamou isso de possível "omissão estratégica". Aí veio a suspensão. E no dia seguinte, depois que a área técnica do tribunal coletou mais de mil páginas de print, ele considerou a finalidade da cautelar cumprida e liberou.
Agora a versão do Renan, que é dele e eu deixo bem claro que é dele.
Ele diz que a decisão foi ilegal desde o começo, porque irregularidade de registro dá multa, não dá suspensão de campanha. Diz que milhares de candidatos, de deputado a governador, também não preencheram tudo direitinho e que a campanha dele foi a que peticionou por conta própria avisando do problema, sem ninguém cobrar.
E diz uma coisa que ele repetiu umas cinco vezes no programa: decisão ilegal não se cumpre. Ele descumpriu, postou conteúdo até derrubarem e pediu pra base dele espalhar nas próprias redes.
E tem a parte mais espinhosa. O Renan acha que teve vingança no meio, porque ele organizou manifestações contra o Toffoli e foi até o resort Tayayá cobrar explicação. Isso é leitura dele, não é fato provado, e eu preciso deixar isso muito claro.
O que é fato noticiado é que o Toffoli saiu da relatoria do caso Master depois que vazou a história da compra de participação naquele resort, que é da família dele.
Ele me falou também que perdeu duas sabatinas e um monte de entrevista naqueles dias. Tempo que não volta.
A parte que dói: ele acha que o brasileiro desistiu
Aí o papo virou de chave e ficou pesado.
O Renan passou um ano rodando o Brasil . Ele conta de pneu furado, de fazer seis rádios num dia, de beber água que não devia. E a conclusão que ele tirou disso não é bonita.
"O brasileiro largou mão como eu nunca vi."
A tese dele é essa: a gente tá vivendo mais escândalo do que na época da Lava Jato e ninguém tá ligando. Ele comparou com aquele lance que a psicologia explica, a pessoa que apanha tanto que para de perceber que tá apanhando. O abuso vira rotina.
E ele solta a black pill completa: os únicos que ainda estão com brilho no olho, na visão dele, são os mais jovens. Os mais velhos, segundo ele, entregaram os pontos e continuam votando nos mesmos. Ele chamou isso de traição geracional.
Falou de Portugal, da Espanha, de cidade onde o aluguel explode e o filho tem que emigrar enquanto o pai segue votando igual.
É uma opinião dura pra caramba. É a opinião dele. Mas eu não vou fingir que ele não falou.
A caixa preta: não é sobre ser amado, é sobre ser pouco rejeitado
Essa parte foi a que eu mais anotei, na moral.
Segundo ele, eleição grande no Brasil não se ganha com proposta. Se ganha administrando rejeição. Os dois primeiros colocados trabalham só pra diminuir a própria queimação de filme e aumentar a do outro. E aí quem escreve o plano de governo, na prática, é o marqueteiro. Vira peça de marketing, porque comprometimento com tema difícil só gera rejeição.
Ele deu exemplo dos dois lados. Candidato com problema com eleitor feminino? Bota a esposa na campanha. Candidato com problema em segurança pública? Ensaia um discurso ali. Candidato que precisa segurar a base? Solta um benefício.
E ele foi honesto sobre o próprio jogo, o que eu respeitei. Falou que a rejeição dele vai subir e que ele sabe disso. A aposta é: ataca os dois grandes, aceita ser rejeitado pelos fãs dos dois, chega no segundo turno com 30% e aí vira. Numa eleição de um turno, ele disse, seria burrice. Em dois turnos, ele acha que fecha a conta.
Pois é. Só que enquanto ele explicava isso, quem tava crescendo nas pesquisas era outro cara .
O Augusto Cury saiu de 1 ou 2% e bateu dois dígitos em quatro pesquisas na mesma semana, depois do debate da Band . E o Renan não escondeu que isso doeu.
Ele foi ao debate justamente porque os dois primeiros colocados não foram, e a leitura dele é que eles não querem enfrentar contraditório. A leitura dele sobre o crescimento do Cury envolve impulsionamento em rede e influenciador, e aí eu preciso dizer: isso é acusação dele, não é fato apurado e o outro lado tem o direito de responder.
O que ele falou e que ficou martelando na minha cabeça foi outra coisa: "Eu errei em falar a verdade? Então quer dizer que eu vou ter que mentir pra ir melhor?"
A reforma política que não se chama reforma política
Aqui ele apresentou o que ele mesmo chama de tema mais importante da campanha dele. Lei de responsabilidade gerencial.
A lógica é a seguinte, e eu vou traduzir do jeito que eu entendi. Em locais nos quais a pessoa depende do político pra tudo, pra remédio, pra emprego, pra rua asfaltada, ela vende o voto.
Já em locais que tem economia rodando e a pessoa paga as próprias contas, ela escolhe. Então em vez de tentar acabar com emenda parlamentar, coisa que ele mesmo admite que não vai conseguir, ele quer mudar a regra do dinheiro: prefeito só recebe mais se bater meta de água e esgoto, de nota no SAEB, de queda de assalto e, principalmente, de aumento de atividade econômica. Não bateu, fica inelegível.
E o fundo partidário deixaria de ser distribuído por número de votos e passaria a ser por desempenho dos prefeitos do partido. A ideia é matar o incentivo de lançar celebridade pra puxar voto.
Junto com isso vem voto distrital misto com lista fechada, modelo alemão. Metade das cadeiras eleitas por região, metade por partido com lista aberta ao público antes.
Aí eu puxei o freio de mão.
Porque cara, isso soa bem. Igual soava bem lá em 2018 quando prometeram um ministério puramente técnico, e depois a realidade do Congresso mostrou que não era bem assim. Eu falei isso na cara dele.
E a resposta dele foi honesta, vou dar o crédito. Ele não prometeu mágica. Falou que se o povo eleger 280 deputados do centrão, e ele cravou essa previsão, ele vai ter que compor.
Só que a composição dele seria com resolução vinculante assinada pelo presidente do partido, tudo público, sem estatal na mesa. Modelo parlamentarista aplicado na marra dentro do presidencialismo.
Dá pra fazer? Não sei. Mas pelo menos ele não fingiu que o Congresso não existe.
Educação: essa parte me pegou
Eu sou formado em Letras. Fui professor de inglês. Então quando o papo vai pra alfabetização, meu radar liga sozinho.
O número que ele jogou na mesa foi esse: de 8 a 10% dos brasileiros seriam de fato proficientes em português, capazes de ler um texto denso de quatro parágrafos e escrever sobre ele. Ele cita a literatura de alfabetização e defende método fônico obrigatório, aquele de juntar sílaba e fonema. Citou Vietnã, Inglaterra, Mississippi e Sobral como casos de quem aplicou e subiu.
A proposta prática dele: foco em matemática e português, criança plenamente alfabetizada até os 12, prêmio em dinheiro pra família de aluno com bom desempenho em vez de bolsa só por frequência, e bolsa em escola particular pro moleque que se destaca lá no fundamental, antes de chegar na faculdade.
Ele resumiu assim, e isso é dele: enquanto a gente não resolver alfabetização, discutir inteligência artificial é conversa fiada.
Eu concordo com o diagnóstico da base. Eu falo isso desde sempre. Educação é o único jeito de o cara sair do ciclo, porque enquanto ele tiver que pensar na janta, ele pega os 50 conto e vota em quem deu.
O ponto que eu vejo diferente é que educação demora uma geração e a rua tá pegando fogo agora. Eu falei pra ele: precisa de um band-aid na segurança enquanto o remédio de verdade age.
Ele concordou com o band-aid. E aí a gente foi pra parte mais tensa.
Segurança: onde eu peguei mais no pé dele
O Renan defende que assalto à mão armada tem que ser respondido com letalidade policial em flagrante, sob legítima defesa de terceiro, ou com 30 anos de prisão sem progressão de pena. Matou ou não matou, na tese dele, não muda.
A justificativa: o assalto à mão armada é a base econômica do crime e é o crime que traumatiza o brasileiro. Ele lembrou que São Paulo tá com taxa de homicídio caminhando pra ficar próxima da americana, e mesmo assim ninguém se sente mais seguro aqui. A diferença, na leitura dele, é o assalto.
Eu não deixei passar. Perguntei do El Salvador, porque tem gente admitindo que uma parcela relevante da galera encarcerada por lá era inocente. Ele não fugiu, mas também não recuou: falou que prefere o risco de uma injustiça hipotética à certeza da injustiça que ele enxerga hoje. Ele defende regime jurídico diferente pra membro de facção, comparando com a lei do abate e com a legislação antiterror.
Eu vou deixar aqui do jeito que é. Isso é a posição dele, é uma posição dura, tem jurista sério discordando frontalmente e o leitor precisa saber disso pra formar a própria opinião.
O momento em que ele me convenceu mais foi na parte de desfavelização. A resposta dele pra uma pergunta do chat foi boa: não é criar distrito cercado de gente armada. É urbanizar, botar escola, ligar as vias, formalizar água, luz e internet, plantar árvore, trazer emprego pra perto. Reocupação com serviço, não só com fuzil.
O Brasil como um agiota
Essa foi a melhor analogia do programa, e eu vou confessar que eu entrei nela junto.
Ele descreveu a economia brasileira como um corpo doente. A Argentina do Milei também tá doente e tá tomando quimioterapia, perdendo cabelo, mas os órgãos voltando a funcionar. O Brasil, na visão dele, é um corpo com muito mais potencial: agro gigante, energia, terra rara, espaço pra data center. Um jogador de futebol no hospital.
Aí ele foi pros números dele: PIB de 12 trilhões, dívida de 10 trilhões, arrecadação de 6,5, e a gente pedalando o agiota todo mês. Quanto mais alto o juro, mais fundo o buraco. Ele fala em cortar R$ 250 bilhões por ano em despesa, mexendo em previdência do funcionalismo, desindexação de benefícios do salário mínimo, piso de saúde e educação corrigido pela inflação, supersalário do judiciário e renúncia fiscal de empresa.
E foi aí que eu falei uma coisa que ele adorou. Se eu tenho 100 reais e monto uma empresa, no fim do ano eu tenho 120 se der tudo certo. Se eu viro agiota, eu tenho os mesmos 120 sem risco nenhum, sem lidar com gente, com o governo garantindo o pagamento. Então bora ser agiota.
Ele completou: por isso ninguém quer fazer fábrica no Brasil . O empresário virou rentista.
É foda. Faz sentido demais.
Batman e Superman
No finalzinho o papo foi pra geopolítica e ficou insano.
A tese dele é que o mundo endureceu rápido demais e o Brasil tá no meio do sanduíche entre China e Estados Unidos . Terra rara, agro, água, 200 e poucos milhões de pessoas. Ele citou a Guerra do Peloponeso, Atenas e Esparta brigando por aliados antes de brigar de fato, e disse que China e EUA já estão nessa fase.
A posição dele é negociar duro, sem puxar saco de ninguém. Ele quer sentar com os americanos e trocar acesso a terra rara por tecnologia militar e apoio internacional, inclusive pra desenvolver capacidade nuclear. Ele lembrou da Ucrânia, que abriu mão do arsenal confiando em tratado internacional.
E aí eu falei: então é tipo Batman e Robin .
Ele: "Não. Robin é meio subordinado. Tem que ser Batman e Superman ."
Verdade. Péssimo exemplo o meu. Retirado.
Sobre o Trump ele foi bem direto, e isso vai desagradar gente dos dois lados: falou que existe uma idealização ridícula dos Estados Unidos por parte da direita brasileira, e lembrou que o agro brasileiro apanhou de tarifa e de discurso do próprio governo americano enquanto tinha gente aqui batendo palma.
O canelômetro
Antes de ir embora ele ainda me contou a teoria mais absurda e mais engraçada do programa.
Ele diz que criou uma métrica interna chamada canelômetro. A partir de 2020 e 2021, virou moda entre político um terno azul curtinho com mocassim sem meia. Aí a canela fica de fora. E a tese dele é que quanto mais canela exposta, maior a chance de o cara estar num escândalo.
E ainda tem escala: quando tá muito exposto, eles falam que o cara "veio de sunga".
Eu não vou dizer que é ciência. Mas eu vou reparar. Todo santo dia.
No fim das contas
Cara, eu anotei um monte aqui. Sério.
Não é sobre eu concordar com tudo que o Renan falou, porque eu não concordo. Eu peguei no pé dele em segurança, eu peguei no pé dele na viabilidade das reformas, e vai ter coisa nesse papo que você vai ler e vai querer jogar o celular na parede. Beleza. É pra ser assim.
O que eu quero de verdade é que tu use isso. Setembro é o mês das sabatinas aqui no Flow News, vai passar candidato de tudo quanto é lado nessa cadeira, e a ideia é sempre a mesma: pergunta difícil, espaço pra responder, checagem rolando do lado. O resto é contigo.
E olha, se tem uma coisa que ficou clara nesse papo é que quem decide isso tudo é a urna. O ministro que tá lá em cima chegou por indicação política, e indicação política vem de gente que a gente elegeu. Enquanto a gente não entender que tem coisa que precisa ser exigida, e não esperada, o jogo não muda.
Papo completo tá no vídeo aqui.
Dá o like, comenta, compartilha, manda no grupo da igreja, manda no grupo dos teus tios que só falam de política no almoço. E vira membro do canal, que tem conteúdo exclusivo rolando lá por menos de 8 reais.
A gente se vê depois. Beijo.