
Salve, família.
Se tu tem mais de 25 anos e um dia botou o pé numa LAN house, tu já jogou CS . Não tem escapatória. Eu ia pra jogar Warcraft, juro. Sempre virava CS.
Pois é. E os dois caras que sentaram na mesa do Flow são os que pegaram esse joguinho de LAN house e transformaram numa parada que fez a Europa inteira ter medo do Brasil . TACO e coldzera . Dois majors. A dupla que estava lá quando a gente saiu de "os brasileiros são sorte" pra "caralho, caiu no grupo do SK".
E cara, o papo foi pra tudo quanto é lado. Bar de hotel na véspera de final. Briga feia dentro de um avião que quase acabou com o melhor time do mundo. Um cara chegando na China pra perguntar quanto o TACO queria pra perder um jogo. E a parte que ninguém gosta de falar: o CS2 tá tomado de cheater e a Valve não sabe muito bem o que fazer.
Eu vim dos jogos, tá ligado, cheguei no YouTube por causa de jogo. Mas CS de alto nível eu não manjo porra nenhuma. Essa aqui foi aula pra mim também. Bora.
Antes de final de major, os caras desciam pro bar do hotel
Virou lenda que o time bebia antes de jogo grande. E é verdade.
Só que o TACO explica o contexto e muda de figura. Eram meses enfornado no escritório em Colônia, treze, quatorze horas por dia, jogando até 5 da manhã e levantando às 10 pra treinar de novo. A frase deles era essa: quem treinou treinou, quem não treinou vai tomar pau. Não tem como correr atrás na véspera.
Aí chegava a semana do campeonato e a cabeça fervia. Semifinal amanhã. Final amanhã. E o que eles faziam era descer pro bar do hotel, tomar duas cervejas e falar do jogo de um jeito mais leve. "Sabe aquele cara do VP? Ele gosta de jogar em tal posição. Vamos arrebentar ele amanhã."
E tinha pro player de outro time sentando junto pra tentar descobrir o segredo. Não tinha segredo. Eles só sabiam beber melhor que os outros.
Hoje ele vê o contrário disso. Jogador entrando em semifinal com a corda no pescoço, DM lotada de xingamento, gente de outro país mandando ameaça de morte por causa de uma derrota. A cobrança é do tamanho da torcida, e a brasileira é uma das maiores do mundo. Ganha muito com isso. Paga também.
16 a 0 pro Fnatic e, quatro dias depois, vice-campeão
Agora a origem, e essa é boa demais. Primeiro campeonato da line com TACO e fnx, na Suécia, casa do fnatic, fim de 2015. Jogo de estreia: 16 a 0. Zero. Na Dust2 . TACO tava tão nervoso que derrubou o energético em cima do mousepad antes de começar.
Qualquer time morre ali. Eles foram pro hotel e sentaram cinco, seis horas revendo tudo. A lógica era simples: perder de 16 a 0 e perder de 16 a 14 dá no mesmo. Perdeu. Vamos ver o que dá pra arrumar pra amanhã.
No dia seguinte pegaram os campeões do último major numa melhor de três e ganharam, coisa que time brasileiro não fazia. Depois passaram pelos dinamarqueses na semi. Chegaram na final contra o mesmo fnatic, na casa deles, e tiraram um mapa dos caras.
E aí o detalhe que eu achei mais foda. Ganhando o primeiro mapa da final, eles olharam pro troféu. Cogitaram. Dali pra frente tomaram pau nos dois seguintes.
Só que o clique não foi esse. Foi no campeonato seguinte. Eles voltaram empolgados, sentaram pra "estruturar tudo", encheram o mapa de smoke marcada, pixel aqui, pixel ali, CS robotizado igual europeu. Não passaram nem dos grupos.
Foi aí que caiu a ficha. Eles não tinham que copiar ninguém. Tinham que jogar o CS deles, com o que cada um tinha de melhor. Depois disso a história tá contada.
A briga no avião que quase acabou com o melhor time do mundo
Eles são eliminados nos Estados Unidos, começam 2 a 0 e perdem três seguidas. Fora. E aí explode uma briga no grupo do WhatsApp por uma besteira qualquer. Dois jogadores falando "não jogo mais com você".
O TACO é quem faz o check-in do voo pra todo mundo. Manda no grupo: querem sentar junto ou separado? Um responde "coloca qualquer um menos do lado do Fer". O outro: "qualquer um menos do lado do Cold".
Ele senta do lado do FalleN, que tava dormindo tranquilão, cutuca e fala: tá ligado que o time acabou, né? O cara nem sabia. Reunião de emergência na cozinha do avião, no meio do voo. Cada um foi falar com um. Voltaram com a mesma resposta: que ele se foda.
Puta merda.
Aí o time pousa em Los Angeles e tinha um vídeo esperando. Uma galera tinha gravado gente conhecida, Neymar, Gabriel Medina, pedindo pros caras não se separarem. Deu certo. Eles sentaram, refizeram tudo do zero e voltaram a ganhar em sequência.
A conclusão do TACO é seca: time que não briga não ganha. Tem que ter cobrança, tem que ter aquele cara chato que tira todo mundo da zona de conforto. E ele assume que era ele.
Eu penso nisso aqui no Flow direto. Ambiente confortável demais é ambiente que para de crescer.
Ganhar não bastava. Tinha que esculhachar
Tá, mas nem tudo era seriedade. Os caras eram doentes.
Quartas de final de mundial, jogo valendo a vida, e eles compram cinco AWPs. Cinco. Num time normal só um cara joga com essa arma. A mensagem era: vocês são tão ruins que a gente ganha até assim. E ganharam.
Tem a faca também, que é a humilhação máxima do CS. O C oldzera matou três num round contra os ucranianos, o s1mple veio pra passar a faca nele e morreu no caminho. O time levantou da cadeira de raiva e jogou tão puto o resto da partida que os caras não fizeram mais um round.
Mas o outro lado dói. O TACO já tomou duas facadas do JW num mapa só. E a palavra que ele usa não é raiva. É tristeza. Tu fica desnorteado, tenta tocar o jogo, e no fim ainda tem que apertar a mão do cara.
Título ninguém tira de tu. Esculacho também não.
"Quanto você quer pra perder o jogo amanhã?"
Campeonato na China . Um cara procura o TACO falando de stream, plataforma chinesa, que queria o time transmitindo lá. Papo de negócio. Ele senta pra conversar.
A segunda pergunta do cara foi quanto ele queria pra perder o jogo do dia seguinte.
Ele agradeceu, levantou e foi embora. Ganharam a partida e ele ficou com aquilo na cabeça: e se o cara vier atrás de mim agora? Pega um ban de dez anos e acabou a carreira. Pensa nisso.
O CS2 tá lotado de chater e a Valve é "o pai que foi comprar cigarro"
Agora a parte técnica, e eu vou traduzir porque eu também precisei.
Os dois preferem o CS:GO . Visualmente o CS2 é mais bonito, isso ninguém discute. Mecanicamente, não. O problema é a hitbox, que é a caixinha invisível que o jogo desenha no boneco pra saber se tua bala acertou. No CS2 ela fica esquisita quando o cara corre, e o tiro às vezes não registra.
E isso muda quem ganha. O que tu tá falando então é que o CS:GO premiava quem se posicionava melhor, e o CS2 premia quem abre correndo com mira absurda. Tipo o Donk, russo de 19 anos que o Coldzera chama de aberração. Antes, jogada burra te matava. Hoje, se tu tem mira, tu compensa.
Mas o buraco maior é o cheater, e aqui a parada é econômica, não técnica. A Valve usa um anti-cheat pouco invasivo por opção, diferente do Valorant, que enfia um treco no kernel do teu Windows e praticamente suga tua alma. Menos invasivo é mais fácil de burlar. Aí virou mercado: tem quem programa, tem quem vende, e tem quem cobra pra subir a conta dos outros até o rank dourado. O TACO jogou quatro partidas em live e caiu com cheater em três.
E aí vem a ironia. Quem quer jogar sério migra pra Gamers Club ou FaceIt, que cobram assinatura e entregam ambiente limpo. Ou seja: o cara paga pra jogar num lugar seguro porque o dono do jogo não entrega isso. É comprar ingresso pro estádio e ter que contratar segurança na porta.
No curto prazo entra grana, porque quem toma ban compra conta nova. No longo prazo o cara que chega cansado do trabalho pra jogar um mapinha desiste e vai jogar outra coisa. E aí fodeu.
O Major, os Stickers e o ano em que a conta não fechou
Tem uma engrenagem financeira aqui que eu não fazia ideia.
Os adesivos com assinatura dos jogadores, vendidos durante o major, são a principal fonte de grana de muita organização. Metade do que a Valve arrecada vai pros times. Por isso tanta org trabalha o ano inteiro só pra estar lá dentro e fechar o caixa no azul. Este ano a Valve trocou as cápsulas por tokens, ninguém faturou como esperava, e teve org que viu que só gastou e saiu do CS.
Enquanto isso o dinheiro grande veio de outro lugar. A Esports World Cup rodou em Paris com US$ 2 milhões só no CS2, e a Falcons montou um super time comprando NiKo, m0NESY e companhia. Deu certo: levaram o Major de Colônia em junho, batendo a FURIA na final.
E o TACO tava lá. Foi ele quem levou o troféu pra entregar naquela final, torcendo pra caramba pro time do FalleN ganhar. Não rolou.
O preço da conta
Aí veio a parte que me pegou. Eu perguntei o que muda no jogador que vai ficando mais velho, esperando papo de reflexo. Não é reflexo. É prioridade.
O TACO nem lembra mais o que é ter aniversário, porque a data dele sempre caía em cima de major. Casamento de primo, aniversário de pai e mãe, sobrinho nascendo: tudo pro espaço. Quinze horas de avião todo fim de semana, ano após ano, na econômica que ele apelidou de Animal Class. Ele faz questão de dizer que é grato por tudo. Mas chega uma hora que tu olha e vê um pedaço da tua vida vazio.
É por isso que ele acha justo o FalleN parar quando quiser. O cara ficou anos sem viver esses momentos. Merece viver em paz.
E eu escutei isso com as minhas filhas na cabeça, na moral. Essa conta chega pra todo mundo, não só pra pro player. A gente empurra o tempo pra frente achando que dá pra pagar depois. Não dá.
O alívio, no fim, veio de um lugar simples: hobby. O TACO passou quinze anos sem ver o sol e tá há três treinando boxe , diz que foi a melhor coisa que fez pela cabeça. O coldzera não começa o dia se não passar na academia. E eu tô nessa fase de mexer com inteligência artificial de madrugada.
Que me lembrou de uma frase que saiu ali no meio e eu acho que é o ouro. Todo mundo pergunta o que dá pra fazer com IA. A pergunta certa é outra: qual é o problema que tu quer resolver? Minha filha mais nova queria jogar um jogo que o notebook dela não roda. Montei uma parada que faz ela jogar direto do meu PC. Resolveu.
E é isso
Cara, eu anotei um monte aqui. Sério. E não é nem sobre CS. É sobre ficar dez anos numa parada e continuar de pé, que foi o que o coldzera falou: o mais impressionante não é ter ganhado, é ainda estar aqui pra contar a história. Tem a ver com o que a gente faz no Flow, e com o que tu tá construindo aí.
O TACO acredita que vem outra era brasileira. Ele diz que o Brasil é escola tradicional de CS igual é no vôlei, que os gringos respeitam, e que agora é momento de plantar. Um dia alguém vai ser melhor que ele, melhor que o cold, melhor que o FalleN. Ele quer que aconteça.
Se serviu pra mim aqui, serve pra tu aí. Nem que seja pra lembrar que o time que nunca briga também nunca ganha.
O papo completo tá no YouTube , é longo e vale cada minuto.
Dá o like, comenta, manda esse episódio no grupo dos caras que jogam LOL e no dos caras que jogam Valorant, porque a gente só falou bem desses jogos aqui. Manda no grupo da igreja também, vai que.
A gente se vê depois.