
Fala, galera.
Tu já usou carteirinha de estudante vencida pra pagar meia no cinema? Ou pediu pro amigo da loja aquele descontinho por fora, só dessa vez?
Pois é. Eu também.
E olha que eu passei o programa inteiro defendendo que é exatamente isso que fode a gente.
Quem sentou aqui pra destrinchar isso comigo foi o Tinoco . Se tu já parou num vídeo de um moleque explicando Nietzsche melhor que teu professor do ensino médio, tem chance grande de ter sido ele. Tinocando TV.
Eu queria saber o que um cara de 25 anos pensa de umas paradas que eu venho remoendo. O que sobra do jeitinho quando ele vira sistema. Por que moleque com foto de anime no perfil virou estoico. E teve uma hora que eu perguntei uma coisa e ele simplesmente falou que não ia responder.
Como eu não manjo porra nenhuma de filosofia, meu papel ali era puxar o fio e traduzir. Bora.
O jeitinho não é o cara na esquina. É o cara que compra um táxi pra furar fila
Eu abri contando de mim, porque era mais honesto assim.
Com 15, 16 anos eu morava numa realidade em que aquele era o mundo inteiro, e ali valia quase qualquer coisa pra se manter vivo. Um golpezinho na passagem. Cobrar um pouquinho mais caro.
Aí eu contei a outra ponta: o cara que compra uma placa de táxi só pra levar o filho na escola pela faixa exclusiva. Não é crime. É o mesmo jeitinho, em outra escala, com dinheiro em cima, tá ligado?
A resposta dele veio por onde eu não esperava. Pra ele, a cultura molda o jeito que a gente funciona mesmo depois que a gente sai da realidade que criou ela. Ela fica. Ela se perpetua.
Aí eu joguei a clássica: o homem é bom por natureza?
Respondi na minha régua de ogro: pra mim ele não é bom nem mau, é uma besta. Tá além do bem e do mal. O Tinoco discordou, dizendo que nunca viu um caso que não tenha sido moldado pelo ambiente.
Provoquei: então tu tá propondo o quê, que a gente imploda essa porra?
Disse que não. Que o primeiro passo é enxergar que é assim. E isso é mais difícil do que parece, porque ninguém acorda se achando parte do problema.
Ele caiu no niilismo com uns 15 anos e demorou pra sacar que aquilo tava fazendo mal
Essa parte me pegou.
O Tinoco contou que há uns dez anos entrou fundo na ideia de que nada importa. E foi direto: não era pose intelectual, aquilo mexeu com ele de verdade e ele passou um tempo bem mal.
O raciocínio era assim. O mundo existiu esse tempo todo sem tu, tu aparece numa fraçãozinha, depois continua tudo sem tu. Então pra que fazer qualquer coisa?
A diferença entre ele naquela época e ele agora é uma vírgula.
Antes era: nada importa, então não vou fazer porra nenhuma. Hoje é: nada importa, então vou aproveitar o máximo que der.
Pensa nisso. Mesma premissa, dois destinos opostos, né?
Aí ele puxou o Albert Camus, autor preferido dele, e o absurdismo. Bebe da mesma fonte do niilismo, mas chega noutro lugar: talvez nada tenha sentido, e mesmo assim tua existência tem peso. Tu pode atribuir o sentido.
O Mito de Sísifo, do Camus, abre discutindo se a vida vale a pena. E o Tinoco tirou de lá um conceito que eu achei sinistro: o suicídio intelectual. É o cara que não se mata, mas decide que se nada tem sentido, então não quer mais conhecer nada.
Apagou a luz interna.
Ele disse que hoje prefere ver os moleques na onda do estoicismo do que na do "nada importa". Mesmo raso. Mesmo modinha. Porque um caminho leva o cara a cuidar do que ele controla, e o outro levou ele pro buraco.
Mas eu cutuquei: tá cheio de adolescente que é estoico de bio de Instagram e nunca leu uma linha. Ele riu e disse que tudo bem, melhor começar raso do que não começar. Faz sentido, saca?
"Não lê o filósofo." Como assim não lê o filósofo?
Perguntam pra ele o tempo todo por qual filósofo começar. A resposta é contraintuitiva pra caramba.
Não lê o filósofo.
Se tu quer estudar Platão, não vai na República. O cara escreveu num contexto de 2.500 anos atrás, com ideias que já vinham dadas pra ele e não são as tuas. Lê alguém que leu Platão e vai destrinchando de trás pra frente.
É tipo pegar um save no meio de um RPG que tu nunca jogou. Tá tudo lá, os item, o mapa, a party montada. Só que tu não faz ideia de por que tu odeia aquele personagem, então nada tem peso nenhum.
Só que eu não deixei passar batido.
Falei na cara dele que tem livro merda, e que não é porque alguém leu, analisou e publicou que a análise presta. E completei com o que faltava: ler caras que se contradizem. Não um intérprete. Vários, brigando entre si.
Ele topou na hora, e emendou um ponto que eu anotei: aprendizado não pode ser passivo. Foi isso que virou a chave dele, quando parou e se perguntou por que tava sentindo a mesma merda ano após ano.
Deve ser alguma coisa que eu tô fazendo, né?
Um santo roubou peras aos 16 anos e jogou todas fora
Agora vem a história que eu não esqueci mais.
O Tinoco falou do Santo Agostinho, e o motivo dele gostar não é religioso. É que o Agostinho é um santo que não tem história de santo. Passou a vida brigando com os próprios defeitos e rodou por um monte de religião antes do cristianismo.
E nas Confissões ele conta que, com 16 anos, saiu com uns amigos pra roubar pera do pomar do vizinho. Modelo Chico Bento mesmo.
Só que peraí, tem um detalhe: ele escreve isso já velho, olhando pra trás pro moleque que ele foi. Não é confissão de adolescente. É um cara maduro remoendo uma pera.
Aí eles roubam todas as peras. E jogam fora.
Não comem nenhuma. O cara escreve, séculos atrás, que fez aquilo pelo puro prazer de fazer o errado. Não tava com fome. Não queria pera.
Caraca.
E tem outra que o Tinoco soltou de passagem, a coisa mais humana que eu ouvi essa semana. O Agostinho pedia pra Deus torná-lo uma pessoa melhor. Mas não hoje.
Eu me identifiquei rápido demais com essa.
"Eu trabalho pra caralho e não tenho direito nenhum de reclamar"
Aí ele me trouxe o Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha que escreveu a Sociedade do Cansaço.
O resumo tosco: talvez a vida não precise ser útil. Essa pira de evoluir sempre, nunca descansar sem culpa, talvez seja o problema.
E o papo virou pessoal, porque ele perguntou se eu consigo viver o presente.
Abri o jogo. Tô num setembro filho da puta. Dez programas na semana, montagem no sábado, ensaio no domingo, debate na segunda. E falei a coisa mais honesta que eu disse no episódio: eu não tenho direito de reclamar, porque eu construí isso.
Esse cansaço aqui eu encomendei. Eu pedi e agi, tá ligado?
Tem hora que eu penso que queria ter ido pra praia. Que queria viajar com minhas filhas. Mas eu tô exatamente no lugar que eu trabalhei pra estar.
O Tinoco cutucou de volta: e aí o trabalho vira tua vida inteira.
Vira. No meu caso é escolha. E tem uma parada que me segura no chão: não existe estabilidade nisso aqui. Se eu sumir três meses, voltar já é difícil. Se eu sumir três anos, sei lá se volta.
Então baixa a bola, né.
Oito anos postando vídeo sem chegar a mil inscritos
Essa é a parte que mais serve pra tu, na moral.
O Tinoco faz vídeo desde 2015. Ele tinha 14 anos. E passou oito anos sem bater mil inscritos.
Oito, mano.
O que virou foi o TikTok estourar na pandemia com ele já tendo sete anos de estrada. Ele levou o público de lá pro YouTube. Chama isso de sorte?
Eu falei que o TikTok sempre ia existir. Se não fosse ele, ia ser outra coisa. A plataforma chega. O que não chega sozinho é o cara com sete anos de repetição nas costas pronto pra usar.
É igual quando tu compra um carro e de repente começa a ver aquele modelo em toda esquina. Não apareceram mais carros. Tu que tá enxergando agora, tá ligado?
No fim das contas, sorte é a oportunidade passando na frente de quem já tinha feito o dever de casa.
A hora em que eu perguntei e ele falou que não ia responder
Teve um momento que eu achei o mais honesto do episódio inteiro.
A gente discutia se dá pra mudar o ambiente ou se a maioria só corre na rodinha de hamster pra pagar o aluguel. Eu argumentei que a jogada acaba sendo trocar de ambiente em vez de consertar aquele.
Aí eu joguei: e como o niilismo se encaixa nisso?
E o Tinoco falou que não sabe. Que não é prepotente o suficiente pra responder aquilo.
Cara, eu respeitei mais ele nessa hora do que em qualquer outra do programa. Porque é muito mais fácil inventar uma resposta bonita.
E foi daí que saiu o que eu levei pra casa. Ele falou pra não se apegar a ideias. Ideia é pra passar. Ele mesmo assiste o episódio que gravou aqui há dois anos e discorda de si mesmo.
Falei que isso é desconfortável pra caralho. Como assim tu não tem convicção nenhuma?
Ele ajustou: pode ter, sim. O ponto é que a conclusão número zero, aquela que vem antes de todas, tem que ser "tudo isso aqui pode mudar". Aí tu constrói o resto em cima.
O que eu anotei desse papo
Cara, eu anotei bastante, como sempre.
Levei a do "não se apegue a ideias", porque eu tenho a mania de achar que já resolvi um assunto. E levei a mais barata de aplicar e a mais difícil de fazer.
Toda vez que tu for tomar uma decisão, pergunta: será que eu tô errado?
Serve pro filme que tu vai escolher com tua mulher e serve pro que tu acha que o Alexandre de Moraes falou. Na hora que tu faz essa pergunta, tu sai do piloto automático. Filosofia pura, primeira aula.
O meu primeiro choque desses veio tarde. Eu já trabalhava na Cultura Inglesa e fui trocar uma ideia com uma colega mineira que pensava o oposto de tudo que eu ouvia onde eu morava. Saí de lá de cabeça virada. Eu não imaginava que o outro lado era capaz de fazer sentido.
O Tinoco teve o dele mais novo, pela internet, sacando que existia gente discordando da mãe dele. E que essa gente podia estar certa.
Se não servir pra resolver nada grande, serve pra segurar a resposta automática na próxima treta de grupo de WhatsApp. E vai por mim, isso já muda muita coisa.
Ah, e tem surpresa: a gente já gravou uma série de cinco vídeos junto, Flow com Tinocando TV, e o primeiro já tá no ar. Link na descrição.
O papo completo tá lá no canal:
Dá o like, comenta aí qual filósofo tu quer ver destrinchado na série e manda no grupo da família. No da igreja também, que esse rende.
Obrigado pela moral, Tinoco.
A gente se vê depois.