
Tu já entrou numa briga na internet defendendo alguém, se sentindo o cara mais certo do mundo, e dois dias depois parou, releu o que tu escreveu e pensou "porra, o que que eu tava fazendo"?
Eu já. E é exatamente por isso que esse papo aqui me pegou.
Porque o Leo Stronda sentou nessa mesa no meio de uma polêmica com a galera do fisiculturismo, e eu esperava que ele viesse sustentar o barraco. Ele veio fazer o contrário.
E o papo abriu pra um monte de coisa: como ele construiu 70 academias em dois anos, por que passou três anos sem pegar um real de um patrocínio já assinado, e um mês no Japão em que perdeu 9 kg e achou que valeu a pena.
Bora.
A treta, explicada pra quem não é da bolha
Primeiro o contexto, porque se tu não é do meio, tu não tem obrigação de entender.
O Mister Olympia é a Copa do Mundo do fisiculturismo, e a transmissão sempre foi pay-per-view pago. Nunca foi direito de patrocinador nenhum decidir isso.
Aí começou a rodar na internet que a marca que patrocina o evento é que estaria segurando a transmissão fechada. Segundo o Leo, é o oposto: a negociação pra liberar a live de graça vem sendo tentada desde 2020, 2021, e esse ano saiu.
Ele ficou puto e gravou um vídeo. E aí veio a enxurrada de comentário dizendo que ele tava defendendo a marca que teria mandado expulsar ele do Olympia anos atrás.
Isso também não bate, e eu chego lá.
"Eu criei a briga e no final do vídeo pedi união"
Agora a parte que eu não esperava.
Ele parou no meio do papo e pediu desculpa pro próprio público. Falou que a reação foi impulsiva, sanguínea, que levou pro pessoal e que não precisava.
E aí veio a frase que ficou aqui comigo. Ele falou que foi hipócrita. Porque o vídeo era uma reclamação sobre desunião no meio, e no final ele fazia um apelo pra galera se unir. Só que no mesmo vídeo ele foi justamente quem criou a contenda.
Ele resumiu assim: o país inteiro em crise, todo mundo pensando em como vai pagar as contas, e ele brigando na internet pra decidir quem assinou qual contrato.
Porra.
Sabe quantas vezes eu vi alguém fazer isso em público? Quase nenhuma. Todo mundo dobra a aposta.
E o mais interessante é o que fez ele parar. Não foi ninguém da mesa dele. Foi o público, comentando que ele tinha razão mas não precisava.
Ele foi expulso do Olympia com ingresso comprado do próprio bolso
Já que a gente tava falando disso, eu puxei a história antiga.
Uns meses antes, ele tava num palco de uma federação concorrente, contratado pra um show. O dirigente de lá subiu, pegou o microfone e falou mal da federação do Olympia. O Leo tava do lado, ficou quieto, tentou amenizar e seguiu o show.
E a conta caiu no colo dele.
Quando ele foi pro Olympia, já estava combinado que ele ia ser barrado. Ele não tinha contrato com ninguém, não era convidado, comprou o ingresso como qualquer pessoa. E ele diz que ouviu um áudio de alguém da federação falando pra deixarem ele vir, gastar o dinheiro dele e assistir do sofá.
Isso é o que mais dói. Não é a expulsão, é a torcida contra.
Só que tem a outra metade, e ela é boa. O cara que organiza o evento não mandou recado. Foi pessoalmente, olhou no olho dele e disse que ele tava sendo expulso porque ele queria. Sem grito. E tempos depois chamou o Leo de novo pra pedir desculpa e assumir que errou.
O Leo aceitou na hora. Falou que respeitou porque o cara veio como homem nas duas vezes.
Cara, é isso. O problema nunca foi a discordância, foi o bilhete anônimo.
Três anos sem pegar um real
E aí veio o bloco que eu mais anotei, porque é aula de negócio.
Em 2012, 2013, a palavra "influenciador" não existia. As marcas de suplemento patrocinavam atleta campeão e ponto. O Leo era cantor, tinha um físico e falava de fisiculturismo, e uma marca apostou nele. Foi a primeira contratação do tipo no Brasil.
Aí olha o que ele fez.
Pediu pra empresa não pagar o cachê pra ele. Pediu pra pegar aquele dinheiro e reinvestir em publicidade com a cara dele. Banner, outdoor, vídeo. Três anos assim. O raciocínio: ele já ganhava bem com show, então aquele valor não mudava a vida dele, mas mudava o tamanho dele num mercado onde queria virar referência.
E aí veio a segunda jogada, mais esperta ainda.
Ele pegou a própria agenda de shows e transformou em máquina de venda. Ia tocar em Goiânia no sábado? A marca avisava os lojistas da cidade: quem comprasse mais, ganhava a presença dele na loja. Ele já ia estar lá, então não tinha passagem, não tinha hospedagem, não tinha custo.
Virou comissionado. Zero real saiu do bolso da empresa antes da venda acontecer.
Lojista vendo 3.000, 5.000 pessoas na porta querendo autógrafo. Faz sentido, saca? Deu quatro, cinco anos disso.
"Você não vale o que você ganha"
Depois vieram oito anos numa outra marca, e a saída foi por uma frase.
O Leo tava pedindo orçamento pra montar uma equipe de conteúdo, porque a empresa tinha acabado de perder dois criadores grandes e ia ficar sem produção. Não era aumento pra ele, era time.
E o executivo novo sentou na frente dele e falou que ele não valia o que ganhava, e que queriam diminuir.
Ele diz que nem foi uma conversa acalorada. Foi tudo em tom calmo. Ele só respondeu que então não fazia mais sentido, e saiu.
E aqui tem uma coisa que eu acho importante: ele tinha proposta de outra marca pagando o dobro. Não foi pra lá. Voltou pra primeira, a que tinha apostado nele em 2012.
Cara, se tu sai de um lugar e a porta de onde tu começou ainda tá aberta dez anos depois, isso diz mais do que qualquer número de contrato.
As cinco primeiras pessoas que entraram na academia dele
E aí tem o negócio de hoje, que é o que mais cresceu.
São mais de 70 unidades em dois anos, e ele diz que 80% inauguram no verde. Tem franqueado com seis unidades. Ele vendeu a parte dele nas academias próprias pra não se afogar em obra e fornecedor e cuidar só da marca.
A gestão é um mundo que eu não conhecia. Ele paga uma ferramenta americana de geomarketing: tu joga um endereço e ela devolve quantas farmácias tem no raio, quantos condomínios, quanta gente passa a pé, de carro, de bicicleta. A partir disso ele decide qual dos três formatos de academia abre ali.
E teve uma frase que resume o negócio inteiro: a melhor academia do mundo é a mais perto da tua casa. Pra alguém pegar 20 minutos a mais de trânsito, a tua tem que ser muito melhor que a do vizinho.
Mas o que me pegou foi outra coisa.
Quando ele abriu a primeira, no Rio, ficou apavorado com o nome. Fábrica de Monstros. Achou que só ia entrar marombeiro e que ia dar 60 alunos.
As cinco primeiras pessoas que se cadastraram e entraram pela porta foram cinco mulheres. Três idosas e duas obesas. E abraçaram ele agradecendo por ter aberto uma academia daquele nível perto da casa delas.
Todas as cinco melhoraram. Ele contou isso e a voz mudou.
Perdeu 9 kg no Japão e achou que valeu a pena
Pra aliviar, porque o papo tava ficando denso, eu puxei a viagem.
Ele passou um mês no Japão e voltou 9 kg mais leve, porque quase não treinou e porque a comida de restaurante de lá tem pouquíssima proteína. Vivia de conveniência: ovo cozido pronto, onigiri, barrinha de frango.
E não se importou. Falou que queria viver o país.
A primeira coisa que fez foi ir na casa onde o criador de Dragon Ball morou. Porque foi Dragon Ball que fez ele querer ficar forte, quando era criança e ia fazer barra com o pai só pra ficar igual o personagem.
Tu já parou pra pensar nisso? Uma das maiores marcas do fitness brasileiro nasceu de um moleque assistindo desenho.
Teve a parte chata também: chegou na academia e mandaram cobrir as tatuagens, porque lá aquilo ainda é associado à máfia.
E teve a parte doida. Ele foi caçar cobra peçonhenta de madrugada no mato com um brasileiro que mora lá e cria bicho dentro de casa, incluindo um jacaré e um corvo criado junto com os cachorros, que acha que é cachorro.
Levou a esposa junto. Claro que levou.
Aí eu chamei ele de cheater
Pra fechar, a parte onde a gente discordou, e eu acho que é a melhor do papo.
O Leo é cristão convertido e fala disso abertamente. E ele soltou uma frase que eu anotei: o poder da liberdade não tá no que tu faz, tá no que tu não faz.
Aí eu provoquei. Falei que ele é cheater.
Porque ele viveu tudo. Teve o auge da música com 15 anos, teve o dinheiro, teve os excessos, e só depois renunciou. Aí ele chega pro moleque que não viveu nada disso e diz que não vale a pena. Como é que convence?
Ele devolveu que enxerga honra justamente aí. Que o cara que vai pro fundo do poço e se agarra em Deus é uma história, e que quem tinha tudo e largou porque quis é outra.
E aí a gente foi pra criação do universo, que é um papo que eu adoro. Eu falo que pra mim Deus é a regra, é de onde saem as constantes que fazem tudo isso aqui ser possível. Ele devolveu que pode até ter sido uma explosão, mas que isso não elimina Deus, é só o modo de operar dele.
A gente não fechou. E tá tudo bem, porque não era pra fechar.
Ele emendou uma que me calou: querer ter certeza absoluta sobre tudo isso te afasta do que tu tem que fazer hoje. O que muda a tua vida é a escolha de agora.
O que eu levei desse papo
Anotei minhas coisinhas, como sempre.
Levei o pedido de desculpa, que é a parte mais rara. Não porque ele errou, todo mundo erra. É porque ele parou no meio da própria narrativa e disse que tinha sido hipócrita, com a câmera ligada.
Levei a jogada dos três anos sem pegar dinheiro. Tem gente que chama isso de investir em si mesmo. Eu acho que é outra coisa: é ter paciência num mundo que não tem nenhuma.
E levei a cena das cinco mulheres na porta da academia. Porque o cara passou a vida inteira querendo ser o ícone de um esporte de gigante, e o que mudou o jeito dele de olhar foi três senhoras e duas mulheres obesas dizendo obrigado.
No fim das contas é sempre isso, né?
Se não servir pra tu no treino, serve pra próxima vez que tu for entrar numa briga na internet que não é tua.
O papo completo tá lá no canal:
Dá o like, comenta aí qual desenho fez tu querer alguma coisa na vida, compartilha e manda no grupo da academia.
A gente se vê depois. Tchau.