"Impossível pagar": Raul Sena explica o sistema financeiro

Raul Sena voltou no Flow e abriu o jogo sobre juros, bets, Banco Master e STF. Teve hora que eu chamei ele de doente. Corre ler.

Raul Sena é o convidado de Igor 3K no Flow Podcast #651
Foto: Divulgação/Flow
Raul Sena é o convidado de Igor 3K no Flow Podcast #651

Raul Sena voltou aqui na mesa do Flow . Segunda vez. E me sacaneou antes de eu terminar a apresentação: quando o convidado vem uma vez só é porque deu merda. Filho da p*ta.

Eu não manjo porra nenhuma de mercado financeiro, tá ligado? O combinado foi ele falar e eu interromper até entender.

Teve o Banco Master explicado com o Flow de cobaia. Teve a conta das bets, que não fode só quem aposta, fode a minha empresa também. E teve uma cena no centro de São Paulo que fez ele voltar pra Goiás.

A gente conseguiu uma coisa que nem país em guerra consegue

O Copom tinha acabado de cortar 0,25 e botar a Selic em 13,75%. Quinto corte seguido. Eu falei que pelo menos é melhor que aumentar. Ele riu da minha cara.

Porque pro empresário isso muda quase nada, saca? Tu tava pagando 28,65 de juro, agora paga 28,30. E em 2020 a taxa daqui foi a 2%. Dois.

Vice-campeões mundiais, ele disse. Tem país em guerra com juro melhor que o nosso, né?

Mas o ponto dele não é o juro. É o que a gente faz com o dinheiro. Ferrovia produz depois, vale-gás tu queima e acabou. Só que ninguém faz projeto que rende em 30 anos precisando de resultado em dois. Daí a pergunta que eu fiquei repetindo sozinho depois: tem como assinar teu nome num cano de esgoto?

Não tem. Por isso o poste aqui é virado pra fora.

E aí veio a que me virou do avesso. Ele adoraria que o problema daqui fosse corrupção, porque se fosse só isso os caras fariam obra grande, país grande, tudo pra ter mais de onde tirar.

Não é que roubam. É que roubam mal.

Aí ele contou um papo de bêbado que teve na China, e aqui eu preciso ser claro: a tese é dele, não minha. Ele quis dar uma lacrada num chinês, falou que lá ninguém escolhe quem manda. E o cara devolveu uma que o Raul não rebateu: se fosse esse o sistema lá, ele, bêbado daquele jeito, votaria no primeiro que prometesse 500 pila pra beber.

O Raul saiu de lá achando que o doido é a gente. E resume o coeficiente eleitoral assim: tu vota no palhaço e elege o marginal.

Eu não fui junto. Falei na cara dele que isso é conclusão grande demais pra caber numa mesa de bar em Xangai. Ele não recuou. Seguimos discordando.


As bets não ferraram só quem aposta. Ferraram a minha empresa aqui

Essa parte me pegou no bolso.

A lei que liberou aposta de quota fixa é de 2018, e segundo ele ninguém que votou respondeu por nada: família endividada, gente se matando, jogo de futebol que tu não sabe mais se tá limpo.

Mas a conta que ele fez foi outra. Pensa que o mercado de publicidade tinha 100 reais. Chegaram as bets e o bolo virou 125. Só que os 100 de quem vende produto de verdade viraram 70. Por quê? Porque eu, pra vender um pack de água, tenho que fabricar, encher a lata, entregar na tua casa. A bet entrega o quê? Uma tela. E pode pagar 500 pila pra te adquirir, porque tu vai perder dois mil.

Aí o custo de anunciar subiu pra todo mundo, e o dinheiro vai embora: paraíso fiscal, dois funcionários, nenhum garçom.

Ele comparou com o jogo do bicho, que segue ilegal. O tiozinho da banca junta o dinheiro do bairro, alguém do bairro ganha, o resto ele gasta na mercearia dali. Circula. E o tiozinho vai preso. A bet nas Bahamas patrocina a camisa do teu time.

Olha o tamanho disso.

Ele comprou metade do Flow por 50 milhões e vendeu pra ele mesmo por 500

Aí eu puxei o Banco Master. E cara, ele explicou usando o Flow de cobaia, com o Jean rindo atrás da câmera.

Funciona assim, na versão dele. O banco emite CDB pagando 130% do CDI, taxa que ninguém honra de pé. Com esse dinheiro ele chega aqui e fala: "Igão, quanto vale esse boteco? Cem milhões? Compro metade por cinquenta." Três meses depois vem outro fundo, do mesmo dono, e compra aquela participação por dez vezes mais. O Flow agora "vale" um bilhão, os cinquenta viraram quinhentos no balanço, e com esse papel dá pra emitir mais CDB.

Dinheiro que não existe comprando dinheiro que não existe.

E aí veio a frase que eu não queria ter entendido: é matematicamente impossível quitar as dívidas desse país. Tu deposita dez no banco, o banco empresta sessenta. Se todo mundo fosse pagar no mesmo dia, esse dinheiro não existe.

Eu perguntei como é que essa porra fica de pé. Ele: fica porque ninguém puxa.

E o desfecho, na tese dele, é seco. O cara cometeu o único erro que não se comete no Brasil, que é roubar de banqueiro: quem pagou a conta foi o Fundo Garantidor de Créditos, que é privado. Itaú, Bradesco, Santander, BTG, todo mundo. Ninguém arruma confusão com todos os banqueiros do país e sai da cadeia.

"Tu é completamente doente, Raul"

Essa frase é minha, na cara dele. Ele gostou.

Ele defende que ministro do STF devia entrar por concurso. Pesado, tipo Itamaraty, salário alto pra não compensar roubar, mandato de cinco anos, sem rede social, sem entrevista, sem comentar caso na TV. Decide calado e vaza.

Beleza, até aí eu acompanho. Aí veio a segunda parte.

Pra ele, a única forma de o Congresso aprovar moralização é oferecendo anistia geral. Passa a régua em tudo até 2026, ninguém investiga pra trás, e a regra nova vale daqui pra frente. Porque nenhum deputado vota lei que pega nele mesmo.

Foi aí que eu chamei ele de doente. E ele: não sou doente, tô pensando num jeito que funcione, porque o que eles falam que vai resolver não resolve.

Sobre o contrato do Banco Master com o escritório ligado à família de um ministro do Supremo, ele foi específico: o que choca não é o valor, é o que tá sendo comprado ali, que pra ele é proximidade. Eu discordei na hora. O valor choca, sim, quando tu olha o trabalho entregue e tem coisa escrita errada.

Ele não me convenceu e eu não convenci ele. Tá valendo.

Jogaram criolina no chão pra mendigo não dormir

Agora a parte que mudou o clima na sala.

Ele morou em São Paulo em 2019, perto da República. Primeiro dia, viu lixo na calçada onde o povo come e ligou pra prefeitura. A produtora inteira riu dele. No dia seguinte tava limpo e ele saiu mandando foto pra todo mundo, tipo criança.

Dois dias depois sentiu um cheiro forte na rua e foi perguntar pro cara do salgado que merda era aquela.

Era criolina. Jogada no chão pra morador de rua não conseguir deitar ali.

Ele falou que foi a coisa menos civilizada que já ouviu na vida. E fez questão de dizer que não tava julgando o cara do salgado, que também tem o problema dele. Só que não deu conta. Voltou pra Goiás.

Teve também a noite em que foi andando pra casa e caiu no meio de uma cracolândia. Um maluco começou a gritar que ele era policial por causa do sapato. Tinha gente armada. Quem tirou ele de lá foi uma travesti, que pegou na mão dele e disse que era cliente antigo.

Ele contou rindo. Eu não achei graça nenhuma.

E sabe o que mais me incomodou? Uma que ele falou de passagem: aqui a gente levanta da mesa do restaurante e dá um baculejo no próprio corpo pra ver se tá tudo no lugar.

Tu faz isso. Eu faço todo dia e já nem percebo mais.

O irmão dele comprou dez ar-condicionados e quase levou dois tiros

Pra não terminar com o nó na garganta, ele emendou uma do irmão. Também não é leve, mas tem outro sabor.

O irmão é doutor e escolhe dar aula em escola pública, por vocação. Fez uma horta pra molecada levar hortaliça pra casa e a prefeitura arrancou tudo. Depois foi pra secretaria de educação, montou uma planilha que travou o desvio das verbas e começou a receber ameaça.

O Raul ficava de madrugada tentando convencer o cara a largar. E aí, num colégio quilombola onde os alunos passavam mal de calor, o irmão ligou pedindo ajuda. Ele achou que ia ser um ar-condicionado. Dois, no máximo.

Foram dez. Pagos do bolso.

O jeito que ele fechou resume o episódio: esse tipo de gente não quer virar político, quer resolver com a mão.

E depois, pra não passar vergonha de ter se emocionado no ar: "salve, Caio. Mas não presta não, é comunista."

O que eu levei desse papo

Antes de fechar ele cravou um alerta: o split payment cobra o imposto na hora em que o dinheiro cai na conta, e pega quem hoje é isento na prática e não na lei. Taxista, diarista, a tia do biscoito.

Aí eu perguntei se dá pra sonhar que essa porra melhora. Depois de duas horas demolindo tudo, ele disse que tem certeza que sim.

O argumento é esse: a geração nova de político, dos dois lados, acredita no que tá falando. Ele citou nome de gente que odeia e de gente em quem votaria, e disse que o que importa é que nenhum deles tá de sacanagem. Porque com quem tá de sacanagem tu apresenta o melhor argumento do mundo e não muda nada. Quem não tá, pode ser convencido.

Pois é. A esperança dele não é que os caras concordem. É que eles ainda possam mudar de ideia.

Eu anotei um monte, como sempre. Levei a conta das bets, que eu uso em reunião essa semana. E levei a do Caio, a mais difícil de aplicar e a única que interessa: tem gente que resolve o problema com a mão, sem plateia.

Ah, e ficou uma imagem. Eu falei que o gênio já tinha saído da lâmpada. Ele corrigiu: gênio tu enfia de volta, o certo é pasta de dente. Tu aperta o tubo e não puxa mais.

Papo completo tá lá no canal: 


Dá o like, comenta aí se tu acha que o split payment vai dar merda e manda no grupo do trabalho, que esse aqui rende discussão.

Muito obrigado pela moral, Raul. A gente se vê depois.