Monja Coen e Pondé no Flow: mentira, morte e um urso de 700 kg

A Monja Coen e o Pondé sentaram no podcast pra falar de mentira, verdade e morte. E a luz caiu na hora exata que ele falou "cemitério"

Monja Coen e Pondé se encontram no Flow para uma conversa que foi da filosofia à vida real — e passou até por um urso de 700 quilos
Foto: Foto: Divulgação
Monja Coen e Pondé se encontram no Flow para uma conversa que foi da filosofia à vida real — e passou até por um urso de 700 quilos

Fala, galera.

Deixa eu te perguntar uma coisa antes de tudo: tu já entrou num Uber, o motorista puxou papo e tu ficou só concordando com tudo pra ver se o assunto morria? Concordando com coisa que tu nem acha? Pois é. Eu também.

E olha que eu ganho a vida conversando.

Esse foi o pontapé do papo que eu tive com a Monja Coen e com o Luiz Felipe Pondé aqui na mesa do Flow . Os dois voltaram. E eu confesso uma parada: quando começa o programa com esses dois, eu me sinto meio intimidado.

As carecas brilhantes, mano. Falei isso na cara deles logo de cara, porque é verdade.

O papo foi pra mentira, pra verdade, pra política, pra túmulo privatizado (sim, isso existe), pra cremação e pra urso polar de 700 quilos. E teve uma hora que a luz do estúdio caiu. Na palavra exata. Já chego lá.


Como eu sou um cara que não manja porra nenhuma de filosofia, meu papel ali é puxar o fio e traduzir. Bora?

A mentirinha do bem existe? A Monja tem uma história sobre isso que me deixou sem chão

O Pondé abriu contando que odeia quando alguém solta uma pergunta cabeça nele num jantar. Chega o cara com "professor, me fala do zen budismo" e ele quer só comprar o pão dele em paz. Aí ele disse que tem uma vantagem na vida: as pessoas já esperam dele apenas ignorância.

Mentira dele, mas beleza.

Aí eu perguntei se ele mente no Uber . Ele: dá uma enrolada, concorda com tudo que der pra concordar, pra ver se o assunto acaba. Eu faço igual. Tu faz igual. Todo mundo faz.

E aí a Monja contou uma que me pegou.

Ela tava num laboratório acompanhando a filha. Uma mulher olhou pra ela, careca, e falou: "eu também já tive câncer como você". Emendou que já fazia 11 anos, que tava ótima, que ela ia ficar bem também. Depois entrou no elevador com a unha vermelha bonita, comendo um pão de queijo.

A Monja é monja. É careca porque é monja. Não tinha câncer nenhum.

E sabe o que ela fez? Ficou quieta. Deixou a mulher ir embora achando que tinha consolado alguém.

"O que que eu ia falar?", ela disse.

Teve um taxista também que parou o carro um pouco antes de chegar e falou que ia rezar pra ela sarar. Ela agradeceu a prece e não corrigiu nada. O Pondé lembrou do Nelson Rodrigues : mintam, mintam por misericórdia.

Só que aí a Monja virou a chave e falou que mentir nunca é bom. Nem quando te dá vantagem. Principalmente quando te dá vantagem. Porque a real é que não é mentindo que tu progride na vida e falar a verdade é mais simples, dá menos trabalho.

Duas coisas que parecem se contradizer e não se contradizem. É por isso que eu chamo esses dois aqui.

Tá, mas o que que é verdade?

Aí eu joguei a bomba na mesa.

Eu tenho a minha teoria de ogro e falei ali mesmo: pra mim existem umas regras no universo que se repetem. Gravidade. Velocidade da luz. Isso aqui é uma mesa de madeira e veio de uma árvore, não interessa muito o que tu acha disso.

A verdade não liga pro que a gente acha dela. E pra mim verdade, Deus e "tudo" são a mesma coisa: a origem da regra que torna tudo possível.

A Monja topou a parte de que a verdade não liga pra nossa opinião.

O Pondé veio com a versão de quem dá aula disso há décadas: desde a Grécia, verdade é uma das coisas mais difíceis de estabelecer. E aí ele deu o exemplo que usa com aluno de jornalismo. Fulano caiu do sétimo andar: isso é fato. Se pulou, se empurraram, se tava deprimido: já é interpretação. E se a vida de jornalista fosse fácil desse jeito, tava boa.

Ou seja, é tipo lance de VAR . O pênalti aconteceu, isso é fato. Se foi mão proposital ou se a bola bateu, aí o Brasil inteiro briga no grupo do WhatsApp até domingo que vem.

Aí eu puxei pro tema mais espinhoso: matar. A Monja falou que matar é sempre errado, e que até quem mata sabe que é errado. Lembrou daquela policial aqui em São Paulo que atirou na perna do bandido e levou tiro no peito. Morreu.

E ela fez uma separação que eu anotei: poder fazer e achar certo são duas coisas diferentes. Às vezes tu tem que fazer um troço contra o que tu acha certo. Não vira certo por isso.

Faz sentido, saca?

"Não espero nada da política" não é frase de louco. É frase de antigo

Já que a gente tava falando de certo e errado, o papo escorregou pra política. E o Pondé soltou uma que virou minha cabeça do avesso.

Grego e romano antigo não achava que regime político existia pra melhorar o mundo. Existia pra segurar o mundo e não deixar ficar pior do que já é. Só isso. A ideia de que política melhora a humanidade é do século XVI pra cá. É novidade.

Então quando o cara fala "eu não espero nada da política", ele não tá sendo cínico nem burro. Ele tá sendo antigo.

E o Pondé emendou: se não piorar, já é uma grande coisa.

A Monja puxou o contraponto, porque ela sempre puxa. Citou o livro do Cortella, Política para não ser idiota, e disse que quem fala "não tenho nada a ver com isso" tá se enganando, porque a vida inteira é relação política. Com vizinho, com família, com sócio. Tu cede aqui pra ter harmonia ali.

Eu falei que pra ter harmonia de verdade no mundo a gente ia precisar de uma evolução espiritual global. Tipo, se existisse uma escala de benevolência de 0 a 10, a média da espécie precisava ser 7.

O Pondé, sem piedade: "nota sete pra aluno vagabundo é muito alta".

Pois é. A espécie é vagabunda.

Eu não sabia que tinha burocracia depois da morte

E cara, aí veio uma história que me deixou de queixo caído.

A Monja herdou um túmulo da família do pai. Só que as funerárias foram terceirizadas e agora tem taxa, tem manutenção, tem uma espécie de condomínio. Condomínio de túmulo, mano.

A saída seria tirar os restos mortais e cremar. Só que tem três parentes enterrados ali desde 1974. E pra fazer isso ela precisa de ordem judicial. E pra ter ordem judicial ela precisa de atestado de óbito de gente que ela não sabe nem onde está, filho de uma tia que sumiu do mapa.

Ela precisa de advogado pra liberar um túmulo.

E antes disso ela já tinha soltado a frase que eu vou levar pra vida: enquanto a gente precisar de advogado, o mundo não andou. Porque advogado é a prova de que a gente ainda desconfia um do outro. (E olha que a gente usa advogado pra caramba aqui no Flow, então eu tô me incluindo na conta.)

Nem depois de morto tu tem sossego. É foda.

Saco no rio, urna de cobre e os ossinhos que cortaram o dedo dela

O papo foi pra cremação e cada um ali tinha a sua.

Eu contei a do meu pai. Ele falava, do jeito dele: "quando eu morrer, enrola num saco e joga no rio". E ele tava falando do rio Surui, mano. Eu não achei boa ideia na época e continuo não achando. Mas o ponto dele era esse: ele não tinha amarra nenhuma com a casca.

O Pondé contou da irmã, que morreu jovem e foi cremada. E ele foi honesto de um jeito que só ele: no dia, parecia que faltava alguma coisa. Ele mesmo acha que isso é costume cultural, não teologia. Hoje ele prefere que as pessoas próximas sejam enterradas, pra ele saber onde elas estão. E emendou, rindo, que não garante que ia visitar.

A Monja... essa parte é linda. O pai dela pediu cremação. A irmã mais nova queria jogar as cinzas num parque e ela falou que não, porque na tradição japonesa a gente guarda. Então ela arrumou uma urna de cobre verde em formato de livro, porque o pai amava livro.

E aí ela avisou uma parada que eu não sabia: aqui no Brasil não vira cinza fina. Vira pedacinho de osso. Ela abriu pra mexer e cortou o dedo.

Cortou o dedo no próprio pai. Tu imagina isso?

Ela contou ainda que no Japão é todo mundo cremado porque não tem mais espaço, as cinzas vão pra templo e as pessoas vão lá rezar como se fosse túmulo. E que no Tibete, onde é muito frio, o corpo é desmembrado e os pássaros levam. Brasileiro acha um absurdo. Lá é o normal.

E é isso que me pega até agora: quanta coisa que a gente jura que é opinião própria é só o lugar onde a gente nasceu?

Pausa pro urso polar, porque eu precisava respirar

Bom. Depois de três blocos falando de morte, deixa eu te contar do urso polar, que foi como eu respirei ali.

Os dois se conheceram... na real, se reencontraram no Ártico. Foram convidados pra falar sobre o tempo, andaram de barco, ficaram uns 10 dias.

E o urso polar é um bagulho insano. Não hiberna que nem o urso marrom. Vive sozinho, tipo eremita, tipo monge que sobe a montanha e não desce mais. Uns 3 metros quando estica. 700 quilos . A pata dele são quatro palmas de mão humana.

E o detalhe que me arrepiou: ele não te vê como predador. Ele te vê como comida.

Lá tu não sai de casa sem arma, e nem é necessariamente pra matar, é pra fazer barulho e espantar o bicho. A Monja contou de um vídeo de um cara numa cidadezinha abandonada que viu um urso, jogou a arma longe e saiu correndo. Jogou a arma longe, mano.

Ah, e no verão é dia o tempo todo. Tu fecha uma cortina blackout e inventa a noite.

Teve também uma sacada da Monja que eu levei como recado pessoal: o urso come foca porque precisa de gordura e o cérebro se alimenta de gordura. Ela falou "cuidado com a magreza excessiva, que o cérebro começa a falhar". Eu, aqui com quase 40 e o corpo reclamando de tudo, anotei na hora.

O cara que foi salvo pela mãe mandando ele à merda

E aí o Pondé começou a falar do Cioran . Romeno, morou na França, morreu em 95. Antinatalista, achava que ter filho era imoral, escreveu um livro chamado Do inconveniente de ter nascido. O título já entrega tudo, né?

Ele tem uma frase mais ou menos assim: o que ele sabia aos 60 já sabia aos 20 e os 40 anos do meio foram trabalho inútil de verificação.

Eu discordo dele pra caralho. Mas segura, porque a história é boa.

O cara tinha uma insônia braba na juventude. Passava a noite andando no cemitério da cidade, pensando no sentido da vida, no mal, no pra onde tu vai quando morre. Um dia, com 17 anos, ele chega em casa de manhã, se joga no sofá e faz o drama: "não aguento mais".

A mãe dele, ocupada fazendo mil coisas, olha pra ele e solta: "se eu soubesse que você ia sair desse jeito, eu te abortava".

O Pondé falou que foi ali que a mãe libertou o cara.

Porque ele entendeu, naquele segundo, que ele só existia porque ela quis. Que tudo é contingência. Que bastava aquele dia ter sido outro dia, aquele encontro não ter rolado, o avô não ter cruzado com a avó... e nada disso existiria.

Ou tem uma divindade fazendo cálculo o tempo inteiro pra tu estar aí lendo isso agora ou é o acaso mais absurdo do universo.

Eu voto no primeiro. Mas as duas hipóteses me deixam de boca aberta igual.

E o cara não virou um deprimido de sofá, não. Virou escritor e os franceses chamavam ele de aristocrata da dúvida. Um dia ele recebeu uma carta de alguém dizendo, mais ou menos: eu ia desistir de tudo, li teu livro, mudei de ideia, obrigado.


Pensa que loucura. Um livro sobre o inconveniente de ter nascido segurando alguém aqui.

A Monja tem a versão dela dessa história. Um homem chegou nela numa loja em Poços de Caldas, ela comprando queijo, falou que ia matar uma pessoa e não matou por causa dela.

E aí a luz caiu. Na palavra exata.

Agora vem a parte que eu ainda não sei explicar.

O Pondé tava contando essa história do Cioran e, no exato momento em que ele falou "cemitério", a luz do estúdio apagou.

Não foi um piscar. Apagou.

Todo mundo riu e aí ele resolveu testar: repetiu "cemitério" de novo pra ver se acontecia. Nada. A luz continuou lá, de boa, se fazendo de desentendida.

Eu falei pro Pondé no fim do programa: da próxima vez, evita falar cemitério aqui. Ele, que se define como ateu não praticante, achou graça.

E é justamente isso que eu acho mais foda no cara e eu falei isso pra ele na cara. Ele é capaz de pôr a própria ideia à prova. Ele não tá ali defendendo bandeira, tá ali olhando. Se aparecer coisa melhor, ele olha.

Na moral, eu tenho até pena do cara que sente orgulho de ser o mesmo há 10 anos. Que desperdício, mano. Dez anos que dava pra ter experimentado alguma coisa.

Ichigo ichie: esse encontro aqui não se repete

Pra gente finalizar.

Teve um momento no meio do papo que eu não larguei mais. A Monja contou que tava dando uma palestra e viu um moleque bocejando na plateia. Ela parou e falou pro menino que queria que ele acordasse, que aumentasse a potência dele como ser humano, porque aquele encontro era único e talvez nunca mais se repetisse.

E ela deu o nome disso em japonês: ichigo ichie . Cada coisa acontece uma vez.

Cara. É isso.

Eu não sei quando eu sento de novo com esses dois. Ninguém sabe. Meu pai tem Alzheimer e eu vivo com essa pressa de ter conversa de verdade enquanto dá tempo, então esse negócio de "acontece uma vez" bate diferente aqui dentro.

Antes de ir embora, a Monja recitou de cabeça um poema do Machado de Assis que a mãe dela declamava quando ela era criança. Inteirinho, sem hesitar, sem engasgar. É sobre uma criatura que devora a si mesma e termina com a virada: tu vai jurar que aquilo é a morte, e ela responde que é a vida.

Eu falei que não consigo declamar nada. Aí eu lembrei que consigo, sim: a senha do acampamento do quartel, 2004. Fio amigo de madrugada, eu passando com fuzil na mão e no final tinha que dizer "a águia está pousada na torre e viu a terra sem força, urubu come carniça nas terras de Cruz Santa".

Não quer dizer porra nenhuma. Eu lembro até hoje.

A mãe da Monja deixou Machado de Assis de herança. Minha memória guardou urubu comendo carniça. Cada um com o seu acervo, né?

Anotei um monte nesse papo. Sério. Sobre mentira, sobre não esperar milagre da política, sobre o que eu quero que façam com a minha casca, sobre aproveitar o encontro que talvez não volte. E se serviu pra mim, tem uma baita chance de servir pra tu também.

O papo completo tá lá no canal do Flow no YouTube , e vale ver a cara de todo mundo na hora que a luz apagou. Dá o like, comenta aí que outro assunto tu queria ouvir com esses dois e manda no grupo da família (no da igreja também, que o Pondé vai adorar).

Muito obrigado pela moral, Monja . Muito obrigado pela moral, Pondé .

A gente se vê depois.