Imagine sair da Austrália e cruzar cinco continentes para entregar um avião no Brasil, voando a uma velocidade que faria qualquer jato comercial parecer um foguete.Esse é o cotidiano de Mário Jorge, conhecido como " O Comandante ", que recentemente compartilhou no Flow Podcast, com Igor 3K, os detalhes de sua profissão como piloto de translado . O trabalho, que mistura logística complexa, paciência extrema e sobrevivência em climas inóspitos, é essencial para o mercado de importação de aeronaves.
Diferente de um voo comercial convencional, o translado (ou ferry flight) exige que o piloto busque a aeronave em qualquer lugar do mundo e a traga voando até o destino final. Nos últimos dois anos, Mário Jorge realizou 32 viagens, sendo a mais emblemática uma travessia da Austrália para o Brasil em um avião monomotor pequeno.
Além de Mário Jorge, Fernando de Barthole também participa do episódio do Flow Podcast , com apresentação de Igor 3K . Barthole é piloto de avião, produtor audiovisual e criador de conteúdo digital com foco em aviação.
O trabalho do piloto de translado na importação de aeronaves
Para quem vê de fora, pode parecer apenas uma aventura, mas o trabalho de um piloto de translado é um processo rigoroso de importação. Mário Jorge explica que o serviço é geralmente contratado por empresas (CNPJs) que precisam nacionalizar o bem no Brasil. “O processo de importação, você tem que ter uma importadora, uma trade, todas as documentações. você tem que fazer entrada para um aeroporto internacional e nacionalizar esse avião".
A grande diferença entre levar um jato executivo e um monomotor está no tempo e no esforço físico. Enquanto um jato pode fazer o trajeto Nova York - Foz do Iguaçu em 10 horas com total conforto, o translado de um monomotor para seis pessoas pode levar cinco dias e cerca de 38 horas de voo. O piloto é a última ponta de uma operação de muitas camadas, visto que qualquer erro documental pode resultar na apreensão da aeronave ou em multas pesadas.
Além da burocracia, o piloto precisa lidar com a manutenção e as particularidades de cada máquina. Mário conta que, às vezes, quatro pilotos experientes podem ter dificuldade para ligar um motor frio devido aos "macetes" específicos de cada modelo, já que a aviação utiliza tecnologias consolidadas há décadas, como carburadores e afogadores, que não permitem erros no acionamento.
Os desafios de cruzar o mundo em um avião monomotor
A missão mais recente do Comandante foi um marco. "A mais longa de todas foi uma que eu fiz agora, mês passado. Cheguei da Austrália. Fiz Austrália - Brasil com um aviãozinho monomotor pequeno, atravessando cinco continentes". A jornada começou em Gold Coast e exigiu passagens pela Indonésia, onde o piloto chegou a avistar vulcões em atividade. Cruzar a Austrália inteira levou 14 horas, seguido por mais 7 horas até a Indonésia.
Voar em um avião monomotor em travessias globais significa estar refém da meteorologia de forma muito mais intensa do que em um jato comercial. Em aeronaves não pressurizadas, o teto operacional é limitado, geralmente em torno de 17.000 pés, o que impede o piloto de voar acima de grandes formações de nuvens ou tempestades. Isso exige que o profissional saiba ler o clima com precisão para evitar o maior inimigo dos aviões pequenos: o gelo.
A experiência na Groenlândia foi um dos pontos críticos citados na entrevista, inclusive. Em um vilarejo de apenas 125 habitantes, Mário Jorge ficou retido por oito dias por conta de nevascas severas. Em uma das noites, ventos de 170 km/h quase arrastaram o avião para o oceano, mesmo estando amarrado a argolas no solo. "Eu tinha amarrado o avião... esse dia ele sairia voando. Juro, ele voaria, ele voaria. Lá já teve história, inclusive de avião que foi indo pro lado e entrou dentro da baia", relatou o comandante.
Tecnologia e segurança no trabalho de um piloto de translado
Para amenizar os riscos de voar sozinho sobre oceanos e desertos, o piloto de translado moderno utiliza tecnologia de ponta. Mário Jorge destaca o uso da Starlink para manter a segurança do voo, permitindo que ele verifique o clima em tempo real nos aeroportos de destino e alternativa, além de solicitar autorizações de sobrevoo de forma ágil. Além da internet, ele carrega kits de sobrevivência, botes e o inseparável SOS da Garmin para localização em tempo real.
A segurança na aviação geral, embora menos burocrática que a comercial, é extremamente rígida no Brasil. Segundo Mário Jorge e Fernando de Borthole na entrevista com Igor 3K, o país segue normas internacionais que tornam a fiscalização constante. No entanto, o que realmente mantém um piloto vivo em situações críticas é o lema pessoal: "calma e elegância. [...] calma e elegância, está tudo certo. Aí você fica calmo, você consegue pensar o que fazer”.
Mário Jorge, inclusive, já planeja seu próximo grande passo: o projeto "Brasileirinho". Ele pretende realizar uma volta ao mundo completa este ano, acompanhado por um cineasta, para documentar as paisagens globais e mostrar que, com paciência e planejamento, é possível chegar a qualquer lugar. "Eu vou dar uma volta ao mundo, inclusive esse ano ainda”.