A Mônica era coadjuvante até dar uma porrada no Cebolinha (e outras que eu não sabia da Turma da Mônica)

A família que toca a Turma da Mônica sentou no Flow. Tu vai descobrir por que a Mônica virou dona da rua e qual maçã quase virou ração

Turma da Mônica participa do Flow
Foto: Reprodução/Flow
Turma da Mônica participa do Flow

Fala, galera.

Faz um teste aí. Levanta a mão quem aprendeu a ler com gibi da Turma da Mônica .

Pois é. O Maurício de Sousa faz essa pergunta em palestra, e segundo os filhos dele é raro alguém ficar com a mão abaixada. Eu levantaria as duas.

No Dia das Crianças, sentou aqui na mesa do Flow a turma que toca o Limoeiro hoje: o Mauro e a Marina, dois dos dez filhos do Maurício, e o Marcos, neto. Filho da Mônica. A Mônica de verdade.


E o papo foi pra lugares que eu não esperava. Por que a Mônica, que nasceu coadjuvante, virou dona da rua. A maçã que ia virar ração e virou fenômeno. E como é ser parado na rua por causa de uma fama que tu não pediu.

Eu cresci com esses gibis e hoje compro brigadeiro da Turma da Mônica pras minhas filhas. Pras minhas filhas e pra mim, vai. Ou seja, eu sou o público-alvo. E descobri que não sabia metade do que essa galera faz. Bora.

A protagonista foi escolhida pelo leitor

Primeira coisa que eu quis saber: o que o Maurício fazia antes de ser o Maurício? Quando eu nasci, a Turma da Mônica já era gigante.

O cara era repórter policial na Folha. Sério. Fazia as tirinhas no meio do expediente, mostrava pra quem desse bola, até que conseguiu publicar uma. O primeiro personagem foi o Bidu, inspirado num cachorro que ele tinha. Tanto que a empresa nasceu com o nome de Bidulândia, e o Bidu é o símbolo da MSP até hoje. (O Mauro, aliás, interpretou o próprio pai no filme sobre a vida dele. Imagina a sessão de terapia depois disso.)

Aí vem a parte que eu não sabia. A Mônica não foi criada pra ser protagonista. Entrou como personagem secundária numa tira do Cebolinha. E logo na primeira aparição, deu uma porrada nele.

Anos 60, mano. Uma menina baixinha descendo a mão num menino. O público amou, e foi o público que deu o protagonismo pra ela.

O Maurício, esperto, criou um personagem pra cada filho, justamente pra não arrumar briga em casa. Eu brinquei que, se fosse filho dele, ia ficar puto: o meu personagem mais famoso que eu. Eles riram e admitiram que esse problema é antigo na família. Com a Mônica e a Magali na mesma casa, o resto tem que nascer pianinho.

No fim das contas, quem escolheu a dona da rua foi o leitor. O Maurício só teve o bom senso de ouvir.


Eu chamei a sucessão de Game of Thrones (e eles riram)

Faz uns dois anos que o Maurício, a Alice (mãe da Marina e do Mauro) e a Mônica saíram da operação e passaram o bastão pros três. Gestão colegiada, todo mundo decide junto.

Aí eu perguntei o que todo mundo queria perguntar: vocês nunca saíram na porrada?

Verbalmente, todo dia. E os três fazem terapia, o que já explica muita coisa.

Eu insisti. São dez filhos na geração de cima, eu tô vendo dois e um neto. Como é que esses três saíram vitoriosos do Game of Thrones?

O Marcos levou a sério. Quem tá lá é quem já tava lá, trabalhando, há uns 20 anos. Ele começou no comercial, montou o departamento digital que a empresa nem tinha e assumiu o audiovisual em 2015. E eles fizeram questão de não romantizar: foi difícil, foram anos de consultoria especializada em sucessão, advogado e muita gente com opinião diferente na mesa.

E aí veio o detalhe que eu achei genial. Em 2019, o Maurício montou um comitê executivo com os três pra dar suporte à geração dele. Nunca falou “vocês estão sendo preparados”. Foi preparando pelos bastidores, do jeitinho dele.

É igual técnico que bota o moleque da base pra treinar com os titulares sem avisar que ele vai ser o camisa 10. Quando o moleque percebe, já tá jogando.

A maçã que ia virar ração

Agora a parte de negócio, que eu fiquei vidrado.

Muita gente acha que a MSP planta maçã, fabrica fralda e imprime gibi. Não. A MSP licencia. Empresta os personagens pra outras empresas, cuida da história, da arte, da aprovação, e quem fabrica é o parceiro. São mais de 7 mil produtos licenciados.

E as histórias por trás são boas demais.

A maçã da Turma da Mônica, aquela pequenininha, era descartada. Virava ração, virava suco, porque o povo queria a maçã grandona e vistosa. O Maurício foi lá, provou e achou perfeita pra mão de criança. Botaram numa embalagem, já lavadinha, e hoje é tonelada atrás de tonelada todo mês.

Tem o Jotalhão no extrato de tomate, parceria de mais de 60 anos que, segundo eles, é o licenciamento de personagem de quadrinho mais longo do Brasil. E tem o perfume do Cebolinha, que viralizou no TikTok e esgota toda hora. Não é criança comprando, é adulto. O Jean, nosso diretor, já tentou comprar e não conseguiu.

Aí eu dei a cutucada: vocês não tão deixando o dinheiro falar mais alto, não, né?

O Marcos não fugiu. Tem escolha que daria mais dinheiro, tem. Mas o Maurício ainda aparece lá quase todo dia. “Olhar pra cara do Maurício e falar: cara, vou me vender aqui?” Não rola.

Tu acha que tá comprando maçã. Tá comprando memória.

Mônica Toy foi vídeo curto antes de existir vídeo curto

Já que a gente tá falando de risco, esses caras têm histórico de apostar alto.

A Turma da Mônica Jovem foi pro mangá, em preto e branco, com todo mundo crescido. A sensação na época, segundo eles, era “talvez a gente esteja fazendo merda”. As quatro primeiras edições venderam mais de 1,5 milhão de exemplares. E o primeiro beijo da Mônica com o Cebolinha, nas contas deles, vendeu mais que aquela revista do Homem-Aranha com o Obama.

E o mangá não caiu do céu. A Alice é descendente de japoneses e desenha mangá. (“Às vezes eu suspeito que ela desenha mais que o meu pai”, soltou um dos filhos. Ninguém ouviu, ninguém viu.) O Maurício era amigo do Osamu Tezuka, o pai do Astro Boy. E os dois começaram a namorar numa viagem pro Japão, com a Alice de tradutora. O Japão foi o cupido.

Depois veio a Mônica Toy, lá por 2013. E aí eu tive que interromper: Mônica Toy é vídeo curto antes do vídeo curto. Sem fala, curtinho, feito pro YouTube.

E em abril rolou um reboot nos gibis. Acabou a etapa de arte-final que deixava todo desenhista igual, cada artista solta o traço dele, e a numeração voltou pro 1. A Milena ganhou revista própria, a primeira personagem negra da turma com gibi solo. Ninguém ganhava título novo desde a Magali, em 1989.

Uma marca de mais de 60 anos tendo coragem de mexer no traço. É foda.

Eu sou velho, eles não tavam mirando em mim

Teve uma hora que eu passei vergonha, e vou contar porque é justo.

Eles falaram da linha Graphic MSP, em que artista de fora reinterpreta o universo do Maurício com o traço dele. Foi dali que saíram os filmes Laços e Lições. E eu não sabia que isso existia, cara. Nada.

Um deles brincou que a divulgação tava falha. Eu falei que não: eu que sou velho, e eles não tavam mirando em mim. O Marcos me salvou com a explicação da bolha dentro da bolha. Hoje não dá mais pra falar com todo mundo ao mesmo tempo.

É por isso que eles tão “descendo” os personagens, que é como eles chamam dar mais camada. Comida favorita, música, time. O Cascão tá com o Corinthians, a Magali com o Santos, o Cebolinha ganhou livro com o Palmeiras. E o Jeremias é Flamengo.

Faz sentido. O Jeremias sempre foi o que mais manja de bola. (Tá quieto aí, Cascão.)

E aí veio o porquê disso tudo: criança não é perfeita, então personagem também não pode ser. Mônica perfeitinha ninguém aguenta.

“Eu só nasci, gente”

Aí eu soltei a pergunta que eu tava segurando: vocês já foram marrentos por serem filhos do Maurício de Sousa?

A Marina confessou que, pequena, morria de ciúme quando chegava fã pedindo foto. E o Maurício puxava ela de canto: “Filha, são fãs, eles gostam do papai.” Aprendeu na marra. O Mauro contou que o pai chegava a precisar de segurança em volta, de tanto assédio, e nunca deixou de ser humilde.

Eu tinha encontrado a Mônica, a mãe do Marcos, no fim de semana. Vi uns caras chegando nela emocionados, e ela respondendo: “Eu só nasci, gente.”

Loteria biológica, né? E eu falei pra eles o que eu penso: ganhou na loteria biológica, beleza. Agora faz o melhor possível com o prêmio. Aí o mérito é teu.

O Marcos tem a versão mais engraçada disso. Moleque, ele nunca contava que era filho da Mônica, mas sempre aparecia um amigo dedurando. Aí vinha a fila: quem é a Magali, quem é o Chico Bento, teu pai é o Cebolinha? Um amigo sugeriu que ele imprimisse uma ficha de personagem e andasse com ela na carteira.

Hoje a Marina tem um filho pequeno aprendendo a ler com os gibis. E quando algum personagem dá medo nele, ela leva o caso direto pra equipe. Controle de qualidade nível mãe.

E foi aí que o Marcos soltou a frase do papo: a Turma da Mônica não é do Maurício. É do Brasil. O brasileiro se sente dono, acha que mora no bairro do Limoeiro e que a Mônica mora na rua de trás.

O Cascão nunca vai tomar banho (e isso é uma aula)

Bom, pra gente finalizar, eu contei uma história que eu vi no feed e nem sei se é antiga. Os leitores enchendo o saco pro Cascão tomar banho. Na história, a turma para de brincar com ele, o desenhista se recusa a pintar o cara de tão fedido… até que ele toma banho. E fica sem graça. Não é mais o Cascão.

Um jeito classudo pra caralho de dizer: vocês não sabem o que tão pedindo. A resposta da mesa veio na hora: esse é o estilo Maurício de Sousa de ser.

É isso que eu anotei pra mim. Muda o traço, o formato, a plataforma. Mas o Cebolinha não aprende a falar nunca. Tu imagina ele mandando “o rato roeu a roupa do rei de Roma” certinho? Vira um boneco genérico qualquer.

No Flow é igual, tá ligado? A gente começou com webcam em cima de caixa de uísque e hoje é outra coisa. Mas se um dia a mesa deixar de ser conversa de bar, aí não é mais o Flow.

Ah, e o estúdio deles, na Lapa, é visitável. Dá pra agendar pelo site. Eu vou, e se rolar de apertar a mão do Maurício, eu aperto.

O papo completo tá lá no canal:  https://www.youtube.com/live/_mlp2e-se_g?si=mXwQDE0ZwF6fdvXk

Dá o like, compartilha, manda no grupo da família pra aquela tia que até hoje guarda a coleção de gibi. E comenta “do contra” aí embaixo, que é o personagem que a gente esqueceu de citar e o teste pra ver se tu chegou até aqui.

Obrigado pela moral, Marcos, Marina e Mauro. A gente se vê depois. Beijo.